No romance “Rimas do Aleatório”, a escritora e mestre em Letras Karin Gobitta Földes acompanha a trajetória de Luísa, uma bióloga botânica que vive na Itália e vê seu presente atravessado por reencontros com pessoas e sentimentos do passado. Entre conversas cotidianas, lembranças compartilhadas e reflexões sobre escolhas de vida, a narrativa investiga os caminhos do amadurecimento, as transformações das relações e as diferentes formas de compreender a vida adulta. Ambientada em cidades italianas que dialogam com o percurso emocional da protagonista, a obra propõe um olhar sensível sobre o inesperado e convida o leitor a encarar a vida como um processo em constante movimento, longe de respostas definitivas.
Em Rimas do Aleatório, Luísa revisita vínculos importantes do passado já em uma fase madura da vida. O que te motivou a explorar esse momento específico — quando não somos mais quem éramos, mas também ainda estamos nos tornando quem seremos?
Foi minha própria experiência de vida. Quando comecei a escrever o livro eu tinha mais de 30 anos e quando reli e reescrevi tinha passado dos 40. Isso fez uma grande diferença. O amadurecimento nos trás novos olhares para nós mesmos e para a nossa vida e isso, claro, aparece na escrita. Passei a vida trabalhando, estudando, viajando e todos esses fatos me fizeram amadurecer, ver o mundo e as pessoas de uma outra forma. Então, quando reli o que tinha escrito achei infantil demais, aquilo não pertencia a mim na fase que eu estava num momento mais tarde. Só depois dessa reescrita é que finalmente resolvi publicar o livro.
O reencontro com Fernando e Renato não surge como um ideal romântico, mas como um espelho das transformações do tempo. Você acredita que revisitar o passado é mais um gesto de nostalgia ou de autoconhecimento?
Acredito que seja mais de autoconhecimento. À medida que vamos envelhecendo, olhamos para trás e vemos tudo o que se passou. Não é nostalgia, é autoconhecimento ter consciência do que fizemos de certo e o que não foi tão bom para nós e como as vivências nos trouxeram para o momento presente. É como se fosse uma prova para nós mesmos, um jeito de testarmos o que aprendemos, o que foi bom e o que não foi. Não precisamos ser tão velhos para isso, depois dos 40, 50 isso acaba acontecendo naturalmente.
A ambientação italiana parece dialogar diretamente com o estado emocional da protagonista. De que forma suas próprias vivências nesses lugares influenciaram a construção da atmosfera e das reflexões do livro?
Meu avô materno era italiano e tive influência disso na minha vida. Em 2018 fui à Itália onde passei 15 dias indo de norte a sul. De Milão à Roma passando por cidades conhecidas e outras menores, foram quase 20 cidades visitadas, com muita história, cultura, arte e natureza. Eu que já havia estudado o idioma italiano e a cultura daquele país, parece que me senti em casa. Minha avó materna era alemã, porém sempre passou, curiosamente, mais da cultura italiana do que alemã para mim. Assim, toda essa vivência anterior à viagem e o fato de sentir realmente como é o lugar influenciou muito na atmosfera de meu livro. Acabei passando essa experiência para minha narrativa.
A relação entre Luísa e sua irmã Lilian traz discussões sobre gerações, escolhas e identidade feminina. O que essas conversas revelam sobre as pressões e expectativas que ainda recaem sobre as mulheres adultas hoje?
Revelam como a mulher é e está na sociedade hoje, fazendo o público feminino refletir sobre seu próprio papel e as mudanças necessárias para que muitas coisas dentro desse papel mudem. Estamos em pleno século XXI e ainda há uma certa diferença entre brinquedos, por exemplo, que são de meninas e meninos. Aliás, falo disso em outro livro meu, o Uma menina muito maluquinha, uma paródia do Menino Maluquinho, porém escrito para que as meninas saibam que podem brincar de tudo e se transformar em grandes mulheres, independentes e de escolhas livres. Como Assistente Social, uma de minhas formações, trabalhei em ONG contra violência de gênero e percebi o quanto temos que mudar principalmente para sairmos do 5º lugar no ranking mundial de violência contra a mulher.

O título Rimas do Aleatório sugere que existe uma espécie de poesia no imprevisível. Em que momento você percebeu que o inesperado poderia ser não um obstáculo, mas o próprio sentido da narrativa?
Desde que iniciei o livro queria mostrar isso ao público leitor. A vida não é um roteiro definido, somos nós que o construímos com nossas vivências e experiências. Cada passo dado é para a direção de um caminho que escolhemos e que nos levará a algo. Não conhecemos o futuro e o passado são experiências que nos constroem. A vida não é um filme roteirizado. Ela é surpreendente. Como se diz no popular, a vida dá voltas, são ciclos que se passam. Naturalmente tudo é dinâmico. Estrelas nunca estão na mesma posição, plantas nascem num lugar, morrem em outro, as águas de um rio nunca são as mesmas E com a vida humana não é diferente.
O livro parece rejeitar a ideia de que a vida adulta precisa seguir um roteiro definido. Você acredita que a literatura pode ajudar as pessoas a se libertarem dessas expectativas sociais tão rígidas?
Sim, a literatura é muito potente, mais potente do que as pessoas imaginam. Ela não entretém apenas, ela ensina, nos faz refletir, transforma e cura. É lugar de expressão que nos mostra tantas coisas e nos move. Basta pensar em autores clássicos que com sua literatura nunca perderam esse poder. É saber que a arte em si é benéfica, curativa, como a arteterapia, a musicoterapia e a mais recente, porém não menos importante, biblioterapia, que é a terapia através dos livros, seja em poesia ou em narrativa e que vem crescendo gradativamente no mundo e no Brasil com a criação, por exemplo, da Associação Portuguesa de Biblioterapia e a Associação Brasileira de biblioterapia criadas o ano passado. Enfim, não é à toa que a literatura ainda está presente nos conteúdos escolares.
Durante o processo de escrita, houve algum momento em que você mesma foi surpreendida por Luísa ou pelas escolhas que ela fez? Como foi acompanhar emocionalmente o amadurecimento dessa personagem?
Acho que não, pois sou um pouco da Luísa, da mulher que ela é e se mostra no livro sem rótulos, sem tradições, seguindo sua própria vida e colocando ela mesma dentro do centro de sua história. Por isso, acompanhar emocionalmente o amadurecimento dela foi algo gostoso, que me fez sentir bem, principalmente pelos rumos que ela dá à sua vida. Ela sempre foi uma mulher forte e independente e isso a fez amadurecer de uma maneira incrível e criar um futuro fora dos padrões esperados pela sociedade. O amadurecimento da personagem de uma forma tão sem amarras , simplesmente surpreende.
Ao finalizar o livro, que tipo de sentimento ou reflexão você espera que permaneça com o leitor — especialmente aqueles que também estão atravessando fases de mudança e redefinição pessoal?
Eu espero que o leitor reflita sobre o que é tematizado no livro, principalmente nas conversas de Luísa e sua irmã. Também que ele consiga olhar para trás em sua própria vida e ver que nada foi em vão, são caminhos que cada um escolhe em sua própria vida que levam ao lugar do hoje. Não há como mudar, contudo há como pensar sobre como seguir em frente deixar o passado para trás, como página virada que trouxe uma lição de vida, sem ter medo de mudanças em qualquer época. A vida é para ser vivida, cada minuto, cada hora, cada dia conta e são tesouros deixados por um tempo que passa muito rápido. Nada deve nos prender, nem preconceitos, nem modelos sociais, nem os acertos e nem os erros. Um pássaro depois que aprende a voar descobre novos territórios e da mesma forma é nossa vida.
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