Em O amor existe? Depende, o estreante Geraldo Trindade transforma memórias e observações íntimas em literatura para investigar como o amor pode coexistir com tensões, agressões e comportamentos naturalizados dentro de casa. Com uma narrativa autobiográfica sensível e sem sensacionalismo, o autor expõe a ambiguidade dos vínculos familiares e propõe uma reflexão contemporânea sobre violência doméstica, responsabilidade emocional e reconstrução, deixando lacunas intencionais para que o leitor reconheça e repense padrões que muitas vezes permanecem silenciados no cotidiano.
O título “O amor existe? Depende” já carrega uma provocação forte. Em que momento da sua trajetória pessoal você sentiu que essa pergunta precisava ser feita – e escrita?
Não houve um momento específico. Ao logo de minha vida fui percebendo o contraste extremo que existe em relacionamentos afetivos, por exemplo: eu vivo há 48 anos em um relacionamento harmonioso e feliz, e sempre me refiro a minha esposa como sendo a razão do meu viver; muito diferente de relacionamentos em que pares de alianças dão lugares a pares de algemas.
Ao transformar vivências íntimas em literatura, como foi o processo de revisitar memórias familiares que envolvem afeto, mas também dor e ambiguidade? Houve momentos de resistência interna durante a escrita?
Não, nenhuma resistência, pois as agressões que sofri não deixaram traumas, eram desprovidas de ódio. A paternidade me fez ver este lado.
Você opta por não recorrer a relatos explícitos ou sensacionalistas sobre violência doméstica. O que essa escolha narrativa revela sobre a forma como você acredita que esse tema deve ser abordado na literatura?
O livro tem a vantagem de entrar nos lares, onde o Estado não pode estar presente. E eu preferi enfatizar a minha linda história de amor ao invés de relatar sobre uma violência comum à época. Quanto ao resultado, no pequeno distrito onde moro desde que nasci o livro superou todas as minhas expectativas entre os leitores; recebi centenas de mensagens dos mesmos, e até fui homenageado na Câmara Municipal da cidade de Mariana – MG. O comentário que mais me chamou a atenção dentre os que me foram enviados, foi o seguinte: “Se eu fosse um agressor de mulheres, depois de ler este livro, eu teria vergonha de me olhar no espelho”.
O livro mostra como a violência pode surgir justamente em espaços onde se espera proteção. Por que você acredita que essas tensões ainda são tão naturalizadas dentro das relações familiares?
É uma interdependência que por si só não gera violência, mas é muito desconfortável, principalmente para a mulher. Parece que as gerações que vão passando, estão servindo de laboratório para as mulheres, que cada vez mais vão se libertando da dependência material em relação ao homem, enquanto muitos homens não conseguem se livrar da dependência psicológica em relação à mulher. E em muitos casos, vem um ciúme doentio que aniquila o amor e expõe o que há de pior no ser humano; e a força física superior, que seria para prover e proteger, passa a ser usada para agredir. E neste caso, faltam opções para a vítima.

Ao deixar lacunas para que o leitor interprete e reconheça aspectos da própria realidade, que tipo de diálogo você espera provocar com quem lê a obra?
Fiz um livro muito resumido, para que pudesse ser lido por qualquer pessoa e em qualquer lugar. E as centenas de pessoas que o leram, tiveram reações diferentes, em grupos diferentes. Mães de família, principalmente de minha faixa etária, foram às lágrimas. Professoras o levaram para debater em salas de aula e me mandaram mensagens ou cartinhas. Casas relataram que o relacionamento subiu de patamar. A de se ressaltar que moro no mesmo distrito desde que nasci, e todos me conhecem e são testemunhas oculares do que leram. Mas como a forma humana é universal, eu acredito que a reação das pessoas será a mesma em qualquer lugar.
Em meio às histórias de ruptura, o livro também aponta caminhos de reconstrução e esperança. Para você, o que torna possível romper ciclos de silêncio e agressão dentro do ambiente doméstico?
Em relação ao silêncio das vítimas, a tecnologia e a informação têm se mostrado muito eficientes. Quanto as agressões a mulheres, pode ser por diversos motivos, mas nenhum se justifica. Eu, felizmente, não tenho nenhuma experiência própria nesse sentido. Muitos casos de violência acontecem por traição ou pelo fim do relacionamento; fidelidade não é prova de amor, é prova de respeito, e haja respeito! Porque a natureza, no seu propósito de perpetuar a espécie fez a paixão, mas não a fidelizou. Eu, que sempre me refiro a minha esposa como sendo o grande amor da minha vida, sinto-me inteiramente correspondido, mas em caso de ruptura, não gostaria que fosse nem por traição, nem de maneira repentina. Sem querer dar um tom jocoso a um assunto tão sério, para começar houve um tempo de namoro, porque não um tempo de “desnamoro” para terminar? A título de ilustração, vamos utilizar um exemplo com o mercado imobiliário. Você aluga uma casa, por tempo indeterminado, o que você prefere: que o proprietário lhe avise com antecedência que vai precisar do imóvel, ou lhe ê o despejo imediatamente? Ou pior ainda, que coloque em sua ausência outro inquilino dentro da casa? Existem maneiras mais dignas, honestas e civilizadas de se por fim em relacionamentos que já não fazem mais sentido.
A ideia de que o amor não é absoluto, mas uma construção baseada em atitudes e escolhas, atravessa toda a narrativa. Como essa percepção mudou a sua forma de se relacionar — consigo mesmo e com os outros?
Eu sempre fui muito bem humorado, e o fato de eu ter saído de um lar sem colo, sem abraço, sem diálogo, para um lar pautado no amor e no respeito, e vendo os relacionamentos tomando os rumos diferentes, se me perguntarem se o amor existe, minha resposta é: depende.
Depois de colocar essas reflexões no mundo, que tipo de transformação você espera que “O amor existe? Depende” possa provocar, tanto em leitores que viveram situações semelhantes quanto na sociedade como um todo?
Vamos analisar o título: O amor existe? Depende. Depende de quê? Depende de você atender às expectativas do outro. A paixão é um processo natural, porém o amor parece mais uma decisão do que um sentimento. Decisão esta que depende de tais expectativas. Tem uma frase de um pensador que diz que “o tolo aprende com os próprios erros e o sábio aprende com os erros dos outros”, assim sendo, acredito que cada capítulo do meu livro sirva de orientação, tanto para ser imitado ou evitado, pois é uma obra fidedigna, na qual falo sobre um amor impossível de ser superado, mas que também tem comportamentos que podem ser interpretados como crime, machismo, ou recalque. Espero que o leitor passe a considerar este depende em seus relacionamentos. E se o amor é construído com o tempo e ainda depende do outro, a transformação que eu espero, é que foquem no respeito, porque este você pode exigir, é concreto e imediato.
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