A banda Broken Gate ampliou o alcance do single “Ramona” com o lançamento do videoclipe em parceria com os Autoramas, já disponível no YouTube após estreia nacional no programa Setlist, do Canal BIS. Com narrativa irônica e leve — inspirada na crítica à busca “quase obsessiva” pelo par perfeito e ao estereótipo da Manic Pixie Dream Girl —, o vídeo coloca os integrantes das duas bandas como protagonistas e ainda traz participação especial de Jão, guitarrista do Ratos de Porão, em um encontro simbólico de referências do rock nacional.
“Ramona” cutuca essa ideia da busca quase obsessiva pelo “par perfeito”. Em que momento vocês perceberam que esse tema merecia virar música — e agora também virar narrativa em vídeo?
Esse tema já rondava um pouco as ideias de composição há algum tempo. Mas, quando veio a conexão do tema com a figura de Manic Pixie Dream Girl, sentimos que tínhamos uma letra que transmitia essa mensagem de uma forma direta e com uma boa abertura para um material audiovisual que dialogasse diretamente com a música. Sentimos que nessa mistura entre crítica, ironia, referências do mundo do cinema e melodia simples e direta, tínhamos chegado no ponto certo.
Vocês citam a figura da Manic Pixie Dream Girl como “coisa de filme”. Que ‘filmes da vida real’ (situações, conversas, padrões de comportamento) inspiraram essa crítica na letra?
As nossas próprias histórias inspiram boa parte da letra, que é um pouco sobre rir de si mesmo. As pessoas mais alternativas, como nós e tantos outros, quando idealizam um par perfeito, muitas vezes tendem a pensar na figura da “pessoa alternativa e diferentona dos filmes”. E quanto mais você busca essa “figura ideal” menos as coisas dão certo. Nem sempre os opostos se atraem, mas, tão menos, é possível criar, a priori, um match perfeito.
O clipe foi pensado para ser simples, irônico e leve. Como foi o desafio de fazer humor sem esvaziar a crítica — e, ao mesmo tempo, deixar a história acessível pra quem só quer curtir a música?
Nesse ponto, uma boa referência são clipes como os do Foo Fighters. Acho que são um grande exemplo de como um clipe pode ser bem-humorado, sem esvaziar a mensagem da letra. Além disso, no fim, a principal crítica contida na letra é que “às vezes, pensar ou se programar demais atrapalha alguns processos naturais”. Então, achamos que nada mais justo do que um clipe que refletisse isso.
A mensagem está ali, naturalmente, e não é preciso pensar demais pra entender. A letra e o som são diretos e leves. Queríamos um material audiovisual que seguisse essa mesma linha.
A faixa tem uma pegada dançante, direta e “de cara”, e vocês falam que ela junta elementos marcantes das duas bandas. O que, na prática, foi “Broken Gate puro” e o que foi “Autoramas total” dentro da sonoridade de “Ramona”?
Acho que os principais elementos típicos da Broken Gate foram os riffs marcantes e o timbre com fuzz e oitavador da guitarra base, além de algumas variações de bateria. Pelo lado do Autoramas, podemos destacar a guitarra solo com vibrato muito presente, o vocal feminino, a linha de baixo com bastante fuzz e presença e as linhas de bateria e percussão dançantes.

Vocês já eram fãs dos Autoramas há anos. Como foi o primeiro contato e a primeira troca criativa? Teve algum detalhe (um comentário, uma ideia, uma atitude) que fez vocês pensarem: “ok, isso aqui virou mesmo um encontro de verdade”?
Um dos primeiros encontros da Broken Gate com alguém da banda foi com o Gabriel, em cima do palco, na edição de 2013 do festival Hacktown, com uma participação em um show do projeto solo dele, onde tocamos juntos algumas músicas do Autoramas. Entre show e pós-show rolou uma conexão muito legal com o Gabriel dali pra frente.
Aos poucos, tivemos a oportunidade de conhecer os outros membros da banda. Acho que um dos principais pontos foi o quanto o Gabriel foi receptivo com a gente desde a primeira vez que nos encontramos. Isso foi um grande incentivo, nos deixando à vontade pra fazer esse convite pro Autoramas.
Quando mandamos a demo da música e veio a resposta de eles tinha gostado do som e topado o convite, foi a hora que caiu a ficha e pensamos “Isso tá realmente acontecendo!”. Passou um grande filme na cabeça de quem, anos atrás, via clipes do Autoramas na MTV admirado, sem sequer imaginar que teria uma banda uma dia, ainda mais que chegaria ao ponto de gravar uma música junto com a banda que sempre viu desse lugar de fã.
Além do Autoramas, o clipe tem a participação do Jão (Ratos de Porão) — várias referências reunidas no mesmo projeto. Em qual momento caiu a ficha de que vocês estavam vivendo algo “histórico” pra trajetória de vocês?
Desde o início desse projeto tivemos essa percepção. Quando tivemos a confirmação de que iríamos gravar uma música junto com o Autoramas, sabíamos que aquilo era um grande marco na nossa carreira. Sabíamos que era a música mais importante que já tínhamos gravado. Ter ainda o Jão do Ratos de Porão participando do clipe foi a cereja do bolo! Foi muita coisa acontecendo que, um ano atrás, a gente nunca imaginaria.
Vocês chamam o clipe de um marco audiovisual, com várias “primeiras vezes” (direção profissional, estreia na TV, etc.). O que mudou na cabeça de vocês depois desse processo? Tipo: o que vocês não topavam antes e agora topam, e o que vocês passaram a valorizar mais?
Acho que o que mais mudou na nossa cabeça foi ver, na prática, o papel da equipe em um projeto desses. Entre questões de locação, direção e contatos com canais de TV, ter uma equipe alinhada entre si e com as bandas é fundamental pra tudo funcionar como deve. Além disso, foi muito legal ver o quanto um bom material audiovisual original aumenta o poder de divulgação e a identidade de um single.
A Broken Gate vive uma fase de consolidação desde a mudança de nome e o álbum Fake North, com alcance em rádio no Brasil e fora. Depois de “Ramona”, qual é a próxima porta que vocês querem arrombar: som, palco ou narrativa? E o que vocês querem que o público entenda sobre a banda ao ver esse clipe?
Seguimos querendo um pouco de tudo. Sempre queremos desbravar novos palcos, como agora com a nossa estreia no Hangar 110 no dia 18/01, por exemplo. Mas também queremos buscar novas sonoridades em novas músicas. A sonoridade e todo o processo criativo de “Ramona” abriu novas perspectivas no nosso processo de composição, saindo da nossa zona de conforto. Queremos explorar essas perpectivas em novas composições nas quais queremos trabalhar em breve.
Queremos que o público entenda que somos uma banda que sempre gosta de trabalhar algum conceito nas suas músicas. Mas que isso não precisa ser sinônimo de complexidade e que achamos importante saber quando devemos nos levar menos a sério. E também, que isso não atrapalha a mensagem ou a música, mas mescla o que Broken Gate e Autoramas são nos palcos e fora deles, em um bom balanço.
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