Fátima Sá Paraíba mergulha em mistério e tradição no romance “Mortes no Sobrado”

Luca Moreira
6 Min Read
Fátima Sá Paraíba
Fátima Sá Paraíba

Ambientado no sertão da Paraíba entre as décadas de 1970 e 1990, “Mortes no Sobrado”, de Fátima Sá Paraíba, constrói uma narrativa marcada por mistério, memória e tensões sociais. Ao acompanhar a investigação de crimes ligados ao passado sombrio de uma família influente, a autora combina elementos clássicos do romance policial com a força do regionalismo nordestino, explorando crenças populares, traumas coletivos e a persistência de segredos que atravessam gerações. Em entrevista, Fátima reflete sobre a construção desse universo, o papel da cultura sertaneja na obra e a busca por justiça em meio às sombras.

Como nasceu a ideia de construir uma história policial ambientada nesse universo tão carregado de identidade cultural?

A ideia nasceu do desejo de contar uma história de suspense que não estivesse desligada da realidade cultural do sertão. Sempre senti que o sertão paraibano guarda muitos silêncios, muitas histórias que ficam guardadas nas paredes das casas antigas e na memória das pessoas mais velhas. O gênero policial me pareceu um caminho interessante para revelar esses segredos, porque a investigação permite abrir portas que normalmente permaneceriam fechadas. Assim, o mistério do crime acaba sendo também um caminho para revelar a alma daquele lugar.

De que forma o sertão paraibano ajudou a moldar o clima e os acontecimentos do livro?

O sertão paraibano não é apenas cenário; ele molda a maneira como as pessoas pensam, falam e se relacionam. As crenças populares, as histórias contadas nas calçadas ao entardecer, o respeito pelos mais velhos e até certos medos coletivos fazem parte da construção da narrativa. Em Aroeira, a cidade fictícia do romance, procurei reunir esse universo simbólico do sertão: o tempo parece caminhar mais devagar, mas as memórias permanecem muito vivas. Esse ambiente ajuda a criar uma atmosfera de mistério que atravessa toda a história.

O que você quis explorar sobre o peso da herança familiar?

Sempre me intrigou a ideia de que algumas histórias não terminam em uma geração. No livro, o passado da família Gomes Barreto continua influenciando o presente, como se as ações antigas deixassem marcas profundas que atravessam o tempo. Quis refletir sobre como as violências, os silêncios e as injustiças podem se perpetuar quando não são enfrentados. Ao mesmo tempo, a narrativa também sugere que compreender o passado é um passo necessário para quebrar esses ciclos.

Como encontrou o equilíbrio entre o suspense policial e a dimensão simbólica da memória e da tradição?

Procurei construir o suspense respeitando o ritmo das histórias do interior, onde muitas vezes os acontecimentos são revelados aos poucos, em conversas, lembranças ou pequenos detalhes do cotidiano. As lendas e tradições do sertão entram na narrativa não como elementos decorativos, mas como parte da visão de mundo dos personagens. Dessa forma, o suspense policial convive naturalmente com a memória coletiva e com o imaginário popular.

Fátima Sá Paraíba
Fátima Sá Paraíba

Que tipo de humanidade você quis trazer para o inspetor Pingo D’Água?

O inspetor Pingo D’Água representa alguém que busca fazer o que é certo mesmo em um ambiente cheio de ambiguidades. Ele não é um herói perfeito; é um homem atento, sensível às histórias das pessoas e capaz de perceber que por trás de cada crime existe um contexto humano complexo. Quis construir um personagem que investigasse não apenas os fatos, mas também as motivações e as dores escondidas por trás deles.

Como surgiu o personagem Fedorento e qual seu papel simbólico?

O flautista Fedorento surgiu quase como uma figura do próprio imaginário do sertão — aquele personagem que parece estar sempre presente, observando tudo, mas falando pouco. Ele representa uma espécie de testemunha silenciosa da história. Sua presença lembra que existem olhares atentos mesmo quando ninguém parece perceber. De certa forma, ele simboliza a memória do lugar, aquela que guarda tudo, mesmo aquilo que as pessoas prefeririam esquecer.

A literatura pode provocar reflexão sobre injustiças sociais?

Acredito que sim. A literatura talvez não mude o mundo de forma imediata, mas ela tem a capacidade de despertar perguntas e sensibilizar o leitor. Quando uma história revela injustiças ou silêncios históricos, ela convida o leitor a refletir sobre essas realidades. No caso de Mortes no Sobrado, a busca por justiça dentro da narrativa também é um convite para pensar sobre as injustiças que muitas vezes permanecem escondidas nas estruturas sociais.

Como sua formação acadêmica e sua sensibilidade poética influenciam sua escrita?

Minha formação em literatura me deu ferramentas para compreender melhor as estruturas narrativas e os caminhos possíveis dentro da ficção. Já a sensibilidade poética influencia principalmente a maneira como observo o mundo e descrevo os ambientes e personagens. Gosto de pensar que minhas histórias são construídas no encontro entre essas duas dimensões: o estudo da literatura e a escuta sensível das vozes, das paisagens e das memórias do lugar de onde venho.

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