A cantora e compositora Glaw Nader faz da sua arte um caminho para ressignificar a música afrobrasileira e trazer de volta o protagonismo para artistas negros relegados ao segundo plano. Atualmente ela trabalha em um resgate do repertório de Baden Powell, instrumentista e compositor negro imortalizado até então, principalmente, por vozes brancas. Após se debruçar sobre os afro-sambas no EP “Canto de Xangô”, ela reúne parcerias de Baden com Paulo César Pinheiro no EP “Cai Dentro”, que ganha um clipe para a faixa-título, uma celebração dos encontros da vida.
A realização do projeto celebra, com novas cores, um repertório tão intimamente conhecido pela cantora, desde que estudava os afro-sambas para o Duo Alma e Raiz, formado ao lado do violonista Wagner Raposo a partir de 2016. Agora, Glaw mergulha ainda mais profundo na obra de um dos instrumentistas e compositores mais importantes da música brasileira, mas faz isso sob a perspectiva de uma intérprete que valoriza a história do autor e a sua própria, sua pele e sua voz. As faixas presentes em “Cai Dentro” são parcerias entre Baden e a lenda do samba Paulo César Pinheiro, como “Lapinha”, “Vou deitar e Rolar” e “Refém da solidão”.
O álbum “Tempo de amor” será o debut de Glaw Nader, com um repertório que coloca a negritude em primeiro plano – não só a de Baden Powell, como a da própria cantora. Nos arranjos, surge a presença marcante de instrumentos de percussão e um violão modal que remete ao estilo tão característico do próprio homenageado. O disco é guiado pelo vocal potente de Glaw e uma banda formada por metais, percussão, violão, baixo, bateria e teclado. Os arranjos são do guitarrista Samy Erick e incluem clássicos da MPB. Confira a entrevista!
Muito além de uma simples canção, as suas músicas buscam o propósito da ressignificação da música afro brasileira resgatando o protagonismo dos artistas negros. Quais foram os pontos iniciais que a fizeram mergulhar nesse projeto?
Primeiramente, uma pesquisa aprofundada na música popular brasileira, essa música brasileira de onde temos o samba e seus gêneros correlatos, que surge também da fricção de musicalidades entre o samba e jazz. Pesquisando os caminhos que possibilitaram que essa música brasileira se desenvolvesse, e a forma que ela foi adquirindo, foi possível chegar a uma espécie de raiz, que é a raiz afro religiosa, que pode ser entendida, inclusive, como uma ponte, um elo de ligação entre o samba e o jazz, já que ambos têm isso em comum: o samba que se desenvolveu nos terreiros de candomblé, encontrando as tias baianas (Tia Ciata, por exemplo), como criadoras e mantenedoras desses espaços, e o jazz, que vem do blues, que encontrou seu caminho na dissensão do vodun haitiano em Nova Orleans, tendo também como propiciadora do espaço uma mulher, a Marie Laveau. Para além desse aspecto histórico-social, houve o ponto crucial, o grande “start” para esse trabalho que foi o álbum Os Afrosambas (1966) de Baden e Vinícius. Disco aclamado pela crítica da época, como um divisor de águas, capaz de enegrecer a música popular brasileira. E o ponto negro ali, era ninguém menos do que Baden Powell. A negritude dele, expressa para além de sua pele, deixava sua marca na sonoridade que marcou todo o disco, em canções que foram eternizadas por vozes brancas.
O grande nome que você está homenageando é o do Baden Powell, instrumentista e compositor negro e que até então teria sido imortalizado por vozes brancas. Em sua opinião, porque apesar do racismo existir, os artistas brancos buscam trabalhar com a arte de músicos negros?
É impossível falar sobre isso, sem falar em racismo estrutural e na máquina de colonização, que mesmo não sendo totalmente intencionais por parte dos artistas brancos, ainda estão lá e regem suas ações e escolhas. Há um consenso nessa prática colonizatória de que tudo é do branco, de que o que ele quiser ele pode tomar e se apropriar do que quiser. E o racismo nos mostra, dia-a-dia, que o branco ama a cultura negra, só não ama a pessoa negra. Por isso, não se incomodam em continuar invisibilizando a criação dos artistas negros tomando para si e sua branquitude o protagonismo.

A respeito do protagonismo negro, apesar de todas as ações culturais e sociais que têm sido promovidas no mundo, acredita que ainda exista muito a ser conquistado pela frente? Há quantas estamos de construir uma sociedade sem preconceitos?
É interessante a gente dizer “apesar de todas as ações culturais e sociais que têm sido promovidas no mundo”. O que eu e toda pessoa preta consciente ao redor do mundo vemos é que falta muito ainda pra gente tentar minimamente equilibrar as coisas no quesito igualdade racial. São tantas centenas de anos tendo a nossa humanidade negada, nosso intelecto apagado e nossa existência violentada, que a gente precisa, pelo menos de um bom par de século ainda, com trabalho árduo e ações efetivas que visem mais a justiça do que a igualdade para que a gente de fato consiga vislumbrar uma sociedade em construção contra o racismo. Porque a verdade é que não basta apenas não ser racista, é preciso ser um agente anti-racismo. Alguém que aja efetivamente na luta anti-racista, desde seu pequeno círculo familiar e de amigos, expandindo isso, até se tornar regra e não exceção.
Em relação ao seu trabalho através da música, qual acredita ser o verdadeiro potencial da música como forma de conscientização e qual acredita ser o seu principal propósito ao investir nessa arte como profissional?
Como artista pesquisadora que sou, acredito no potencial formador de público consciente, que compreende a história por trás do som. Que não se limita a ouvir apenas a canção sem se atentar para o texto narrado, pra história contada nas entrelinhas. A estética sonora que proponho nesse trabalho de releitura da obra de Baden Powell, por exemplo, traz uma ressignificação dessas canções, quando eu, uma cantora negra, uma mulher de Candomblé, trago a minha voz para essa obra. Nesse lugar, eu retomo o protagonismo negro, reivindicando essa negritude e protagonismo primeiramente para Baden e em segundo, a minha própria, quando trago a minha ancestralidade para essa música. Como se essa música, nesse caso, retornasse Baden, eu e sua obra para a mãe África, com elementos estéticos presentes nos arranjos que reforçam esse caminho. É de extrema importância que a nossa história seja contada por nós mesmos. É disso que se trata o protagonismo negro.

Anteriormente lançado o EP “Canto de Xangô”, explorando os afro sambas, você está reunindo no EP “Cai Dentro”, parcerias de Baden e Paulo César Pinheiro. Qual tem sido o principal diferencial que vem trabalhando nesse segundo lançamento?
Bem, o disco que virá, “Tempo de Amor”, reúne 14 canções compostas por Baden Powell em parceria com Vinícius de Moraes, Paulo César Pinheiro e Lula Freire. No EP “Canto de Xangô”, fiz questão de apresentar os afro sambas (composições de Baden e Vinícius) que escolhi para compor o disco. A temática está entre os Orixás e a nossa forma de viver o amor e suas agruras. No EP “Cai Dentro”, trago os sambas emblemáticos, compostos por Baden Powell em parceria com Paulo César Pinheiro, como “Vou deitar e rolar”, “Lapinha” e o próprio “Cai Dentro”. Sambas eternizados na voz de Elis Regina bastante conhecidos pelo público. Arranjos elaborados com metais (sax, trombone e trompete) além das percussões, um piano afro cuban em “Lapinha”, por exemplo, sempre acompanhados pelo violão, pontuam esse EP em especial. A proposta é a de retomar o protagonismo da história, por meio da voz negra, e trazer nos elementos sonoros e estéticos, coisa que já viemos trabalhando também na mixagem do disco, evidenciando a negritude, por assim dizer, reforçando o discurso afrocentrado do disco.
A sua conexão com esse repertório abordado já vem de muito tempo, desde que era parte do duo Alma e Raiz, formado com o violonista Wagner Raposo. Como foi a experiência de trabalharem juntos?
Foi uma grande experiência. O ponto de partida nessa pesquisa em música brasileira, localizada nos afro sambas e sambas de terreiro, me levou a muitos autores e canções. Entre pontos e contos, fomos descobrindo a riqueza da nossa música e o quão afro brasileira é a música brasileira. A bem da verdade, como já bem disse o maestro Letieres Leite, toda música brasileira é afro brasileira em essência. E esse era o nosso mote. Pesquisar e reunir afro sambas, sambas de roda, sambas de terreiro, com a finalidade de difundir esse repertório em concertos didáticos, já com o intuito de recontar essa história. Nunca, jamais, como forma de resgate. Mas, como retomada de protagonismo, sempre.
Um dos grandes projetos que realizou é o álbum “Tempo de Amor”, um debut do repertório que coloca a negritude em primeiro lugar. Para você, o que define a palavra “negritude” na música brasileira e o quanto ela colabora para o reconhecimento do ser humano negro na sociedade?
A começar pelo título do álbum “Tempo de Amor” que é uma das faixas do disco, composta por Baden em parceria com Vinicius de Moraes, a premissa é destacar a pessoa negra como sujeito de amor. Que ama e é amado. Feito de amor e para o amor. E por si só, essa escolha já é a contramão do que se tem no imaginário coletivo. Para a maioria, negritude é sinal de solidão e sofrimento. O que é importante ser colocado em voga aqui é que muito antes de serem escravizados, meus ancestrais eram reis, rainhas, príncipes e princesas, generais e guerreiros em África. Gente comum, que vive, ama, chora e ri, como qualquer outra pessoa. A negritude está nas claves africanas, impressas nos ritmos da música brasileira, está na temática e histórias que a música brasileira canta aos montes, que tantos poetas e letristas brancos escreveram como suas próprias histórias e sentimentos, está na voz, e no toque de todos os músicos negros e negras que arranjam, tocam, cantam e produzem essas mesmas músicas. Está na Chiquinha Gonzaga, no Pixinguinha, no Luiz Gonzaga, no Moacir Santos, no Baden Powell, na Clementina de Jesus, no Tim Maia, na Sandra de Sá, no Jorge BenJor, no Wilson Simonal, na Elza Soares, na Alaíde Costa, na Leny Andrade, na Tânia Maria, no Milton Nascimento, no Gilberto Gil, no Jair Rodrigues, no Djavan, no Arlindo Cruz, no Jorge Aragão, no Cassiano, e em inúmeros outros que estão aí, já estiveram e ainda virão. É nesses pretos e pretas que a música brasileira, tão mais afrobrasileira do que se pode imaginar, resiste e persiste. E isso, é impossível negar.
Por fim, o que a fez escolher o Baden Powell como fonte de inspiração para trabalhar seu álbum?
Antes de tudo, o que Baden significa para a música brasileira. O violão modal e rítmico, de sonoridade única, que colocou o violão brasileiro em destaque no mundo. A composição primorosa de Baden. Sua capacidade de articular harmonia e ritmo com uma melodia sempre nova e marcante. Num próximo plano, o fato de que ele era o elemento que colocou o disco dos Afrosambas (1966) como o divisor de águas de que a imprensa da época falava, afinal as vozes eram de Vinicius e o Quarteto em Cy, os arranjos de Guerra-Peixe, o fator negro, capaz de enegrecer a música brasileira a partir daquele disco era Baden. Outro ponto importante: suas obras foram imortalizadas em vozes brancas. Suas histórias contadas e cantadas por vozes brancas. Colocar a minha voz nas músicas de Baden é reivindicar a sua negritude e a de sua obra. É recontar a história a partir de um ponto de vista negro. O ponto de vista ideal. É retomar o protagonismo do próprio Baden em suas músicas, colocando-o como centro da criação em sua obra, lugar que lhe é mais que devido. E a partir disso, fortalecer a identidade de um povo e sua negritude. Através desse tributo, me permito evidenciar a minha própria negritude, quando evidencio a negritude de Baden Powell e de sua música.
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