O cantor e compositor Murilo Muraah lançou, no dia 20 de março, o EP Ao Vivo no Gugastro Estúdio, trabalho que marcou seu retorno aos palcos após mais de 15 anos afastado. Gravado em um show intimista realizado em São Paulo, o projeto registrou um momento simbólico na trajetória do artista, reunindo músicas de diferentes fases da carreira e apresentando novas composições ao vivo pela primeira vez. Em entrevista, Muraah relembra a emoção desse reencontro com o público e reflete sobre o processo criativo que conduz sua nova fase artística.
O EP “Ao Vivo no Gugastro Estúdio” marca seu retorno aos palcos depois de mais de 15 anos. Como foi emocionalmente viver esse reencontro com a música ao vivo e com o público?
Foram mais de 15 anos de expectativa sobre quando seria o próximo show. Ensaiei o retorno algumas vezes, mas acabou não dando certo. Então o show no Gugastro começou muito antes de a gente subir no palco. Eu tinha muitas dúvidas sobre como seria voltar a esse lugar, batia sempre aquela ansiedade e uma preocupação de que eu não era mais o mesmo. E não era mesmo, mas isso acabou sendo uma coisa boa. Mesmo com a emoção intensa que eu estava sentindo, me senti seguro, mais consciente em relação à minha performance e muito grato por poder voltar a fazer um show, que é a coisa que eu mais amo fazer. O prazer de estar no palco não mudou, acho que isso vai ficar evidente pra quem ouvir as músicas.
O show foi gravado em um ambiente íntimo, cercado por amigos e familiares. De que forma essa atmosfera influenciou a energia da apresentação e a forma como você interpretou as músicas?
Além da presença de pessoas tão queridas no público e de ser a minha volta aos palcos, outros dois fatores tornaram esse show inesquecível: o local onde ele ocorreu e a banda que me acompanhou.
O Gugastro Estúdio, que fica na própria casa do amigo e grande produtor Guga Stroeter, é um espaço que está sempre realizando trabalhos e encontros muito especiais, com o Guga apoiando diretamente artistas com diferentes trajetórias, de diferentes gêneros musicais. Sem contar que, além dos encontros musicais, já participei e liderei alguns encontros políticos ocorridos ali.
Já a banda foi formada pelo Leo Furlan no baixo, com quem eu toco há quase 20 anos, Daniel Maia na guitarra, uma referência técnica e musical com quem eu trabalhei por 8 anos quando estava na gestão dos estúdios das Fábricas de Cultura, e o Jaderson Cardoso na bateria, um novo amigo que a música me trouxe e que caiu como uma luva nessa formação.
Tudo isso fez com que o show tivesse uma atmosfera única, trazendo emoção e muita segurança para a apresentação. Foi um clima bem leve, que me deixou à vontade na performance musical, mas também pra falar sobre as músicas, o projeto e outros pontos importantes para mim. Cada pessoa ali presente vibrou junto e fez daquele show um marco ainda mais especial na minha carreira artística.

Ao longo desses anos afastado dos palcos, você continuou profundamente envolvido com a música como professor, produtor e gestor cultural. O que essa vivência “dos bastidores” transformou na sua visão como artista?
Transformou completamente. Na primeira fase da minha carreira como artista, tinha uma visão mais romantizada sobre ela, sem ter muito conhecimento sobre o mercado musical. Acredito que muitos artistas acabam tendo dificuldades por esse mesmo motivo. Atuando nos bastidores, fui conhecendo melhor aspectos diversos dessa profissão, que vão muito além da capacidade técnica para cantar ou tocar um instrumento. São pontos que vão desde a importância do networking e do marketing até o desenvolvimento de uma visão mais atenta sobre aspectos artísticos não-musicais, como figurino, cenografia, iluminação e, claro, o áudio.
Além disso, ter trabalhado compondo e produzindo trilhas sonoras e também dando aulas ajudou a desenvolver meu conhecimento sobre processos de produção musical e meu senso estético, indo além do que eu estava acostumado a ouvir e aprendendo a compor e produzir as músicas pensando de forma mais integrada nos instrumentos e processos técnicos que as formam. Isso acabou influenciando diretamente a composição das minhas próprias músicas, que foram se tornando mais ricas musicalmente e mais abertas a experimentações.
Já a experiência como gestor dos estúdios das Fábricas de Cultura ajudou na construção de uma visão mais madura sobre o mercado musical e os caminhos dentro dele, sem contar as amizades e contatos que foram construídos ao longo dos 10 anos que fiquei no programa.
O repertório do EP mistura músicas antigas, novas composições e homenagens a artistas que influenciaram sua trajetória. Como foi revisitar essas diferentes fases da sua história dentro de um mesmo show?
O show que deu origem ao EP contou com cinco músicas autorais, além das homenagens. No EP, focamos apenas nas autorais, mas o show completo vai ser lançado em breve no YouTube.
Foi muito gostoso o reencontro com Mantenha Contato e Esperando Seu Fim, as duas músicas que estão no Mundo Dual, meu álbum de 2006. Das treze músicas daquele álbum, essas duas são as que se encaixam melhor no meu repertório atual, e por motivos diferentes. Mantenha Contato é parte de um momento de primeiras aventuras na minha vida espiritual, por isso casa perfeitamente com o ciclo Inquieto Caminhante, onde eu passeio justamente por essas diferentes vivências e formas de interpretar a realidade. Já Esperando Seu Fim foi composta logo após os ataques de 11 de setembro de 2001, trazendo uma visão crítica sobre aquele momento que acaba fazendo muito sentido também no momento atual, com essa nova crise global que estamos vivendo. O ativismo político, assim como a música e a espiritualidade, é parte fundamental de quem eu sou. Trazer essas duas músicas para os shows fortalece a visão que busco passar com eles.

Você mencionou que, nesse show, tocou sintetizador ao vivo pela primeira vez, depois de muitos anos se apresentando com guitarra e voz. O que essa mudança representa dentro da sua evolução musical?
Essa mudança é um reflexo direto daquelas experiências que contei antes. Ter estudado e dado aulas de produção musical me obrigou a sair da minha zona de conforto na música, abrindo um universo de novas sonoridades e técnicas a serem exploradas. Poucos instrumentos abrem tanto espaço para a liberdade criativa quanto os sintetizadores, com suas possibilidades quase infinitas de manipulação de diversos parâmetros sonoros. Isso me encantou!
Quando comecei a gravar Percepção, a primeira música que lancei nessa nova fase, o uso dos sintetizadores ocorreu de forma muito natural. Foi um caminho sem volta, eles também estão presentes nas outras músicas novas. Por isso quis levar um sintetizador pro palco também, pra poder explorar os sons ao vivo, de uma forma diferente do que está registrado nas gravações. Tem sido uma experiência bem divertida, mas também desafiadora, já que me obriga a pensar e executar as músicas de uma forma totalmente diferente da que eu estava acostumado.
A sonoridade do seu trabalho mistura referências como Os Mutantes, Red Hot Chili Peppers, The Beatles e Chico Science. Como essas influências se encontram na sua música sem perder sua identidade própria?
Quando componho uma música, faço isso de forma muito orgânica, deixando as ideias fluírem sem tentar controlar muito pra onde elas estão indo. Então essas grandes influências e também outras músicas que tenho ouvido podem acabar se fazendo presentes de forma natural, mas sem colocarem obrigações para as minhas composições e arranjos.
Eu me tornei músico muito por causa dos Ramones e do rock nacional. Quando não sabia tocar nada no violão, foi com eles que fui começando a explorar e entender o instrumento. Minhas primeiras bandas tocavam quase somente músicas autorais e dos Ramones, a minha escola foi a do faça-você-mesmo, que é uma grande marca do punk rock. Conforme fui me interessando por outros gêneros musicais, mantive essa mesma mentalidade. Nunca me interessei muito por tocar as músicas iguais às originais, sempre preferi tocar do meu jeito, misturando as minhas influências de forma mais espontânea. Então foi um caminho de mão dupla, eu tocava versões de músicas de outros artistas de uma forma mais livre, com a minha cara, e ao mesmo tempo essas músicas foram influenciando as minhas próprias composições e maneira de tocar. Tem sido assim até hoje, acho que é por isso que me interesso mais por explorar diferentes sonoridades do que por tentar me encaixar nos padrões estéticos de um gênero musical, mesmo com todos os desafios artísticos e de mercado que essa postura traz. O Inquieto Caminhante também busca caminhar livremente por diferentes universos sonoros.
O conceito do “Inquieto Caminhante” aparece como uma ideia de liberdade estética e artística. O que esse conceito diz sobre o momento que você vive hoje como compositor?
Nesse momento de retomada do meu projeto artístico com os shows e lançamentos, sinto que estou tirando o atraso pra colocar no mundo algumas das músicas que compus nesses mais de 15 anos atuando só nos bastidores. Compus várias músicas que gosto muito nesse período e tinha muita vontade de lançá-las, de contar as histórias que estão por trás delas e que as conectam. Então, atualmente estou focado na construção dessa etapa de reencontro comigo mesmo e com o público, pensando nos detalhes musicais e não-musicais de cada música, desenvolvendo os aspectos técnicos e artísticos também dos shows e me recolocando nesse lugar de artista solo. Junte tudo isso às necessidades de gestão e comunicação que hoje também fazem parte da carreira de qualquer músico, tem sobrado pouco espaço para trabalhar em novas composições nesse momento. Mas estou sempre aberto a elas, seja escrevendo as letras, compondo as canções ou explorando sonoridades nos instrumentos e equipamentos musicais. Com tranquilidade, um passo de cada vez.
Depois de registrar esse retorno em um EP ao vivo e no vídeo completo do show, que próximos caminhos você imagina para essa nova fase da sua carreira?
Achei interessante fazer uma pausa no lançamento das músicas do Inquieto Caminhante pra trazer essa experiência de como foi voltar para o palco. Esse EP e o vídeo com o show completo que vai vir a seguir registram uma parte bem importante dessa caminhada, faz todo o sentido que estejam dentro dela. Depois deles, chegam as duas novas músicas que fecham o primeiro EP de músicas inéditas do ciclo Inquieto Caminhante.
Depois dele, a ideia inicial é dar continuidade a essa caminhada, trazendo outras músicas que ajudam a mostrar diferentes aspectos da minha visão de mundo, diferentes maneiras que já interpretei a realidade. Mas o Brasil e o mundo estão vivendo crises tão intensas que também sinto muita vontade de lançar músicas que apresentem uma visão crítica desse momento histórico que estamos vivendo e que apontem para outras formas de estar no mundo. Então esse futuro próximo ainda está em aberto. É o que dizem, o caminho se faz ao caminhar.
Acompanhe Murilo Muraah no Instagram