A banda Ki’MBANDA lançou, no dia 13 de março, o álbum Ao Vivo no Showlivre, um registro que evidencia a força, a identidade e o posicionamento do grupo dentro do rock brasileiro. Gravado sem filtros, o trabalho apresentou ao público uma sonoridade marcada pelo afro rock e por mensagens contundentes sobre racismo estrutural, etarismo e ancestralidade. Com destaque para a faixa inédita “Respeita os Nego… Véio!”, o lançamento consolidou a Ki’MBANDA como uma voz ativa na cena contemporânea, unindo música, ativismo e experiência em um projeto que reafirma suas raízes e sua maturidade artística.
O álbum “Ao Vivo no Showlivre” parece funcionar quase como um manifesto da identidade da Ki’MBANDA. O que esse registro ao vivo revela sobre a essência da banda que talvez não apareça da mesma forma em estúdio?
Pode parecer até pretensão de nossa parte, mas nós somos melhores ao vivo. Na hora única, no instante da emoção. Características de um xire, ( a festa dos orixás) isso só se capta ao vivo, o espírito da música, e isso não vai aparecer em estúdio. A forma de como se toca, canta. São emoções únicas.
A faixa “Respeita os Nego… Véio!” traz uma mensagem direta contra o racismo estrutural e o etarismo. Como foi transformar experiências tão pessoais e reais em música?
É doloroso, mas é preciso, recentemente sofremos isso, e pior dos nossos iguais também, mas citamos outros pontos importantes, o do pertencimento, a ancestralidade. Virou nosso cartão de visita, sim somos Nego veio e com muito orgulho e sabedoria.

Vocês definem o som da banda como afro rock, uma fusão entre a tradição afro-brasileira e o peso do rock. Como essa linguagem musical foi sendo construída ao longo da trajetória da Ki’MBANDA?
Ela já estava lá a muito tempo, as estruturas do rock , soul, blues, até mesmo a tal da MPB…. Tudo ali tem a presença do Afro. As pessoas cantam Odara do Caetano ou Tempo Rei do Gil, e ignoram que essas músicas falam de orixas, esutam o toque de Simpaty for Devil, e não escutam ali os atabaques da Bahia.
Nos só trazemos o Afro a tona, tirando das camadas que o racismo tenta apagar. AP longo desses anos fomos nós descobrindo também. Tudo é tambor Afro e rock, Afro é pop Afro é tudo.
A banda também levanta uma discussão importante ao afirmar que “o rock é preto”. Por que vocês acreditam que ainda existe um apagamento das raízes negras dentro do gênero?
Isso não é uma discussão é uma afirmação, é se ainda existe apagamento? É o que mais existe, veja bem as estruturas da música, do mercado musical, o quanto eles não permitiam que artistas pretos se quer cantasem suas músicas ao vivo, e foram substituídos por cabelos cumpridos e meta linguagem nórdicas
Cara é foda, as pessoas cantam e louvam histórias Vinkings mas eu falar do meu Orixa é mi-mi-mi,, não amigo isso é racismo alto e “claro” se é que me entendem. E por que sofrendo tanto se eu falo que o rock é preto, é como se estivem roubando o sonho de rock star dos valentões de couro. É preciso ter muito talento pra se equiparar , ou como alguns balões de gaz helio o fizeram, roubar…neh ?

O processo de gravação ao vivo costuma trazer riscos e espontaneidade. Que momentos dessa session no Showlivre ficaram mais marcantes para vocês durante a gravação?
Ter que controlar o Krisx (vocalista). Ele é imprevisível. Esse era um risco terrível que foi vencido com sucesso. E a participação pela primeira vez das cantoras, que não dói risco e sim um presente.
A presença das backing vocals Nissa e Mayra Costa trouxe novas camadas à sonoridade da banda. Como essa colaboração ampliou a experiência musical da Ki’MBANDA?
Foi um.presente e um desafio, o Krisx é conhecido por interpretar as músicas nos show de forma ímpar, e sempre incrementar situações, letras, frases, com as meninas ele se comportou e trouxemos ao show um brilhantismo, que só é possível com a presença feminina. Hoje estamos mais audíveis, há uma força na voz que foi potencializada por duas mulheres pretas potentes e talentosas.

Todos vocês têm mais de duas décadas de trajetória na cena musical. Como essa maturidade artística influencia a forma como vocês compõem, se posicionam e encaram o mercado hoje?
Primeiro não há vaidades na banda, e isso já é estar 100 passos a frente que muita banda por aí, não há vaidade entre nós e nem em nós, não há deslumbre, há a vontade e a obrigação de fazer uma boa música, por nós e por quem veio antes de nós. Já passamos por.muita coisa, portas fechadas, puxadas de tapete, tapinhas nas costas traiçoeiros , e hoje nos sabemos que nem tudo que relux é de Oxum …é nem todo preto em.movimento é o movimento preto. Nas composições é uma mistura de tudo que vivemos então não tem como sair ruim.
A Ki’MBANDA sempre parece unir música, ancestralidade e posicionamento social em seus trabalhos. Que tipo de reflexão ou sentimento vocês esperam provocar no público com esse novo álbum?
Que o Rock realmente é Preto ,e porque isso foi e ainda é apagado e negado por muitos. Só essa reflexão já tá muito pano pra manga. O Afro Rock é lindo que podemos e devemos falar de outras culturas não euro centradas.

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