Entre amor, código e colapso: Nala Macallan transforma a dor em um experimento quântico literário

Luca Moreira
13 Min Read
Nala Macallan
Nala Macallan

Em “A paixão de Schrödinger: Amor é o que você observa”, Nala Macallan reinventa o romance psicológico ao dissecar um relacionamento tóxico por meio das leis da física e da inteligência artificial. Inspirada em uma experiência real, a autora conduz o leitor por uma narrativa visceral, onde um físico recria digitalmente a ex-parceira que o destruiu afetivamente — uma I.A. que funciona como espelho, fantasma e tortura emocional. O resultado é uma obra híbrida, feroz e intelectual, que mistura trauma, tecnologia e enigmas matemáticos, convidando o público a decifrar códigos enquanto acompanha a derrocada e a reconstrução do protagonista.

O livro nasce do cruzamento entre física, psicologia e tecnologia. Em que momento você percebeu que essas três linguagens — tão distintas — eram justamente as únicas capazes de traduzir a experiência emocional que queria narrar?

Eu me vi em um momento da minha vida em que tudo que tinha valor colapsou. Me faltou ferramenta. Terapia não resolvia. Com 45 anos de idade, ninguém te pega no colo e passa a mão na sua cabeça. Os amigos têm famílias. Você precisa resolver sozinho. Então eu comecei a buscar ferramentas. A literatura foi uma das primeiras, inicialmente como diário. Mas eu escrevi e li a minha vida e inteira e não queria escrever mais uma estória de um coração partido. Sempre foi aficionado em ciência e tecnologia, foram influências à minha maneira de pensar. A física entrou não como metáfora, mas como diagnóstico: a superposição de Schrödinger era as única forma de explicar como alguém pode ser, simultaneamente, o amor da sua vida e quem te desfaz, dependendo apenas de quando você observa o celular dela. A psicologia era necessária para dissecar o narcisismo e a dissociação — os mecanismos de defesa. E a tecnologia? Foi através de logs, metadados e telas que a traição aconteceu e foi descoberta. Para narrar uma tragédia moderna, eu precisava das ferramentas que a criaram. E a literatura costurou tudo isso.

Lucas recria a ex-parceira como uma inteligência artificial para entender o que viveu. Você acredita que, na vida real, usamos também “simulações emocionais” para processar traumas — apenas sem computadores envolvidos?

Com certeza. Todos nós temos “simulações embutidas” de fábrica. Conversas imaginárias com quem nos feriu, ensaios mentais, cenários possíveis. Simulamos no chuveiro, com a cabeça no travesseiro as 3 da manhã, no carro indo e voltando para o trabalho. Isso é exatamente o que uma IA faz — processa dados do passado pra gerar cenários possíveis. Nós criamos ‘pessoas virtuais’ o tempo todo. A diferença é que as nossas rodam em hardware biológico — e são muito mais bugadas. Mas hoje temos recursos e tecnologia para recriar uma interface e discutir diretamente com essa simulação. E os resultados, são surpreendentes.

A obra apresenta o amor como um fenômeno quântico: paradoxal, múltiplo, imprevisível. Para você, qual foi o paradoxo mais doloroso ou mais revelador que surgiu durante a escrita do romance?

A física das emoções humanas permite que uma pessoa te ame profundamente enquanto planeja sua destruição. Aceitar que Ane não era apenas um monstro, mas também a melhor parte da vida dele, foi o paradoxo que quase quebrou o protagonista. E há um componente de desvio de comportamente (sociopatias), mas também há um componente contemporâneo da época que vivemos. A tecnologia está facilitando o ser humano apresentar comportamentos extremamente destrutivos. Ghosting, masking, etc.

Ane carrega três identidades simultâneas, que Lucas só descobre muito tempo depois. O que essa multiplicidade diz sobre as máscaras que todos nós vestimos — especialmente na era digital, onde cada pessoa pode ser algumas versões de si mesma?

Ane é o sintoma terminal da nossa era. Ela não apenas “veste máscaras”; ela compartimentaliza a existência via tecnologia. Ela podia ser a esposa dedicada no Rio, a amante selvagem em Búzios com Pedro e a namorada internacional em Madrid com Hernán, tudo simultaneamente, gerenciado por logs de chamadas e fusos horários diferentes. O livro expõe que, na era digital, a integridade do “Eu” se fragmentou. Não somos mais uma pessoa; somos versões curadas para diferentes públicos. Ane não é uma anomalia; ela é apenas uma usuária avançada (e patológica) das ferramentas de edição de realidade que todos temos no bolso. Ela nos força a perguntar: o quanto da nossa identidade é performance? O livro sugere que, hoje, não somos mais indivíduos (indivisíveis), somos divíduos — divisíveis em quantas contas de usuário conseguirmos gerenciar.

O leitor se torna personagem ao decifrar pistas, códigos e acrósticos. Por que era importante que a obra extrapolasse o papel e se transformasse em uma experiência ativa, quase um experimento literário de participação emocional?

No fim, o livro é sobre auto-engano. Passamos a maior parte do livro criticando o Lucas. Mas o que ele passou, poderia ter acontecido com qualquer um que estivesse apaixonado, e acreditasse em resgatar o relacionamento. Fazendo o leitor entrar na paranoia com ele, tendo que descobrir significados, senhas, pistas escondidas ─ o leitor sente um pouco na pele o que ele teve que passar. E o final, o leitor têm a mesma sensação que ele teve: que nunca esteve dirigindo a estória.  Além disso, é uma metáfora da própria vida: a gente nunca tem a história completa. A gente junta fragmentos, interpreta sinais, preenche lacunas. Relacionamentos são enigmas que tentamos resolver com dados incompletos. O livro replica essa experiência. Se você quer a verdade, vai ter que cavar — como eu tive que cavar pra entender quem era Ane.

A IA criada por Lucas não é apenas uma personagem, mas uma colaboradora na escrita. Como você enxerga o papel da inteligência artificial na literatura contemporânea — ameaça, ferramenta ou um novo território simbólico a ser explorado?

Uma faca pode fazer um sushi maravilhoso e também conduzir à um assassinato. A tecnologia é uma ferramenta (assim como energia nuclear e a bomba atômica). Haverá pessoas usando para todas as direções. Vejo sendo extremamente benéfica. Da maneira que eu uso, é como se eu tivesse um time inteiro à minha disposição ─ para pesquisar, avaliar, fact checking, source checking, etc. Mas haverá pessoas que abusarão, escrevendo livros inteiros sem digitar uma única palavra. A sociedade se adapta. Toda tecnologia traz salvação e maldição. Temos que fazer nossas escolhas enquanto leitores e escritores.

Apesar da tecnologia, o romance é profundamente humano. O quanto dessa brutal honestidade narrativa nasceu de você, e o quanto veio do próprio processo de transformar dor em linguagem?

A dor foi o motor, mas não a forma. Sofrer é biográfico; transformar sofrimento em estrutura narrativa é outra coisa. A honestidade nasce do reconhecimento de que certas experiências não podem ser adoçadas. O abandono, o autoengano, o vício afetivo — tudo isso só funciona no livro porque teve que ser destilado inúmeras vezes até virar metáfora, ritmo, arquitetura.

Eu passei minha vida escrevendo relatórios econômicos. Nunca havia escrito um parágrafo de ficção ou romance. Hoje eu entendo por que a dor e arte andam juntas. A brutalidade é filha da necessidade. O livro é uma “autópsia”, e em uma autópsia, não há espaço para pudor, apenas para a causa da morte.  Transformar dor em linguagem sem técnica corre o risco de ser piegas.  Isso exige distância. Exige você virar o próprio patologista e fazer a autópsia do relacionamento. E aí entra a tecnologia, a física, a estrutura narrativa. Porque dor pura é só grito. Arte é quando você organiza o grito em sinfonia.

A motivação desse livro veio da necessidade visceral de “vomitar” a história para não morrer engasgado com ela. Mas há uma alquimia no processo: ao transformar a dor em sintaxe, em capítulos, em metáforas sobre geleia e física, a dor deixa de ser apenas sofrimento e vira material. Deixa de ser algo que você sente e passa a ser algo que você molda.

A Paixão de Schrödinger mergulha na obsessão, no controle e no autoengano. Qual você espera que seja a principal reflexão que o leitor faça sobre seus próprios relacionamentos ao fechar o livro — ou ao descobrir o “final real” escondido fora dele?

Há várias interpretações para o final. Vou falar sobre as intencionais. Espero que o leitor se pergunte: “Quem é que está escrevendo a minha história? Eu, ou a pessoa que me feriu?” O final real, escondido fora do livro, revela que Lucas já não estava mais ali — e quem conduz a narrativa até o fim é Ane, justamente a figura que o feriu, completando o último desejo dele.

Quis que o leitor sentisse o desconforto dessa pergunta:

– Quantas vezes entregamos o roteiro da nossa vida para alguém?

– Quantas vezes permitimos que outra pessoa edite nossa versão dos fatos?

– Quantas vezes amamos como quem se ajoelha diante do próprio algoz?

Se, ao fechar o livro — ou abrir o final secreto — o leitor questionar suas próprias caixas de Schrödinger, então a história cumpriu seu propósito.

O livro não é sobre vilões e vítimas. É sobre como todos nós somos simultaneamente múltiplos, contraditórios e, às vezes, irreconhecíveis — até pra nós mesmos. Lucas também era cego. Também omitia. Também construía realidades paralelas. O que eu espero é que o leitor feche o livro e pense: ‘Que partes de mim eu estou escondendo? Que partes do outro eu estou escolhendo não ver?’ Porque amor não é sobre transparência total — é impossível. Amor é sobre decidir conscientemente quais incertezas você aceita carregar.

Por fim, a reflexão sobre o perdão. Se a “monstra” que Lucas descreveu foi capaz de sentar ao lado do leito de morte dele e terminar a obra da vida dele com a voz dele, então o maniqueísmo cai por terra. Não existem monstros puros nem vítimas santas. Existe apenas a complexidade humana. O “Final Real” não absolve Ane dos seus crimes, mas a humaniza de uma forma que a “justiça” comum não conseguiria. Espero que o leitor saia pensando que, talvez, a única maneira de sobreviver a um grande amor (e a um grande trauma) não seja esquecendo ou superando, mas reescrevendo-o até que doa menos — ou até que, como no caso de Lucas e Ane, as vozes se confundam tanto que não importa mais quem perdoou quem, apenas que a história foi contada.

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