Igor Girão explora controle, desigualdade e resistência em distopia ambientada no submarino Ouroboros

Luca Moreira
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Igor Girão
Igor Girão

Em um cenário onde sobreviver significa abrir mão da própria liberdade, o escritor Igor Girão constrói, no romance Ouroboros, uma distopia marcada por controle, vigilância e exclusão. Ambientada em uma sociedade tecnocrática que surgiu após a destruição da superfície terrestre, a obra acompanha personagens que desafiam um sistema que mede o valor humano pela utilidade e pela perfeição. Em entrevista, o autor reflete sobre temas como capacitismo, pressão social e desumanização, propondo uma narrativa que transforma tensões contemporâneas em uma ficção intensa e provocadora.

Ouroboros parte de uma ideia muito inquietante: um sistema que promete sobrevivência, mas cobra a liberdade como preço. Em que angústias do presente nasceu essa distopia?

Ouroboros nasce de um mundo que decidiu seguir em frente — mas, de alguma forma, não levou os humanos junto nesse processo.

A ideia de sistemas que fazem as pessoas sobreviverem a grandes catástrofes não é nova. Seja em cenários sociais, religiosos ou até nucleares, sempre existiu essa noção de resistência extrema. Mas, em Ouroboros, o que me inquietava era outra coisa: a sensação de que tudo isso acontece dentro de uma sociedade que, ao mesmo tempo em que evoluiu, também se fechou em uma tecnocracia e em um núcleo de certezas absolutas.

As atitudes que sustentam esse sistema — e que também funcionam como ponto de ignição da narrativa — nascem justamente do abismo que existe entre as pessoas. Quando deixamos de focar naquilo que nos torna humanos, esse abismo cresce.

A pressão do oceano, no livro, funciona como uma metáfora constante: é o abismo, o peso e a força que nos comprime por todos os lados. Ela cria uma estrutura de confinamento quase inescapável. Hoje, vejo que muitas pessoas estão presas em suas próprias certezas absolutas. E, nesse processo, acabam se afastando das dúvidas — que são justamente o que permitem crescimento, conexão e transformação.

No fim, essa distopia nasce desse incômodo: da perda da capacidade de reconhecer o outro como alguém complexo, mutável e sempre em construção.

A Sony é uma personagem de enorme força, mas também atravessada pela violência do capacitismo. O que te levou a construir uma protagonista que desafia, de forma tão direta, a lógica de utilidade imposta por essa sociedade?

A Sony é incrível. Eu poderia responder essa pergunta só com isso — mas aí eu estaria sendo um completo babaca (risos). A grande questão é que ela é um ser humano fantástico. Em um mundo ideal, em uma sociedade realmente madura, eu nem precisaria sublinhar que ela é uma pessoa cega, com altas habilidades, possivelmente autista, antissocial e hacker. Tudo isso, dentro do que é verossímil, compõe alguém capaz de ler situações, lidar com pessoas e entender o que cabe, o que não cabe e o que é necessário em cada contexto.

Falando assim, pode parecer que ela é uma super-heroína — e que eu estou caindo na armadilha do capacitismo, colocando ela como alguém “além” ou “acima”. Mas não é isso. A Sony é cheia de contradições. Ela é extremamente insegura, tem momentos de devaneio, pode ser arrogante… e tem uma língua bem solta (risos). Quando eu digo que ela é incrível, não é por ser perfeita — é porque ela é profundamente humana, tridimensional, com facetas que todos nós temos, mas nem sempre mostramos.

E aí entra o conflito com o sistema. Ouroboros não sabe lidar nem com a perfeição, nem com a diversidade — mesmo quando essa diversidade carrega sua própria forma de perfeição. Como diz a máxima: “o sistema ordeiro é imutável, apenas o caos gera o crescimento”.

A Sony até precisou provar que era útil dentro daquela lógica. Mas a natureza dela é subversiva. Consciente ou não, ela se torna uma pedra no sapato do sistema. É quase como se ela dissesse: “se eu vou ser medida pela minha utilidade, então vocês também vão ter que engolir o meu direito de ser inútil.”

Igor Girão
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Bento carrega o peso de ter sido projetado para representar a perfeição. O que mais te interessava explorar nesse personagem: o privilégio que ele simboliza ou a falta de autonomia que existe por trás dele?

Existe uma frase do Bento que, para mim, é central. Em um momento, ele diz para a Sony: “eles roubaram a minha chance de aprender com os meus próprios erros”. E isso é devastador. Porque, quando a gente para para pensar, ele é alguém que teve tudo: um lar privilegiado, um corpo anatomicamente perfeito, um intelecto acima da média. Em teoria, ele não teria motivos para ser infeliz. Mas é justamente aí que a coisa se quebra.

O Bento não foi tratado como uma pessoa — ele foi tratado como um troféu, como um herói, e ao mesmo tempo como um bode expiatório. Ele foi o primeiro experimento bem-sucedido de um programa científico liderado pelo próprio pai. E, por ter dado certo, passaram a projetar nele expectativas quase desumanas. Esperavam dele atos heroicos, soluções impossíveis, distrações no estilo “pão e circo”. Ele virou um receptáculo das dores de toda uma sociedade — alguém que deveria resolver problemas que nem deveriam existir. E o mais cruel: no momento em que ele falhasse — ou até mesmo quando não falhasse — viriam as críticas, a inveja, as tentativas de justificar ou desmerecer o que ele é.

O que mais me interessava no Bento era justamente isso: mostrar que até o chamado “homem privilegiado” pode estar preso em uma estrutura que o desumaniza. E aqui não se trata de comparar sofrimentos ou validar um em detrimento de outro — mas de lembrar que existem pessoas que não merecem sofrer e sofrem, assim como existem pessoas que mereceriam enfrentar consequências e não enfrentam. Se a gente se prende demais a certezas absolutas sobre quem é culpado ou quem deve ser responsabilizado, corre o risco de perder a complexidade da realidade.

O arco do Bento caminha para um lugar em que ele se torna mais consciente de si — e, principalmente, do fato de que talvez ele seja mais parte do problema do que da solução. E isso também dói. Porque, no fundo, a própria existência dele carrega uma pergunta incômoda: quantas pessoas precisaram ser sacrificadas para que alguém como ele pudesse existir? É a mesma lógica por trás de uma provocação antiga: quantos miseráveis precisam existir para que existam bilionários?

Alex Petrov surge como alguém que começa a romper com a ordem estabelecida. Na sua visão, o que normalmente desperta esse tipo de ruptura: um grande choque ou o acúmulo silencioso de incômodos?

O Alex é um dos personagens mais disruptivos da narrativa. Ele começa como alguém inserido no sistema — um cidadão anônimo, quase letárgico — até o momento em que sua filha, Yandra, nasce. Esse é o ponto de ruptura.

A partir daí, imagino que um turbilhão de coisas tenha passado pela cabeça dele. Ele era escritor, casado com uma cientista brilhante, ou seja, estava dentro de uma tecnocracia tanto do ponto de vista íntimo quanto estrutural. E existe aí uma tensão interessante: como escritor, ele habita o campo do sensível, do simbólico, da ficção — quase em oposição às ciências exatas, à lógica técnica. É aquele velho conflito entre o humano e o cálculo, entre o estético e o funcional (risos).

Mas, para além disso, o que realmente importa é que Alex começa a olhar para o mundo de outra forma. Ele deixa de escrever como escapismo e passa a encarar a realidade. A pergunta muda. Deixa de ser “o que eu posso imaginar?” e passa a ser: “em que mundo minha filha está nascendo? E mais cruel ainda: como ela vai provar sua utilidade quando eu não estiver mais aqui? Esse tipo de pensamento corrói.

Em algum momento, ele rompe. Passa a integrar os Exilados e começa a lutar contra o sistema. Mas essa decisão não vem sem custo — o risco de vida aumenta, e a preocupação com a filha cresce junto, de forma brutal.

Ouroboros é um sistema extremamente vigilante, que opera com lógica de perseguição e até com práticas de higienização social. Ao mesmo tempo, ele é ficcional — mas nem tanto. Porque a gente já viu isso antes. Intelectuais sendo perseguidos na América do Sul — no Chile, na Argentina, na Bolívia, no Brasil. Também vimos isso em outros contextos, como no Congo, na Irlanda e na Alemanha. Esses padrões não são coincidência.

Então, no fundo, a ruptura do Alex não vem de um único choque isolado. Ela é o resultado de um acúmulo — de incômodos, de percepção, de responsabilidade. Mas existe, sim, um gatilho emocional muito forte: o nascimento da filha.

Se Ouroboros existe como sistema, eu não poderia ignorar esses paralelos históricos. Nomear esses erros talvez seja uma forma de nos afastarmos deles — ou pelo menos de não repeti-los com tanta facilidade. Eu acredito nisso. E, de certa forma, o Alex também acreditava. Tomara que as semelhanças entre mim e ele parem por aqui (risos).

Igor Girão
Igor Girão

Embora o romance se passe em um cenário extremo, ele parece dialogar com sensações muito familiares, como vigilância, pressão e inadequação. Até que ponto a ficção científica te permitiu dizer, de forma mais radical, coisas que já acontecem no cotidiano?

Eu sou uma pessoa com deficiência múltipla: sou deficiente visual, tenho deficiência motora, sou cadeirante. Então a pergunta que sempre me atravessa é simples — e ao mesmo tempo brutal: eu estou vivendo no mesmo mundo que vocês ou não?

Porque o mundo que eu experiencio é desigual, assimétrico. É um mundo que nos mede o tempo inteiro — pelas nossas potencialidades, mas principalmente pelas nossas limitações. Pelo que não podemos ser, pelo que não podemos dizer, pelo que não podemos comprar, pelos lugares onde não podemos ir, onde não podemos estar.

E quando tudo isso se materializa na sociedade, o que surge é um grande paradoxo. É uma sociedade escura, mas com um sol brigando para aparecer. Uma sociedade cruel, mas onde as pessoas sorriem. Uma sociedade profundamente individualista, mas onde ainda existem cidades, vizinhanças, grupos, tentativas de convivência.

Esse contraste vira combustível. Ele alimenta essa inquietação constante entre o que é preciso ser e o que esperam que a gente seja. E, no intervalo entre ser e poder, surge outra camada: o que é realmente importante para nós — e o que a gente mantém só para não perder pessoas ao nosso redor.

E aí vêm outras perguntas, cada vez mais profundas. Se esse mundo é tão paradoxal, por que a gente insiste em manter pessoas cruéis por perto? E mais: se estamos todos inseridos nessa lógica, até que ponto nós também não reproduzimos isso? São questões dentro de questões, engrenagens dentro de engrenagens.

A ficção científica, para mim, não cria esse cenário — ela só radicaliza, amplia, deixa impossível de ignorar aquilo que já está acontecendo. Ela pega o cotidiano e empurra até o limite.

E mesmo assim, eu não acho que estamos vivendo um inferno absoluto. Porque ainda existe consciência. Existe incômodo. Existe a capacidade de refletir — 24 horas por dia — e tentar fazer diferente. Talvez isso não seja suficiente. Mas ainda assim… é alguma coisa.

Acho que fiz tantas perguntas que acabei me autoentrevistando aqui (risos). Mas, no fim, é isso. E, pra ser sincero, eu estou gostando muito disso tudo.

O livro critica uma lógica que confunde desempenho com valor humano. Você sente que essa talvez seja uma das discussões mais urgentes do nosso tempo?

Sim, eu acredito que essa é uma das discussões mais urgentes do nosso tempo — e ela passa diretamente por algo que muitas vezes é mal compreendido: o capacitismo. O capacitismo não é algo “natural”, não é inevitável, nem surgiu do nada. Ele é uma construção social — e mais do que isso, é uma escolha que foi sendo feita e reforçada ao longo do tempo. E é importante dizer: não fomos nós, pessoas com deficiência, que fizemos essa escolha.

Mas também não se trata de um simples “nós contra eles”. Essa é uma questão muito mais complexa. Porque essa lógica de valor baseada em utilidade atravessa todo mundo. Ela molda como a sociedade enxerga, julga e organiza as pessoas — inclusive aquelas que, em algum momento, também vão ser descartadas por não performarem o suficiente.

O problema é que a ideia de “ser útil” virou uma régua perigosa. Ela define quem se encaixa, quem pertence, quem merece espaço — e quem precisa justificar constantemente a própria existência. Só que ser humano não pode ser reduzido a isso.

Se encaixar nem sempre é a resposta. Muitas vezes, é justamente o contrário. Porque, quando a gente aceita sem questionar um sistema que mede valor dessa forma, a gente também aceita que tudo aquilo que foge do padrão pode — e talvez deva — ser deixado de lado. E é aí que mora o perigo.

Ouroboros tensiona exatamente isso: até que ponto estamos dispostos a nos adaptar para sermos aceitos? E, mais importante ainda, o que a gente perde de humano nesse processo?

No fim, a discussão não é só sobre deficiência. É sobre dignidade, diversidade — e sobre a coragem de existir para além daquilo que esperam da gente.

O símbolo do ouroboros carrega a ideia de um sistema que se alimenta de si mesmo para continuar existindo. Em que momento você percebeu que essa imagem era a metáfora ideal para o romance?

A escolha do símbolo do ouroboros não veio de imediato — ela foi se revelando à medida que o próprio mundo de Ouroboros ia tomando forma. Em algum momento, ficou claro que o sistema que eu estava construindo não era apenas opressor — ele era autossustentável. Um sistema que se alimenta das próprias falhas, das próprias vítimas e das próprias contradições para continuar existindo.

E isso é o ouroboros. Um ciclo que não se rompe facilmente, porque tudo dentro dele é reaproveitado: a dor vira controle, o controle vira ordem, a ordem vira justificativa — e o processo recomeça.

Quando eu percebi que a sociedade do livro funcionava assim, a metáfora praticamente se impôs. Porque não se trata apenas de um regime que oprime de fora para dentro. Ele também é alimentado por dentro — pelas pessoas que o mantêm, pelas crenças que o sustentam, pelas certezas absolutas que impedem qualquer ruptura real. E isso conecta diretamente com tudo que a gente já falou: o capacitismo, a lógica de utilidade, a tecnocracia, a perda de humanidade em nome de eficiência.

O sistema não precisa ser perfeito — ele só precisa continuar funcionando. E, para isso, ele aprende a se reciclar. O ouroboros, então, não é só um símbolo estético ou filosófico. Ele é estrutural. Ele explica por que é tão difícil romper. Porque, no fim, não é só sobre enfrentar algo externo. É sobre interromper um ciclo que, de alguma forma, também passa por dentro da gente.

Ao cruzar as trajetórias de Sony, Bento e Alex, você constrói diferentes formas de enfrentamento contra o mesmo sistema. O que você queria mostrar sobre resistência humana a partir dessas três vivências tão distintas?

Acho que, de certa forma, eu já falei bastante sobre esses três pontos de vista — mas o que me interessava era justamente colocá-los em tensão.

O Bento representa o “homem perfeito” que começa a se perceber como um ser pensante — e, mais do que isso, como fruto de um processo que, no fundo, também é um problema. Ele é humano, mas foi moldado para não ser.

A Sony, por outro lado, enfrenta um arco completamente diferente: o de provar funcionalidade em um mundo que não foi feito para recebê-la. Ela precisa lidar com o julgamento, com a pressão, com as expectativas — e, ao mesmo tempo, com suas próprias potencialidades e limitações.

Já o Alex Petrov é o disruptivo. Alguém que troca a sensibilidade pela ação, pela revolução. Em um sistema que é matemático, simétrico e opressor, o simples ato de quebrar a lógica determinista — de pensar diferente — já é, por si só, resistência.

E aí surge o contraste. O Bento é um produto do sistema. A Sony é uma anomalia do sistema. E o Alex é uma chave de fenda jogada dentro da engrenagem.

São três formas de existir, três formas de resistir, três formas de lutar. Porque uma revolução não nasce de uma única linha de pensamento. Ela precisa de múltiplos olhares, diferentes níveis de consciência, diferentes graus de comprometimento — até chegar naquele ponto sem retorno.

E é justamente isso que alimenta o próprio sistema. A serpente que devora a própria cauda. Porque, às vezes, quando a gente acredita que está se libertando… já está sendo digerido.

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