Kylie Karson, cofundadora e VP de Produção & Desenvolvimento da Chera TV, defende que o futuro do streaming passa pelo vertical — mas com padrões éticos reais e um modelo que devolva poder a quem cria. Em entrevista, ela relembra o impacto de vivenciar abusos e falhas de liderança logo ao entrar na indústria, explica por que o formato vertical foi, por muito tempo, tratado de maneira exploratória e detalha como a plataforma pretende construir um “ecossistema criativo” liderado por artistas, com práticas de set mais humanas, cronogramas realistas e foco em segurança. Com lançamento previsto para 2026, a Chera TV quer impulsionar mais oportunidades e empregos para criadores e abrir espaço para histórias originais — sem depender apenas de fórmulas “seguras”.
A Chera TV foi criada como uma plataforma fundada por mulheres e voltada para criadores. Em que momento você percebeu que a indústria precisava de algo totalmente novo?
Sinceramente, no exato momento em que eu entrei nela. A gente ouve essas histórias de terror sobre como a indústria pode ser “ruim” ou “assustadora” para mulheres e, infelizmente, elas são verdadeiras. Eu entrei na indústria aos 24 anos e fui exposta imediatamente a ambientes em que o poder era abusado — muitas vezes de forma silenciosa, muitas vezes normalizada. Trabalhei ao lado de homens que se aproveitavam do sistema e vi amigas serem colocadas em situações desconfortáveis ou até perigosas, que poderiam ter sido evitadas com uma liderança melhor e mais responsabilidade.
Quando depois passei a atuar no universo do conteúdo vertical, vi outra coisa com muita clareza: o potencial. Conteúdo vertical é extremamente poderoso e acessível, mas também estava sendo conduzido de um jeito profundamente exploratório. Plataformas ganhavam milhões pagando a atores um valor fixo de 400 dólares por dia, sem propriedade, sem participação nos lucros, sem qualquer retorno real pelo sucesso do trabalho. É o mesmo problema estrutural que Hollywood sempre teve: artistas carregam o valor, mas raramente veem o retorno. Esse descompasso deixou claro para mim que algo novo não era apenas empolgante — era necessário.
Você descreve a Chera TV como um ecossistema criativo. Na prática, como esse modelo difere das plataformas tradicionais de streaming para os criadores?
A maior diferença é que toda a nossa equipe executiva é formada por artistas. Minhas cofundadoras e eu passamos anos — em alguns casos, décadas — trabalhando de fato em sets. Fomos atrizes, diretoras, roteiristas, produtoras. Conduzimos gravações, estivemos em gravações e vivemos na pele o que funciona e o que definitivamente não funciona. Por isso, nossas decisões vêm de experiência real. Entendemos como escolhas criativas impactam moral, segurança e o resultado final. Não somos executivas distantes tomando decisões de longe; somos pessoas que sabem como é chegar vulnerável ao set. Na Chera TV, não estamos construindo “em torno” dos criadores — estamos construindo com eles e para eles.
Conteúdo vertical muitas vezes é visto como limitado ou superficial. Como a Chera TV desafia essa percepção e eleva a narrativa nesse formato?
Eu acho que o conteúdo vertical só parece limitado porque as pessoas que estão no comando não exploraram completamente o que ele realmente pode fazer. Estamos começando a ver experimentações agora, mas por muito tempo executivos tiveram medo de arriscar. Esse medo não é exclusivo do vertical; a gente vê isso em estúdios tradicionais também. Por isso continuamos recebendo remakes e sequências. Elas são “seguras”. Dão dinheiro. Eu entendo a necessidade de ser lucrativa, mas histórias novas importam — e funcionam. Histórias originais, bem contadas, consistentemente performam bem quando recebem uma chance. Vertical é só um formato; não é um gênero. Ele pode comportar profundidade, tensão e narrativas que misturam gêneros — as pessoas só precisam estar dispostas a tentar.
Como produtora e executiva, quais valores são inegociáveis para você ao desenvolver projetos na Chera TV?
Eu não me importo o quão famosa a pessoa é, quanta experiência tem ou o quão impressionante é o currículo — se não for uma boa pessoa, é não. Colaboração, gentileza e um desejo genuíno de fazer com que as pessoas se sintam seguras no set são inegociáveis para mim. Eu prefiro alguém que apoia, é divertido e quer aprender do que alguém com dez anos de experiência, mas rude ou arrogante. Um set saudável cria um trabalho melhor, sempre. Como diretora, atriz e, especialmente, como executiva, minha prioridade número um é fomentar um ambiente em que as pessoas se sintam respeitadas, ouvidas e animadas por estar ali.
O cuidado com os criadores é um pilar central da plataforma. Como essa filosofia aparece nas práticas do dia a dia de produção?
Isso aparece nas pequenas escolhas consistentes. Priorizamos comunicação — não apenas de cima para baixo, mas entre toda a equipe. Pedimos feedback ativamente e seguimos envolvidas durante toda a produção. Muito da nossa abordagem vem de nos perguntar: o que deu errado nos sets em que já estivemos? O que poderia ter sido diferente? Às vezes é tão simples quanto ser mais consciente. Cumprir leis trabalhistas. Garantir pausas reais. Tratar elenco e equipe como seres humanos, não como máquinas. Parece básico, mas esses básicos são frequentemente ignorados — e fazem toda a diferença.
Conteúdo de curta duração está crescendo rapidamente, mas muitas vezes leva ao burnout criativo. Como a Chera TV pretende proteger o bem-estar mental e artístico dos criadores?
Eu, na verdade, acredito que o burnout acontece quando criar deixa de ser prazeroso. Quando tudo é apressado, sem suporte ou inseguro, é aí que as pessoas quebram. Criar é a minha força vital. Eu não me importo de ficar 12 horas no set quando estou gostando, quando é colaborativo, quando é divertido e respeitoso. Dito isso, somos muito intencionais em relação a limites. Priorizamos intervalos de 12 horas entre jornadas, pausas adequadas para almoço e cronogramas realistas. Na nossa próxima série, estendemos a gravação de sete para oito dias. Pode parecer pouco, mas fez uma diferença enorme. Vimos o quanto elenco e equipe ficaram exaustos no projeto anterior, e queríamos dar o tempo que eles realmente precisavam para fazer o trabalho bem, sem se sentirem correndo o tempo todo. Ainda não estamos em posição de fazer gravações muito mais longas, mas o meu sonho é um mínimo de dez dias. Essa é a meta.
Olhando para o lançamento em 2026, que legado você espera que a Chera TV deixe para a próxima geração de criadores?
Eu não sei se o nosso maior impacto vai ser sobre os criadores em si; acho que pode ser sobre os executivos. Algo precisa mudar em Hollywood — e precisa mudar agora. Criativos merecem trabalhar. Precisamos criar mais empregos, mais oportunidades, mais acesso. Alguém disse isso perfeitamente no Oscar: “Em vez de fazer um filme de 200 milhões de dólares, tentem fazer 20 filmes de 10 milhões.” É exatamente isso que o vertical está fazendo. A gente precisa parar de colocar todos os recursos em um único projeto gigantesco e começar a investir em muitos projetos menores. Isso significa mais histórias, mais vozes e mais gente tendo uma chance — não só os poucos no topo, mas quem ainda está tentando entrar. Se a Chera TV puder ajudar a empurrar essa mudança, nem que seja um pouco, então estamos fazendo algo certo.
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