Com referências que transitam entre Rita Lee e Rosalía, a cantora e compositora independente Cali consolida sua identidade no pop brasileiro com o single “FOME”, uma faixa que traduz desejo, coragem e brasilidade em uma linguagem própria. Natural de Porto Ferreira (SP) e radicada em Campinas, a artista vem colhendo resultados expressivos: a música já ultrapassa 300 mil visualizações no TikTok e soma mais de 50 mil plays no Spotify, impulsionada pela forte conexão com o público. Esse engajamento ganhou um novo capítulo com o lançamento de um videoclipe cinematográfico, inspirado diretamente em uma sugestão de fã e concebido como um curta-metragem de dança, dramaturgia e catarse, reafirmando Cali como um dos nomes em ascensão do chamado “Pop Brasuca”.
“FOME” começou a crescer nas redes antes mesmo do clipe existir. Como foi perceber seu público pedindo — quase exigindo — esse videoclipe, e de que forma esse movimento influenciou sua relação com a própria música?
Foi uma surpresa deliciosa. O videoclipe, a estética, a coisa da “era”, são elementos importantes dentro da cultura Pop. Fico feliz que as pessoas impactadas por “FOME” entendem e sentem essa necessidade de, além de ouvir, ver a música, literalmente.
Eu já apostava nela como uma canção forte, por isso lancei como single. Mas criar o videoclipe me fez enxergar muito além: falei sobre esse clipe na terapia, ele carrega toda uma questão psíquica sobre coragem, medo e trajetória artística que venho decifrando em mim mesma há anos.
A ideia inicial para o clipe nasceu de um comentário de fã mencionando Cisne Negro. O que naquela referência você enxergou como espelho da sua estética ou do seu estado emocional naquele momento?
Cisne Negro é um dos meus filmes preferidos da vida. Adoro drama, suspense psicológico… gosto de ser impactada. Apesar disso, até então, nunca havia explorado uma narrativa ou estética mais sombria no meu próprio trabalho, e foi aí que pensei: é hora de dar esse passo. Além disso, o filme retrata uma história que, infelizmente, é comum entre a classe artística, que é o que falo na música. Achei que esse fã querido realmente captou a mensagem.
No vídeo, você interpreta três versões de si mesma, cada uma representando uma fase interna do processo artístico. Qual dessas personas mais te desafiou emocionalmente — e qual mais se parece com a Cali de hoje?
Que ótima pergunta… mas vou começar dizendo a que menos me desafiou: a última, a “Mística”, de vermelho e ouro. É a que se mostra mais poderosa, alegre, e isso é fácil de fazer. Requer muita força, mas a gente sendo artista, principalmente em tempos de redes sociais, aprende a fazer isso o tempo todo. Botar um sorriso no rosto e subir no palco, ainda que sua vida pessoal esteja desmoronando.
A que mais me desafiou, enfim, foi a persona do meio, a de branco, que é a que bota a cara a tapa, que dança com a própria sombra, que chora. Ela não era medrosa nem confiante, estava no entremeio. É difícil interpretar essa realidade, é muito mais tranquilo pensar em extremos.
A Cali de hoje com certeza é mais a última, pensando que a última é apenas uma somatória de todas as experiências das primeiras, e não outra pessoa. O figurino final foi pensado para transmitir essa mensagem, inclusive. Poderíamos ter colocado uma roupa todinha vermelha, ia ficar lindo. Mas optamos por deixar as marcas daquelas que já passaram por ali (as roupas brancas).

A dança tem um papel central no clipe e na narrativa energética de “FOME”. Como foi traduzir em movimento algo que nasceu como som e sentimento? Você se descobriu diferente ao se ver dançando essa música?
É sempre bom deixar a música passar pro corpo. Adoro dançar, me sinto livre. Todo o mérito da coreografia vai pra Beatriz Kizima, colega de faculdade, dançarina incrível. Eu só mostrei pra ela algumas coisas que gostava, como o trabalho de Fernanda Fiuza, alguns vídeos da Rosalía dançando com as mãos, e ela criou aquela coreografia poderosíssima.
Ao dançar “FOME” e em todo o processo de aprender essa coreografia, eu descobri que o final da música, que escrevi mega intuitivamente, era sobre a vitória de poder “sentir o sol, o som” e voltar a fazer arte sem pressão.
O clipe traz um encontro visceral entre luz e sombra, mas também uma sensação de renascimento. Existe alguma parte do seu próprio “lado sombrio” que você só conseguiu encarar depois de criar esse videoclipe?
O meu lado sombrio me dizia que ia ser muito difícil fazer aquela cena da crise de choro, e realmente foi bastante desafiador.. mas eu queria muito que acontecesse. Precisei conversar com a diretora, pensamos juntas na melhor forma de criar a cena. Fiquei totalmente sozinha por um tempinho, até que o operador de câmera entrou no espaço e ficou ali, com a câmera preparada, esperando a “crise” vir. Ali eu vi como ainda tenho muito trabalho a fazer como atriz pra conseguir atingir aquela emoção na frente de muitas pessoas, não me senti confortável pra fazer isso naquele momento. No teatro, é mais fácil. Quando é uma câmera na sua frente, é um trabalho mais técnico que ainda não domino.
Seu “Pop Brasuca” mistura pop, MPB, bachata e funk de um jeito muito autoral. Quando você percebeu que não queria caber em uma estética só, mas construir um espaço híbrido onde suas influências convivem?
Percebi que esse hibridismo era o melhor caminho pra minha música quando passei a me entender enquanto artista pop. Comecei escrevendo música no violão, cantei rap, passei pro R&B, até que em determinado momento isso foi uma questão pra mim: o que eu era, afinal? Em qual playlist editorial eu me encaixo? Quem faz de tudo consegue fazer algo bem feito, de fato? Então, estudando a história de artistas gigantescas do pop mainstream, como Anitta e Luísa Sonza, entendi que capturar diversas influências e integrar à sua sonoridade e estética não era ruim, nem confuso, era só autenticidade dentro do que chamam de música pop.

A cena inspirada na sua aula de improvisação vocal parece um momento muito íntimo transportado para o audiovisual. O que essa vivência pessoal significou para você — e por que ela era essencial na narrativa do clipe?
Essa vivência escancarou um traço fortíssimo em mim, mas que ainda habitava apenas meu subconsciente, que é a repulsa a qualquer pessoa ou situação que me proíba de me expressar livremente. Contei sobre esse improviso na minha terapia e foi lá que compreendi essa negação, esse desespero ao ser silenciada. Faz com que eu me perca de mim. FOME também é sobre isso, por isso casava perfeitamente com o clipe.
Você encerra 2025 falando em amadurecimento artístico e anunciando seu próximo álbum, TRAMA. Se “FOME” é a abertura dessa nova era, qual sentimento ou história “TRAMA” pretende costurar daqui pra frente?
TRAMA é a minha maior realização artística até agora, meu primeiro disco. O sentimento é de alegria por ter feito algo artesanal, com muito amor, muita atenção aos detalhes, muita vontade de dizer algo… ele precisava existir. É um álbum moderníssimo, urbano, mas rústico. Você consegue ver minhas raízes do interior. É pra chorar, rir, morrer de tesão, gritar alto, pra se expressar, se reconhecer e se sentir bem.
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