A criadora de conteúdo Julia Leivas construiu uma trajetória que une análise de comportamento, tendências e vivências pessoais no ambiente digital. Formada em contabilidade e atualmente vivendo em Madri, a influenciadora encontrou nas redes sociais um espaço para transformar informação em reflexão, abordando desde hábitos financeiros até o impacto da internet na vida das pessoas. Em entrevista, ela fala sobre a transição de carreira, os desafios da profissão e o papel da responsabilidade na era da influência digital.
Formada em contabilidade e com passagem por algumas empresas, hoje você concentra seus esforços na criação de conteúdo digital. Como foi o início da sua trajetória nesse meio e em que momento percebeu que queria seguir esse caminho?
Para mim, sempre foi um sonho muito distante conseguir trabalhar com a internet. Desde muito pequena, eu já gostava de gravar vlogs, e a minha conta pessoal no YouTube é repleta de vídeos arquivados em que eu registrava a minha vida. Isso em uma época em que influencers e bloggers ainda nem existiam, então nunca cheguei a considerar a possibilidade de transformar isso em trabalho. Com o passar dos anos, enquanto seguia minha carreira na contabilidade, fui percebendo o quanto eu gostava de falar e expressar minhas ideias e opiniões, algo que, no mundo corporativo, nem sempre é possível. Foi então que decidi me esforçar para começar a fazer algo que já me encantava: viajar e criar conteúdo. Tirei alguns meses para fazer intercâmbio no Canadá, e foi ali que minha vida como criadora de conteúdo começou, mesmo que inicialmente para poucos amigos. Como eu sempre gostei de assistir vídeos mais longos no YouTube, decidi criar um canal para finalmente expor minhas opiniões. Em março de 2025, postei meu primeiro vídeo e percebi que poderia transformar isso em uma carreira. Aos poucos, fui construindo uma comunidade e abordando temas que despertam o interesse das pessoas. Eu faço pesquisas e vou destrinchando os assuntos, o que acaba sendo útil tanto para mim quanto para quem me acompanha. Foi nesse processo que entendi que era exatamente isso que eu amo fazer.
Atualmente, seu conteúdo segue uma linha de análise de comportamento e tendências. O que a levou a construir essa proposta editorial e como costuma escolher os temas que se transformam em vídeo?
Eu assisto muitos canais dos Estados Unidos que abordam esses temas e sempre gostei do que chamam de “vídeo ensaio”, que são vídeos mais longos, baseados em pesquisa. Nos meus conteúdos, utilizo vídeos de outras pessoas como apoio para reagir enquanto falo sobre determinado assunto. Porém, esses vídeos não são o foco principal, mas sim complementos, o tema que escolho é o que guia todo o vídeo. Costumo definir os temas de duas formas: por recomendação do meu público no instagram ou a partir de pesquisas que faço na internet, enquanto leio notícias, assisto ao YouTube e acompanho conteúdos em geral.
Hoje, grande parte dos internautas é influenciada pelo conteúdo que consome nas redes. Como você enxerga o poder de comunicação e influência que o ambiente digital exerce atualmente?
Parto do pressuposto de que pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição. É uma bênção quando você escolhe seguir e acompanhar pessoas que criam o que eu chamo de “conteúdo do bem”, que não te leva para um caminho negativo, mas que desperta o melhor em você. Por outro lado, pode ser uma maldição quando você acompanha pessoas que te influenciam a fazer coisas prejudiciais. Vejo muito, nesse cenário, pessoas que são chamadas de influenciadores digitais, mas que não querem assumir a responsabilidade da própria influência, especialmente quando fazem ou promovem algo que pode ser considerado quase criminoso. Isso fica ainda mais evidente no contexto em que vivemos hoje, com a popularização das bets e de outras práticas que considero extremamente perigosas.
Sua formação em contabilidade também aparece em alguns dos temas que você aborda, como endividamento e hábitos financeiros da população. Na sua visão, a solução para esse cenário passa principalmente por uma mudança de comportamento das pessoas ou o contexto econômico do país ainda pesa mais?
Creio que ambos. Pesquiso bastante sobre o tema e entendo que existem pessoas que ganham salários astronômicos e, ainda assim, vivem rodeadas de dívidas e mantêm uma vida financeira desorganizada. Ao mesmo tempo, há pessoas que se endividam simplesmente por conseguirem arcar apenas com o básico para se alimentar, e acabam sendo impactadas por imprevistos, como acidentes ou outras situações inesperadas. No contexto geral do meu público, o principal fator está relacionado à falta de hábitos financeiros saudáveis. Muitas pessoas acabam se endividando por gastos supérfluos, e é justamente nesse ponto que busco ajudar.
Apesar dos muitos debates sobre os impactos negativos das redes sociais, elas também aproximam pessoas e ampliam o acesso à informação. Você enxerga seu canal como um espaço que pode ajudar o público a refletir com mais profundidade sobre temas do cotidiano?
Sim, considero que as redes sociais podem ser muito boas, desde que você as utilize, e não o contrário, como eu sempre digo. Hoje, é possível ter acesso a praticamente todas as informações na palma da mão. Um exemplo é o X, que se tornou um dos maiores veiculadores de notícias e, ao mesmo tempo, é uma rede social. Ainda assim, acredito que é essencial ter parcimônia ao utilizá-las. No meu caso, enxergo o meu canal como algo que vai muito além de vídeos curtos de react. Existe uma mensagem por trás: quero que as pessoas reflitam, compreendam as informações que pesquiso e que estou repassando de uma forma mais simples. Para mim, essa é uma das melhores partes da internet é a possibilidade de consumir e compartilhar conteúdo que realmente agrega. Inclusive, isso vem muito do fato de eu também consumir bastante YouTube.
Muita gente ainda vê a profissão de influenciador como algo glamouroso ou como uma alternativa mais simples às carreiras tradicionais. Na prática, houve algo nessa profissão que te surpreendeu?
Eu também achava isso, rs. Mas hoje vejo que é uma profissão instável, como tantas outras quando você decide empreender. Para mim, é basicamente a mesma lógica: você é o seu próprio negócio e, para que ele funcione, é preciso trabalhar muito. Eu imaginava que fosse mais simples de certa forma, mas isso acontece porque acabamos usando como referência influenciadores com milhões de seguidores, que são os mais valorizados. Na prática, porém, a realidade é diferente: comunidades de influenciadores nano e micro tendem a ser muito mais ativas e engajadas.

Hoje você vive em Madri, uma cidade com diferenças culturais marcantes em relação ao Brasil. Como foi seu processo de adaptação e o que mais mudou na sua rotina desde essa decisão?
Eu morava em Florianópolis, mas sou de uma cidade pequena do Piauí, então a mudança de uma realidade para a outra já tinha sido bastante significativa. No caso de Madrid, o maior impacto que senti foi a barreira linguística. Hoje já falo espanhol bem melhor, mas no começo foi desafiador. Como eu já me sentia quase como uma imigrante dentro do meu próprio país, por conta das diferenças regionais, essa adaptação não foi tão diferente aqui. Essa sensação de “estar de fora” sempre fez parte da minha experiência, de certa forma.
Nesse tempo construindo sua trajetória no digital, qual foi o maior aprendizado que essa experiência te trouxe, tanto no campo profissional quanto no pessoal?
O maior aprendizado que tive, pessoalmente, foi entender o poder da resiliência. Percebi que cada dia é uma nova batalha, que as coisas estão sempre mudando e que é necessário pesquisar e estudar constantemente, como em qualquer profissão e isso é algo que eu realmente acho maravilhoso. Tenho o desejo de fazer uma pós-graduação e até um mestrado na minha área, para continuar me aprofundando e, ao mesmo tempo, repassar esse conhecimento para o meu público de alguma forma. É algo que me deixa muito feliz.
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