Cinco desafios da reciclagem no Brasil: o que a prática das cooperativas ensina sobre economia

Rodolfo Gomes
5 Min Read

Regiões que concentram delivery de comida têm alto grau de descarte e maior contaminação de materiais

A experiência diária das cooperativas de reciclagem expõe uma realidade complexa para a economia circular no Brasil: aumentar o volume da coleta seletiva não é suficiente para garantir o reaproveitamento dos materiais. O projeto “Cooperar para Reciclar”, conduzido pela Coopama em parceria com a BVRio e Petrobras, identificou cinco gargalos estruturais que limitam a eficiência do sistema no país.

Os dados levantados pela iniciativa mostram que o funcionamento da cadeia depende de fatores que afetam diretamente a capacidade de processamento e o valor comercial dos resíduos. “O foco do debate precisa mudar. O maior desafio hoje não é apenas coletar mais, mas garantir que o resíduo chegue com qualidade para ser reciclado. Recebemos muito material contaminado que compromete a operação inteira. Paralelamente, a indústria lança cada vez mais embalagens para as quais ainda não existe viabilidade técnica ou econômica de reciclagem”, explica Luiz Carlos Fernandes, presidente da Coopama, que reúne 82 cooperados de 22 a 66 anos.

As cooperativas, que conhecem a realidade da reciclagem na ponta e operam como o termômetro mais fiel da política de resíduos sólidos no Brasil, guardam o conhecimento prático sobre os entraves para a economia circular. Ao longo de 30 meses do projeto, a iniciativa Coopama identificou cinco principais gargalos.

1. Descarte incorreto

O primeiro e mais crítico entrave é a qualidade do material que chega às esteiras de triagem. Uma parcela significativa dos resíduos ainda é descartada de forma incorreta, frequentemente contaminada por restos de alimentos. Embalagens como caixas longa vida, potes de iogurte e bandejas de frutas costumam chegar sujas às cooperativas. Essa contaminação não apenas inviabiliza a reciclagem do próprio item, mas pode estragar outros materiais limpos no mesmo lote.

2. Valor de mercado

A dinâmica de descarte afeta o segundo ponto crítico: o valor de mercado dos recicláveis. O modelo de negócio das cooperativas depende da venda desses materiais para a indústria. Quando o resíduo chega limpo e bem separado, ele tem liquidez e retorna à cadeia produtiva. No entanto, a contaminação derruba o preço do lote ou, em casos mais graves, transforma o que seria matéria-prima em rejeito destinado a aterros sanitários.

3. Geografia do descarte

O terceiro aspecto observado pela Coopama é o que os especialistas chamam de “geografia do descarte”. O perfil socioeconômico e os hábitos de consumo de cada região ditam a complexidade do lixo gerado. Bairros com alta concentração de restaurantes e forte demanda por delivery, por exemplo, produzem um volume expressivo de embalagens misturadas a matéria orgânica. Mesmo com campanhas de conscientização, as cooperativas fluminenses relatam receber rotineiramente materiais inadequados dessas áreas.

4. Novos materiais desafiam técnicas de reciclagem

A inovação da indústria de embalagens representa o quarto desafio. Há um crescimento contínuo na circulação de materiais de difícil reciclagem, como plásticos flexíveis e embalagens multicamadas — compostas por plástico, papel e alumínio. Itens onipresentes no varejo, como pacotes de salgadinhos e tubos de pasta de dente, exigem tecnologias de separação que a maioria dos recicladores não possui e por isso não existe mercado de venda para as cooperativas. Criou-se, assim, um descompasso evidente entre o design dos produtos consumidos e a infraestrutura real de reciclagem instalada no país.

5. Sazonalidade

Por fim, a sazonalidade e os grandes eventos ditam o ritmo do setor. O Carnaval é o exemplo mais claro desse impacto. O aumento abrupto no consumo de bebidas em lata inunda o mercado com alumínio, alterando a dinâmica de preços e a rotina dos catadores. Apenas nos dias de folia deste ano, o projeto recolheu 13,6 toneladas de recicláveis (como PET, latas e papelão), um aumento de 137% em relação a 2025, quando foram retiradas das ruas 5,7 toneladas de material.

Sobre a Coopama

Criada em 2004, a Cooperativa Popular Amigos do Meio Ambiente (Coopama) é uma das maiores cooperativas de catadores de materiais recicláveis do Rio de Janeiro. Localizada na Zona Norte da cidade, reúne quase 100 cooperados que atuam na coleta em empresas, escolas, shoppings, hospitais e condomínios residenciais, além da triagem de toneladas de materiais diariamente. A atuação integra coleta seletiva, processamento de resíduos e iniciativas de educação ambiental, com foco na promoção de práticas sustentáveis e no fortalecimento da cadeia da reciclagem.

(Créditos das fotos: Lucas Euler/Petrobras)

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