Emanuel Neri estreia oficialmente com “Fábrica”, single pop rock que chega em 23 de janeiro

Luca Moreira
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Emanuel Neri
Emanuel Neri

Emanuel Neri dá início oficialmente à sua carreira musical com “Fábrica”, single de estreia que chega aos aplicativos em 23 de janeiro pela Marã Música. Em clima de pop rock inspirado pelo rock nacional dos anos 80 e 90, a faixa transforma fé no futuro, amor e resistência em um manifesto sobre recomeços — resgatando uma letra escrita em 1997, quando o artista tinha 18 anos e enfrentava solidão e dificuldades em Manaus, para ganhar novo sentido no presente.

 “Fábrica” nasceu em 1997 e só agora virou single oficial. O que precisou acontecer dentro de você — como pessoa e artista — para essa música deixar a pasta e virar mundo?

1997 foi um ano muito determinante na minha vida. Não existia internet, rede social, nada disso que a gente tem hoje. Fazia poucos meses que tinha iniciado minha jornada longe de casa, para estudar. Ligação interurbana de Telefone fixo era caro, no telefone público os pulsos de um cartão acabavam em poucos minutos, as cartas demoravam dias para serem entregues.  Sem família perto, alguns colegas  nenhum amigo,  muitas inseguranças naturais para um garoto de 18 anos. Naquele momento eu cantava para conseguir permanecer firme, extravasar os sentimentos e as angústias e seguir em frente. Foi preciso amadurecer, compreender o tempo das coisas pra entender que nunca é tarde, e com isso recuperar a coragem para tornar público algo que antes parecia ser tão pessoal. O ser humano se desenvolveu e o Artista ressurgiu entendendo que a arte, a música, ela não é minha construção, ela existe em algum lugar do universo e em

Algum momento eu encontro com ela e a posso perceber, e eu não tenho o direito de guardar isso só pra mim. Foi preciso que isso mudasse na minha vivência para as coisas saírem do papel.

Você descreve a canção como um “grito” para não perder a capacidade de acreditar no futuro. Qual foi a primeira vez na sua vida em que você sentiu que essa capacidade quase foi embora? E o que te trouxe de volta?

Não sei dizer exatamente um momento específico, mas aos 17/18 anos você sente isso o tempo todo. As frustrações, até mesmo as pequenas decepções, elas parecem enormes e intransponíveis. Naquele período de 1997 passei por muita coisa e como não tinha com quem compartilhar, a noite eu tava triste mas tinha de estar bem no outro dia pra seguir em frente,  se não tiver resiliência vai cansando. Então acho que essa fase dos 18 anos foi aí talvez eu tenha visto o poço de baixo pra cima. Também foi aí que a música entrou na minha vida de vez e foi meu suporte. O que me trouxe de volta? Acho que integrar um grupo que tinha um ideal bom, fazer parte de atividades de assistência material para pessoas que estavam bem piores do que eu, o trabalho como evangelizador de grupo de mocidade e integrar o grupo Harmonia,  onde aprendi o pouco que sei sobre a arte, a música e todo o bem que ela pode levar.

A imagem da vela em cima da lata de leite, durante o racionamento em Manaus, é muito forte. Que Emanuel era aquele de 18 anos — e o que o Emanuel de hoje diria para ele naquela mesa de estudos?

O Emanuel de 18 anos era um jovem desengonçado, tímido, emotivo, que tinha muitos medos. Embora tivesse uma convicção muito forte para coisas objetivas como o estudo, era  inseguro para as questões do coração.  O Emanuel de hoje diria para aquele garoto: Acredite em você cara, não importa o que te digam ou o que pensem de você. Diga o que você sente, cante alto as coisas que você pensa, não deixa a conveniência do dia a dia apagar  a luz da música que vive em você.

A letra tem um lado íntimo, mas você acredita que ela conversa com todo mundo. Qual verso (ou trecho) você acha que mais “entrega” a sua história pessoal — e qual você espera que vire espelho para o público?

O início da música é muito eu, o que eu era naquela época e o que eu continuo sendo, porque muda a forma de apresentação  mas não a de existir.  “A tua vida é cheia de lutas lágrimas e suor, ontem foi um dia importante mas não quero nem lembrar, hoje é outro dia”. Todo mundo luta todo dia, todo mundo rala e pode até dizer que não, mas uma hora todo mundo chora. Acho que isso espelha a vida das pessoas e todos podem se conectar na ideia de que a Fábrica de sonhos é o que nos mantém vivos, deixando o ontem de lado para viver o hoje e fazer os sonhos serem reais.

Você fala que a essência veio das mensagens de resiliência que cantava nos grupos de juventude. Como a espiritualidade aparece no seu processo criativo: como impulso, como disciplina, como consolo… ou como conflito?

Não dá pra definir objetivamente de uma forma só. Ao mesmo tempo ela preenche meu ambiente criativo como impulso, disciplina e consolo. A espiritualidade me dá a certeza de um futuro melhor, de um mundo melhor, de pessoas melhores, por isso acho que minhas composições, por mais que as vezes apresentem quadros de uma sociedade Caótica,  e aí ja tô dando spoiler do que ainda vai vir nos próximos meses nos próximos lançamentos, mas ao final elas trazem uma mensagem de otimismo e esperança.

Em algum momento você transformou críticas ao seu canto em combustível. O que você fez, na prática, para evoluir — e o que ainda hoje te dá insegurança quando você se expõe como intérprete?

Na prática eu não me acomodei com a crítica. Eu entendi que na vida tudo se aprende. Na primeira oportunidade que tive de aprender eu mergulhei, e isso aconteceu quando fui participar do Grupo Harmonia, tinha de aprender a ouvir pra aprender a cantar, e isso mudou tudo. Eu sempre fui muito disciplinado. Se o exercício tem 10 repetições eu não faço 9. Então eu busquei aprender o máximo que pude e sou muito grato.  A insegurança maior acho que era o medo de errar, de desafinar e atrapalhar o grupo. Talvez hoje eu ainda carregue um resquício disso ainda mais cantando solo.

“Fábrica” traz referências do rock nacional dos anos 80/90, mas com narrativa contemporânea. Se você pudesse escolher uma “ponte” entre essas duas épocas, o que você quis preservar do rock clássico e o que você quis atualizar para soar verdadeiro hoje?

Isso é muito incrível porque a Fábrica parece algo atemporal, tanto a letra quanto a melodia ligam o passado e o futuro em um momento crucial, o presente, onde as coisas acontecem. A música, assim como o dia, começa num ritmo de despertar, vai crescendo assim como o dia, vai ganhando amplitude até chegar a esse ponto que extravasa.  A mistura de coisas do dia a dia, da vida, com metáforas é algo que vem desse rock nacional das bandas que marcaram a geração dos anos 90 e continuam tocando hoje, e a sonoridade com uma pegada mais contemporânea acho que deu essa repaginada pra permitir que as gerações se encontrem dentro dessa música.

Você diz “acho que estou começando agora” — mesmo tendo vivido banda, movimento espírita, lives na pandemia… O que muda quando a música deixa de ser abrigo e vira carreira? Qual é o medo e qual é a liberdade desse recomeço?

Hoje eu compreendo que a vida da gente tem fases e todas elas tem sua importância. Iniciar uma carreira na música não tira sua posição de abrigo e conforto íntimo, que tem pra mim.  Eu vejo esse momento, de começar um projeto musical, uma carreira na música, como uma realização mesmo e por isso eu já não tenho medo, só certeza, e isso acontece porque eu passei a acreditar nessa Fábrica de sonhos reais.

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