Capim Cósmico lança “Que Pó Não Vicia” e transforma vivência pessoal em rock alternativo potente

Luca Moreira
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Capim Cósmico
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O projeto Capim Cósmico, conduzido pelo músico e compositor Mateus Cursino, lançou em 14 de novembro o single “Que Pó Não Vicia”, disponível em todas as plataformas pela Marã Música. A faixa inaugura a sonoridade do próximo disco e reafirma o caráter autorreflexivo, confessional e irônico que marca a identidade artística do projeto, transformando experiências pessoais em matéria poética e coletiva.

A inspiração para a composição nasceu após o diagnóstico de diabetes, que levou o artista a refletir sobre o açúcar como substância viciante e, metaforicamente, sobre tudo aquilo que consumimos — física ou emocionalmente. Gravado de forma totalmente independente, com Cursino assinando todas as linhas de bateria, baixo, guitarra e voz, o single carrega uma estética crua e nostálgica, profundamente influenciada pelo indie alternativo dos anos 1990, com referências como Nirvana, Pavement e Dinosaur Jr.

Com um riff de baixo como ponto de partida e uma construção musical intuitiva, “Que Pó Não Vicia” propõe múltiplas leituras e transforma uma vivência íntima em reflexão ampliada. Para Mateus, a potência da faixa está exatamente na possibilidade de que o público reconheça, em sua experiência particular, camadas de um tema universal. O lançamento, segundo o artista, representa um momento de entusiasmo e marca sua segunda parceria com o selo Marã Música, além de abrir caminho para o novo álbum que chega em breve.

Você descreve o açúcar como uma “droga socialmente aceita”, algo viciante e com potencial destrutivo. Em que momento essa percepção deixou de ser apenas uma constatação médica e virou poesia? Houve uma frase, uma cena ou sensação que detonou a música dentro de você?

Eu descobri recentemente que sou diabético e isso me deu um desespero no início do diagnóstico. Aí me lembrei de um tio meu que teve as pernas amputadas e ficou cego antes de morrer por conta da diabetes e quando o visitava, ainda criança, via o estado dele de maneira assustadora. Acho que essa memória da minha infância foi um gatilho e aí a emoção transbordou através de várias composições que fazem parte do primeiro disco do projeto Capim Cósmico.

Capim Cósmico
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O título “Que Pó Não Vicia” é irônico, provocativo e aberto a interpretações. Quando você o escreveu, estava mais rindo de nervoso, rindo de si mesmo ou rindo do mundo?

Boa pergunta, talvez eu estava rindo do mundo kkkk. É engraçado que para muitos na sociedade, o vilão é sempre o que é considerado ilícito. E nós convivemos diariamente com o açúcar ou mesmo com o álcool de maneira tão sutil. As pessoas demonizam drogas como a maconha e as vezes esquecem de outros excessos que causam doenças e mortes a todo momento. Venho de uma cidade pequena do Sul De Minas que tem uma fábrica de cachaça. Vejo diariamente pessoas se corrompendo por uma dose a mais em qualquer boteco de esquina, inclusive amigos meus. Então, o que as vezes parece rotina, nem sempre é o melhor caminho.

Capim Cósmico
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Você transformou um diagnóstico de diabetes em arte — o que não deixa de ser um ato de coragem. Foi um processo de cura, de revolta ou apenas uma tentativa de organizar o caos por meio das cordas e da distorção?

Eu sempre transformei minhas frustrações em arte. Talvez até então, nada tenha sido tão relevante como agora. O que sempre foi caótico na minha vida, seja um relacionamento ou uma simples situação do cotidiano, virou, de alguma maneira, música. Porém, na atual fase da minha vida, realmente eu tenho algo para falar, ou melhor, me preocupar. É claro que se expor nem sempre é o ideal e pode bater uma certa vergonha. Então, tento fazer minhas musicas da maneira mais sutil possível. Agora estou numa fase mais madura, o projeto Capim Cósmico reflete esse momento de me “organizar” por dentro.

Capim Cósmico
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O rock alternativo dos anos 90 — Nirvana, Pavement, Dinosaur Jr — carrega uma estética de desajuste, fricção e sinceridade brutal. O que existe naquela sonoridade que conversa com o seu momento atual? É nostalgia, identificação ou refúgio?

Engraçado retomar esse tipo de som já que estou com mais de 30 anos de idade. Nirvana era essencialmente uma banda juvenil nos anos 90 né? Só que esse tipo de som me parece o mais vital na atual conjuntura de músicas plastificadas, repletas de Inteligência Artificial ou mesmo de perfeccionismos onde tudo é editado, manipulado e afinado nota por nota. Diversos discos são feitos na base do mouse. Em todas essas bandas citadas acima, ainda tínhamos algo de visceral, simples e orgânico. Algo que o rock foi perdendo durante os anos. Talvez os anos 90 tenha representado o rock alternativo como nunca mais será feito. Muitas bandas se perderam por terem se tornado do mainstream. Portanto, acredito que tenha algo de nostálgico em mim aflorando sim.

Capim Cósmico
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Você gravou tudo sozinho: bateria, baixo, guitarra e voz. O que existe de libertador e o que existe de solitário nesse formato “faz tudo”? Em algum instante você sentiu falta de outra pessoa no estúdio, ou era justamente sobre estar a sós consigo mesmo?

Foi na base da urgência mesmo, sabe? E eu tinha recém desmontado outra banda, a Velhos Aspargos, onde tudo era mais lento e eternamente uma luta de egos. As opiniões não se formavam, cada um queria uma coisa. Ou então nada era produtivo no estúdio e pouca coisa nós fazíamos de autoral. Terminar um projeto e começar outro só meu foi libertador. Eu precisava desse momento sozinho no estúdio e foi ótimo. Já fui logo gravando um disco na força da vontade. Acredito que não retornarei a fazer isso novamente tão cedo, mas o disco representa um momento importante pra mim. E ele serve como registro disso.

Se essa música fosse uma cena de filme, uma imagem fixa ou uma fotografia borrada, como seria o cenário visual desse “vício” que não diz seu nome?

Acho que a fotografia da capa reflete muito a música de maneira geral. Foi uma ideia genial que o Henrique da Marã me deu. Eu tirei uma foto de uma xícara de café repleta de açúcar. Fiquei imaginando o que teria acontecido comigo se seu tivesse tomado aquela xícara inteira. Melhor nem imaginar kkkk

A letra nasce de algo íntimo, mas você faz questão de deixá-la aberta, quase coletiva. O que você espera secretamente que as pessoas encontrem dentro dessa música: identificação, desconforto, riso, alívio… ou nenhuma resposta pronta?

Bela pergunta, mais uma vez kkk acredito que procuro sempre que as pessoas se identifiquem, mesmo que não entendendo a letra por completo. Me deixou muito feliz um comentário que recebi no youtube, logo após lançar a música. Uma das frases do comentário foi: “não poderia descrever melhor o meu momento”. A pessoa em questão se identificou de bate pronto com a musica sem nem conhecer o projeto Capim Cósmico. Um comentário tão espontâneo que me deixou completamente realizado com o lançamento.

Esse single abre caminhos para um novo disco. Se “Que Pó Não Vicia” é a porta de entrada, que cômodos emocionais você ainda pretende abrir nesse próximo trabalho? Podemos esperar mais confissão, mais ironia ou mais pancada sonora?

O disco tem tudo isso que você citou. Algumas passagens bem ligadas às emoções e receios e também muita coisa relacionada ao diagnóstico da doença e ao meu medo das sequelas que podem vir num futuro não tão distante. Também tem musica experimental, tem musica com refrões pesados e riffs marcantes. É um belo disco de estreia, acho que consegui resumir tudo o que sinto e a sonoridade que gosto em 10 faixas. Acredito que ainda tenha muita gente que vai se identificar.

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