Dionysius Fredericus explora existência e filosofia em “O balbuciar de um eterno”

Luca Moreira
14 Min Read
Dionysius Fredericus
Dionysius Fredericus

Em “O balbuciar de um eterno”, o autor Dionysius Fredericus propõe uma imersão poética nas grandes questões da existência, reunindo reflexões que transitam entre filosofia, espiritualidade e experiência humana. Dividida em fragmentos que dialogam com pensadores como Platão, Nietzsche e Sartre, a obra transforma a linguagem em um exercício de investigação sensível sobre o ser, o tempo e o invisível. Em entrevista, o autor comenta como a poesia pode atravessar limites da lógica e abrir espaço para novas formas de compreender a realidade.

O título O balbuciar de um eterno já sugere uma tentativa de dizer o indizível. Em que momento você percebeu que essa ideia traduzia o coração do livro?

Há décadas escrevo e publico livros de conteúdo poético-filosófico, e todos os seus conteúdos não escapam às fronteiras de um número limitado de conceitos e ideias ônticas e ontológicas – do Ser e do indivíduo, do Ponto e do Todo, do afora e do adentro, de infindos em espelhos – enfim, são determinados cenários para representações de papéis e, de enredos, os mesmos, e que se repetem apenas. Mas são nossas histórias em que, saídos das cavernas e engatinhando ainda por longas e imensas distâncias íntimas, buscamos a nós mesmos, e que, apesar de tanto fazermos para conhecer dos universos afora, pouco conhecemos ou sentimos ainda acerca dos universos do adentro de cada um – seres indivíduos. E assim posso, de modo poético, por exemplo, afirmar que: se noventa e dois elementos constroem um universo inteiro, o alfabeto todo também poderá fazê-lo! O balbuciar de um eterno surgiu, como ideia de um título, em algum momento ao longo de sua escrita, quando entrevi o unir das minhas tentativas de sempre e novamente dizer do mesmo Eterno – sempre à nossa espera, sempre aguardando (de nossa parte) um maior crescimento da nossa capacidade de compreensão interior. Mas o balbuciar de um eterno também pode representar a oportunidade de se garimpar gemas em meio a aparentes homogêneos estéreis desertos de grãos de areias, ou de dias que, parecem, só preencher tempos perdidos.

Sua escrita parte de perguntas muito antigas e profundas, como a origem da existência, o Ser e o destino da alma. O que te move pessoalmente em direção a esse tipo de inquietação?

Move-me determinado cansaço espiritual. Digo com frequência que o cansaço é o pai da sabedoria (dentre tantas outras paternidades que podem ser apontadas). Igualmente, sempre me incomodou a completa e generalizada falta de curiosidade das pessoas com respeito a estes cenários que nos contêm emoldurados em ocorrências constantes e fantásticas de conjunções do micro e do macrocosmos, de sincronicidades e de consequências transgeracionais, e de tantos outros fenômenos de uma totalidade misteriosa, mas percebida. Oh! Mas não há mais o Thaumazéin? Não há mais espantos grandiloquentes de artes tão surpresas ao abrirem olhos e se descobrirem insertas em meio ao Todo, feitas Ponto de consciências totalizantes e desconhecida? Ah! Sim! Sou movido! E sei, por certo, que jamais irei estancar as minhas infindáveis buscas por desconhecidos destinos, apesar de todos os já alcançados paradeiros!

Você propõe uma poesia que não tenta oferecer respostas fechadas, mas tocar aquilo que escapa às definições. Para você, por que a poesia consegue alcançar lugares onde a lógica muitas vezes não chega?

Poesia é síntese e intuição, razão é análise e ciência. Ambas fazem parte do mesmo Ser Todo Uno, Um e Perfeito – que se desdobra, que se manifesta e que se põe a nosso alcance – ou por emanação (v.g. Plotino e neoplatonismo), imanência transcendente ou transcendência imanente (vide Huberto Rohden), ou por qualquer outra suposição filosófica pertinente. Historicamente, a Poesia é mãe da Filosofia e avó das ciências. Poesia, ademais, possui as liberdades poéticas que podem conter infindos sentidos e ao redor do mesmo ponto concêntrico, além de não possuir os compromissos limitantes de uma lógica aristotélica conservadora. O Todo se intui, não se explica. O Ponto participa do Todo, sem compreendê-lo ainda. Arte tudo diz para o artista, pois não necessita ainda já chegar a seu destino, mas apenas já ter partido, pois os fins já se encontram aí, em seus meios sem fim. Apolo é a razão pacificadora, da ataraxia e da apatheia, e Dioniso é o impulso poético em êxtases dos delírios. Na bela figuração de Will Durant, quando a filosofia conquista terrenos, cede-os às ciências e, assim, podemos também dizer que quando a filosofia não consegue prosseguir a um mais além, e mesmo se a partir do que já sente (embora não o bastante, ainda) então aí há de imperar a infinda busca, e as conquistas, da poesia.

A obra reúne quarenta partes feitas de fragmentos, pensamentos e imagens. Como foi construir um livro que parece respeitar justamente a natureza interrompida e inquieta do pensamento humano?

Escrevo às noites, em ambiente preparado: silêncio ao derredor, música suave que tudo preenche (Wagner, Philip Glass, Hans Zimmer, Pink Floyd, Vangelis, Jarre, Enigma e tantos mais) e eu, aí, estanque e atento, aguardo então que me cheguem os fluídos inspiradores de infindos, as inspirações dos espíritos em sintonias, os dizeres que me dizem para dizer. E que assim atesto da proposta de Og Mandino, acatando-a! – cultivo, por boa convivência e nos hábitos dos registros poéticos, a presença e a perseverança daqueles bons senhores que me escravizam em seus repetidos intentos, e que se tornam, pois, hábitos coercitivos e saudáveis. Sim, somos escravos dos hábitos, e devemos cultivar esses bons senhores dos quais seremos os escravos. Mas é ainda, de meu estilo, o aforismo poético. E, com Espinosa, estou polindo lentes diariamente para, não tão distraído com as coisas dos mundos de fora, ocupar-me mais com as coisas dos mundos de dentro. Mas não possuo fôlegos grandes o suficiente para ser autor de romances. Meu respirar é o arfar brusco, rápido e intenso. Ah! Amo aforismos! Digo que a beleza está diretamente relacionada à síntese. Big bang foi imenso de repente! Arfam os poemas! Mas sorrimos.

Dionysius Fredericus
Dionysius Fredericus

Filósofos como Platão, Heráclito, Nietzsche, Kierkegaard e Sartre aparecem como ecos na obra. De que forma essas vozes dialogam com a sua, sem apagar a singularidade do seu próprio olhar?

Em verdade, devo dizer, não respeito a integralidade original dos conceitos que tais nomes (mencionados na pergunta) construíram, pois os adapto (os conceitos) aos meus sentires que são entendimentos pessoais reelaborados. Por exemplo, de Descartes posso me apropriar e reescrever: se sinto, logo existo! De Shakespeare: Ser e também não ser! – eis a verdadeira questão! De Nietzsche arrebatei o meu próprio Dioniso, mas o mesmo do êxtase, do esplendor, e, às vezes, tão inconsequente, o mesmo das orgias e dos caminhos dos excessos (aos moldes dos de William Blake – levando-me ao pretenso palácio da sabedoria). De Kierkegaard, peguei emprestado, por exemplo, a sobrevivência do espírito apesar de todas as dores e infernos vividos, provando que Espírito é eterno, pois não morre jamais de suas doenças, que doem tanto. De Platão, as reminiscências de todos os saberes. De Heráclito, o Tudo em Tudo fluindo, e o tudo é Um, sempre. De Wagner, o meu uso frequente das noções e encantos dos leitmotive e de uma também pretensa “Melodia Contínua”, em meus escritos, que ouso conceder-lhes ritmos em dançares cósmicos unidos. E por aí vou pegando caronas nas carruagens e nos universos alheios…

O livro também aproxima filosofia, ciência moderna e correntes espiritualistas. Como você enxerga essa convivência entre campos que, para muita gente, costumam parecer opostos?

No Um-Uno-Todo não há oposições. A verdade absoluta se dá pelo somatório das verdades relativas. Eu estou descrito nas palmas de minhas mãos (quiromancia), na minha infância (psicologia), nos astros e suas conjugações (astrologia), nas vidas passadas (espiritismo e Psicologia Abissal), em meus genes (biologia, genética e karma), em meu nome (numerologia) e assim sucessiva e concomitantemente a não ter mais fim. A ilusão da separatividade se dá porque qualquer campo de conhecimentos é infindo em si mesmo, e pode fornecer todas as respostas a todas as questões e perguntas possíveis e, aí, assim, tomamos cada campo, isoladamente, e relativo, como se absoluto fosse em si, e desprezamos os demais conhecimentos como se epifenômenos apenas. Cosmos é apenas adentro e, adentro, tudo é orgânico e complementar, e mesmo se diferentes entre si, porém ainda uno, aí. Tudo se soma, nada se exclui (e isso se conclui).

A tensão entre Apolo e Dioniso atravessa o livro de forma simbólica e muito humana. Você sente que essa disputa entre razão e impulso, medida e vertigem, também atravessa a sua própria escrita?

Sim, certamente. Dioniso luta para sobreviver como eterno meio ascendente que se debate entre opostos duais desesperadamente, e envolto em paixões ardentes de poesias últimas, mas gentis. Apolo é também uma sobrevivência, nas miragens salvíficas de fatas morganas que atraem o Dioniso como se a um Natanael, de Gide: E tu parecerás, Natanael, alguém que segue uma luz que ele próprio segura! Dioniso são as paixões que expelem arte e se inspiram em ventos de borboletas, que são refrigérios de lagartas que se arrastam pelas nossas terras eternamente. em busca de si mesmas, rumo às sonhadas e imaginadas metamorfoses do Ser em que, e finalmente, o Apolo que está redimido, salvo e terminado, neste enfim sem fim ainda por aqui.

Ao fim da leitura, fica a sensação de que o livro é menos uma conclusão e mais uma abertura para novas frestas de percepção. O que você espera despertar no leitor ao convidá-lo a entrar nesse universo?

Ah! Pretendo que se vislumbrem e avistem Espíritos! Pois, eternamente sobrevividos e sempre evoluindo, perdoando a nós mesmos e galgando caminhos de paraísos, que escorramos de olhos e peles em lágrimas e suores de sentidos plenos de fraternidades divinas, que reconquistaremos. Recomendaram-nos, sempre, o conhece-te a i mesmo! – e é por aí, em nosso aqui adentro, que, então finalmente veremos a nós mesmos no outro – neste outro que, para Sartre seria o inferno, mas que para Jesus sempre foi, é e será o Paraíso. O caminho do Um-Uno-Todo passa, necessariamente, pelo Outro, pois toda a evolução nada mais é que União (Re-União) do disperso pelas consciências em individualidades totalitárias em si mesmas. Somos Um! E aqui, ainda a simbologia do Espelho de Hegel (onde o Todo viu-se em seres individuais, e infindos): Todo e Ponto somos os mesmos, duais, porém – cerremos os olhos e quebremos os mágicos espelhos – e aí, então, o Dois também é Um, apenas. Ah! Mas eis que, aqui, enfim, tudo vale esta pena! – aqui e agora mesmo! onde pássaros são dedos, ventos, infindos, e, gaiolas abertas, nossos seres eternos que de nós não sairemos – mas que libertemos os poemas!

Share this Article

Você não pode copiar conteúdo desta página