Em novo livro, André Neves propõe reconciliar ego e essência em jornada de autoconhecimento

Luca Moreira
15 Min Read

Por que, em uma era marcada por excesso de informação e hiperconexão, tantas pessoas se sentem cada vez mais afastadas de si mesmas? Essa é a pergunta que move O Ego não é seu inimigo, novo livro do economista, empresário e escritor André Neves, que propõe uma inversão provocadora: em vez de combater o ego, aprender a educá-lo e integrá-lo como aliado no processo de expansão da consciência. Inspirada no Bhagavad Gita, a obra constrói um diálogo simbólico entre o Ego e o Eu Superior, conduzindo o leitor por uma jornada que une espiritualidade, autoconhecimento e experiência prática de vida.

A partir de mais de 30 anos à frente de uma empresa que chegou a reunir 1.500 colaboradores, André Neves transforma sua vivência no mundo corporativo — incluindo um colapso empresarial profundo — em matéria de reflexão sobre perda, vulnerabilidade, relações humanas e reinvenção interior. No livro, temas como livre-arbítrio, cultura do medo, justiça divina e vigilância dos pensamentos se entrelaçam a 50 práticas de autoconsciência, reforçando a ideia de que felicidade não é um destino, mas consequência de viver em sintonia com a própria essência. O Ego não é seu inimigo surge, assim, como um convite sensível e transformador para quem busca trocar controle e reconhecimento por presença, propósito e amor incondicional.

O livro sugere que o ego, longe de ser um vilão, pode funcionar como um “mestre disfarçado”. Em que momento da sua trajetória pessoal essa percepção deixou de ser teoria e se tornou verdade vivida?

O ego é nosso guardião, guardião de nossa individualidade. Quando tiramos da nossa forma de enxergar a dualidade entre espírito e matéria, fica fácil de entender que a alma que escolhe o caminho que percorremos. Ou ela já adquiriu sabedoria suficiente para não se entregar aos impulsos do ego, ou ainda se submete às suas vontades.

Eu passei por um momento muito desafiador na minha vida, ao ser afastado da direção da empresa que eu ajudei construir e trabalhei por 30 anos. Foi um período de muita introspecção, reflexão e leitura. Nesse período comecei a questionar essa dualidade. Ela começou a não fazer sentido para mim. Eu via pessoas criadas em um mesmo ambiente, com visões de mundo e do próximo completamente diferentes.

Refletindo sobre a vida, eu entendi que são as almas que nos conduzem. O que o espiritualismo quântico chama de o observador. Quando tratamos de pessoas as classificamos como boas ou ruins, mas quando se trata de alma, com toda a eternidade que a envolve, não a classificamos, só entendemos que cada uma está em um momento distinto. O ego quer só nos proteger, a alma que entende até onde a proteção vai sem virar uma disputa.

Você passou por um colapso empresarial que, segundo relata, foi um portal para o autoconhecimento. O que dói mais: perder algo construído ao longo de décadas ou admitir que a própria identidade estava atrelada a essas conquistas?

De fato, foi um momento de dor na minha vida. Vejo com uma mudança de ciclo e toda mudança vem acompanhada de dor. Costumo dizer que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. Quando olho para trás, vejo que o mundo corporativo já não me agradava como antes, mas por mim mesmo, eu teria planejado uma saída organizada e não o colapso. Na minha concepção as mudanças não vêm como planejamos, elas simplesmente acontecem quando já cumprimos os aprendizados que a situação ou o lugar que estávamos foi cumprido.

Dessa forma, não vejo dor por minha identidade estar atrelada as minhas conquistas, porque eu não era apegado em cargo ou título. A perda já me gerou mais dor, mas não exclusivamente pela parte financeira da situação, mas pelo que viria pela frente. Eu tinha uma rotina de trabalho muito intensa, cerca de 14 horas por dia, e a perda dessa rotina foi bastante difícil. Me deu uma sensação de não estar sendo útil e isso dentro da formação do meu ego foi bastante difícil. Até eu sair da empresa, eu tinha como padrão matar um leão por dia, e me convencer de que a vida pode ser mais tranquila que isso, me tomou umas boas sessões de terapia.

No diálogo simbólico entre Ego e Eu Superior, qual das duas vozes foi mais difícil de traduzir para a escrita — a que confronta ou a que acolhe?

No fundo, percebi que a voz que confronta também acolhe, como um pai ou uma mãe que educam com amor. O “não”, muitas vezes, é mais difícil que o “sim”, mas é justamente ele que oferece o acolhimento mais verdadeiro.

Ainda assim, se eu precisar escolher, digo que a mais desafiadora de traduzir foi a voz que confronta. Minha natureza é mais acolhedora, e colocar-me nesse lugar de confronto sempre exige um esforço maior.

Vivemos hiperconectados e, paradoxalmente, cada vez mais distantes de nós mesmos. Qual é, na sua visão, o principal ruído dessa era que impede as pessoas de escutarem a própria alma?

A hiperconexão nos afastou das pessoas. Aumentamos bruscamente a interação, mas ela é tão superficial que ficamos mais isolados. Gente precisa de gente. Quando passamos a considerar que um aparelho em nossa mão substitui o contato físico, nos consideramos autossuficientes e isso vai na contra mão da natureza humana. Fugindo de nossas essências, nos distanciamos também do nosso Eu Superior.

Na minha visão o imediatismo é o que mais tem nos afastado de nossa alma. Queremos tudo para ontem, não temos paciência para ver vídeos com mais de um minuto e esse tempo vem caindo a cada ano. Não reparamos mais em quem está ao nosso lado e muito menos em nós, nos nossos sentimentos, nas nossas inspirações. Estamos vivendo no verdadeiro piloto automático.

Entre as 50 práticas propostas no livro, qual delas você considera a mais desafiadora para si mesmo até hoje — e qual foi a que mais transformou seu modo de viver?

As 50 práticas vieram muito de uma auto observação e de prestar atenção nas pessoas. Com o período sabático que passei, tomei por hábito analisar meus pensamentos e sentimentos. Comecei a enxergar padrões em cada um deles e percebi que são todos, criações de nossa mente. Alterando padrões, alteramos nossa percepção do exterior e assim mudamos nossa vida. Temos a sensação que a vida é o que acontece no nosso entorno, mas na verdade ela é somente a interpretação que damos ao que estamos observando.

Mas para listar a que mais me transformou foi a 1ª . Quando comecei a ver a vida pelo prisma da alma, tudo mudou de significado. Grande parte do que eu levava muito a sério, foi para o fim da fila. E assuntos que eu não dava relevância vieram para o início.

O meu maior desafio ainda é a 7ª, a entrega total. Não querer ter controle sobre nada. Já melhorei muito desde que eu enxerguei que a vida não acontece como imaginamos, que nossos planos não funcionam. Mas ainda tenho um bom caminho a seguir. Nosso ego está cheio crenças que fomos assimilando pelo caminho e anular a ação delas em nossos sentimentos requer tempo e paciência

Sua vivência com 1.500 colaboradores lhe deu contato diário com conflitos, medos e expectativas humanas. Que aprendizados do mundo corporativo mais o surpreenderam quando começaram a conversar com a filosofia, a psicologia positiva e a espiritualidade?

Eu tinha uma relação muito próxima com as pessoas que trabalhavam comigo, sobretudo na matriz, onde eu ficava e éramos 900 pessoas. Três anos antes de eu sair da empresa, eu desenvolvi, em conjunto com o RH, um programa de boas relações entre as pessoas, no qual eu mesmo administrava alguns encontros e bate papo. Eu aprendi muito sobre pessoas nesse período.

O absenteísmo por problemas psicológicos está aumentando demais nos últimos anos. O Brasil é o 1º pais do mundo em ansiedade e está entre os 5 primeiros com maior incidência de depressão. As empresas e o ministério do trabalho enxergam o burnout como uma consequência do stress laboral, mas na minha visão a raiz dele está no nosso modo de vida atual, na hiperconexão e no distanciamento da nossa essência, que você cita em uma pergunta anterior. A causa é a mesma da ansiedade e da depressão.

Foi conversando com as pessoas que percebi que a empresa por si só não poderia suprir essa lacuna. O mundo corporativo é frio. Não tem como um CNPJ ter sentimento. Seu objetivo é o lucro e o crescimento e na minha visão tem que ser assim mesmo, é o seu papel no mundo. As empresas querem que seus colaboradores estejam bem, para que produzam mais e para passar uma imagem institucional de que se preocupa com seu time.

Mas as empresas têm perfeita condição de fomentar o sentimento entre as pessoas. Levarem elas a refletir sobre seus comportamentos, sobre a atenção que dão para o colega de trabalho, sobre gentileza, sobre empatia, enfim, sobre tudo o que a filosofia e espiritualidade nos ensina. É nesse ambiente, de um apoiando o outro, que enxergo a solução, não só para o ambiente de trabalho, mas também para a vida pessoal de cada um dos colaboradores. Tirar eles do piloto automático

O Bhagavad Gita é um texto profundamente simbólico e espiritual. Como foi adaptar essa estrutura milenar para uma narrativa contemporânea, voltada a leitores que convivem com ansiedade, excesso de estímulos e pressão por produtividade?

O interessante é que nada mudou nesses 2500 anos. A natureza humana é a mesma. Os conflitos internos são os mesmos que nos atormentavam. Mudou o cenário, talvez os desafios externos – eram mais físicos e agora mais mentais – mas o desafio principal é o mesmo, vencer os impulsos do nosso ego. Os inimigos de Arjuna continuam nos atormentando.

Toda pressão e ansiedade advém da nossa necessidade de ser melhor que o outro, de ter mais bens, de ter mais conquistas, sempre algo mais que o outro. Essa necessidade infla o egoísmo, a inveja, a raiva, a falta de empatia e tudo isso empacotado no consumismo atual gera ansiedade e depressão.

O livro coloca as relações humanas como propósito — não como meio. Em uma sociedade que valoriza resultados rápidos e métricas, como você enxerga o desafio de ensinar que o verdadeiro sucesso está na qualidade dos encontros, e não na grandeza das conquistas?

As pessoas estão muito carentes, tentando se agarrar em algo dê sentido as suas vidas. Vejo muita gente falando em pensar positivo, em técnicas para atrair dinheiro, em fugir de pessoas tóxicas. São muitas técnicas e promessas, que a meu ver é como jogar gasolina para apagar o fogo. O recado é sempre o mesmo, siga o manual e você será feliz. Felicidade é consequência e não um produto de prateleira. Tudo isso está ficando muito cansativo e com pouco eficiência. As pessoas estão tão cansadas e só querem se entregar a algo que faça sentido.

O problema não está no externo, está em nós. Quando alimentamos a crença de que, se não fosse o vizinho nossa vida seria perfeita, estamos alimentando a competitividade.

Quando a pessoa enxerga que só precisa ser melhor do que ela foi no dia anterior, que ninguém está aqui para nos ferir e sim está na mesma luta e dificuldades que as nossas, a vida fica mais leve. Na minha visão é isso que está faltando, leveza no viver. Deixar fluir, acolher o que vem e quem vem até nós.

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