A participação feminina no mercado financeiro tem crescido em avanço consistente. Pesquisa da B3 mostra que 33% usam recurso como fonte complementar
A procura por fontes complementares de rendimento tem impulsionado a presença feminina no mercado financeiro brasileiro, alterando o perfil estatístico dos investidores de curto prazo. Atualmente, o Brasil soma 5,4 milhões de investidores cadastrados na B3, sendo 26% deste total composto por mulheres. Dentro desse universo, a estimativa é que existam cerca de 91 mil operadoras atuando como day ou swing traders. Segundo a B3, no total hoje há 350 mil operadores nestes segmentos.
O avanço das mulheres é progressivo e consistente. Segundo a B3, em março deste ano o número de mulheres investidoras em renda variável cresceu 7% em relação a dezembro de 2024, atingindo um recorde histórico para o segmento. Em novembro de 2024, um levantamento setorial realizado pelo Grupo Axia Investing, que engloba as mesas proprietárias Axia e Star Desk, apontou que o contingente feminino realizando operações intradiárias (day trade) quintuplicou em um período de apenas três anos. Esse movimento reflete uma mudança estrutural, onde a busca por autonomia financeira encontra suporte em novas tecnologias e modelos de negócio, como as mesas proprietárias.
E confirmando que a busca por renda ou complementação salarial tem bastante peso na decisão, outro levantamento da B3 detalhou as motivações desse público: investidores com perfil de day trader operam focados no crescimento de capital (49%) e na geração de renda (33%). Além disso, a tolerância ao risco nesse grupo é considerada alta para 61% dos praticantes, enquanto 33% declaram ter tolerância média.
Bianca Ferreira Plácido Santos, engenheira civil de 35 anos, casada e mãe, exemplifica esse fenômeno. Ela iniciou sua jornada no mercado financeiro por volta de 2021. “Foi um momento em que eu sentia que precisava encontrar uma alternativa para aumentar a renda de forma mais rápida e consciente”, afirma a investidora. Fora do mercado financeiro, Bianca mantém sua atuação profissional na engenharia e foca na criação da filha, conciliando a disciplina técnica dos canteiros de obras com a análise de gráficos financeiros.
A trajetória de Bianca não foi imediata. Ela começou operando com capital próprio em corretoras, utilizando valores pequenos para testar seus conhecimentos iniciais. Após enfrentar desafios emocionais e técnicos, como a frustração com perdas no início da carreira, buscou auxílio em mentorias especializadas e realizou exaustivos testes de estratégias, os chamados backtests. No ano passado, decidiu ingressar na Star Desk, uma mesa proprietária vinculada ao Grupo Axia Investing, buscando operar com mais segurança.
Em novembro, o esforço resultou no reconhecimento como a trader de melhor desempenho da instituição. “Quando você respeita o processo, o resultado aparece”, define Bianca, reforçando que a atividade exige o mesmo rigor de qualquer outra profissão. Atualmente, o trading representa um complemento importante em seu orçamento, mas a engenharia continua a ser sua principal atividade. Ela avalia se deixará ou não o trabalho atual para se dedicar totalmente ao mercado financeiro, mas essa transição, se ocorrer, será de forma cautelosa e sustentável.
Para Leonardo Megale, sócio e um dos fundadores do Grupo Axia Investing, a consolidação desse modelo de negócio no Brasil auxilia diretamente na profissionalização. “Temos de considerar que o surgimento das mesas proprietárias ajudou muito a mudar a realidade, pois só opera por uma mesa quem passa nos testes de admissão, ou seja, tem de estudar, e o profissional de uma mesa não arca com prejuízos, o que faz a diferença”, explica o executivo.
Outro ponto destacado por Megale é a flexibilidade proporcionada pelo day trade. Segundo ele, o trader pode escolher não só dia e horário como o tempo que dedicará à operação no mercado financeiro. “Essa flexibilidade também é um grande atrativo para mulheres, principalmente àquelas que têm uma família para cuidar e não podem assumir compromissos que exijam dedicação por tempo integral”.
A rotina de Bianca no mercado financeiro é objetiva. Residente em Aracaju, Sergipe, ela opera por no máximo quatro horas diárias, concentrando suas atividades entre a abertura do mercado e às 13h, período em que seus estudos apontaram maior probabilidade de retorno. Segundo a trader, a pressão operacional diminui consideravelmente quando existe um plano de riscos bem estabelecido e seguido com rigor.
A evolução estatística também mostra um amadurecimento na qualificação, aponta outra pesquisa realizada pela própria Axia, envolvendo o seu universo de operadores. Enquanto em 2021 a maioria deles tinha entre 18 e 30 anos, os dados de 2024 e 2025 mostram uma concentração maior na faixa entre 35 e 44 anos.
Além disso, o tempo médio de estudo antes das operações reais subiu de 34% para mais de 41% entre os participantes das pesquisas das mesas proprietárias. Esse cenário de maior preparo técnico contrasta com estudos de anos anteriores, que apontavam altos índices de perda para iniciantes. A mudança é atribuída ao maior acesso à educação financeira e à exigência de exames de proficiência para o uso de capital de terceiros em mesas proprietárias.