Elenice Koziel transforma a dor, o cansaço e o cuidado em uma jornada feminina no romance Vale das Pitangueiras

Luca Moreira
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Elenice Koziel
Elenice Koziel

No romance “Valle das Pitangueiras”, a escritora e doutora em Estudos Literários Elenice Koziel acompanha a jornada de Natália, uma professora que, ao completar quarenta anos, decide pôr fim a uma vida marcada por exaustão emocional, luto e relações tensas. Buscando refúgio na fazenda da avó, no campo, a protagonista inicia um processo de reconexão com o tempo, com o próprio corpo e com as próprias raízes. Com prosa sensível e evocativa, a obra entrelaça memória, pertencimento e cuidado para refletir sobre os vestígios invisíveis da experiência feminina e sobre a possibilidade de um novo começo mesmo após os períodos mais difíceis da vida.

Natália decide tirar a própria vida aos quarenta anos, num gesto doloroso e libertador. Em que momento ela percebeu que essa ruptura deveria ser o ponto de partida da história?

A inspiração para a personagem veio das minhas próprias experiências e observações das mulheres da minha vida. Eu queria começar a narrativa com o momento em que a personagem percebe que precisa parar. É a partir dessa pausa que nasce o processo de reconexão e transformação que impulsiona a história. Percebi que a ruptura era o único começo possível quando entendi que, para Natália se redescobrir, ela primeiro precisava desmantelar a mulher que a sociedade esperava que ela fosse aos quarenta anos.

O livro aborda uma forma de exaustão feminina que muitas vezes é invisível, silenciosa e socialmente normalizada. Como foi para você transformar essa exaustão — tão coletiva — em uma narrativa íntima e literária?

Foi um processo de dar voz ao silêncio. Tentei transformar o peso invisível da vida cotidiana em palavras, para que esse cansaço deixasse de ser um fardo solitário e se tornasse uma ponte de empatia. Acompanhando os pensamentos, memórias e silêncios de Natalia, o leitor mergulha nesse território interior onde o esgotamento se revela como um sinal de que algo precisa ser transformado.

O local de “Vale das Pitangueiras” surge quase como uma personagem, um espaço de pausa e reconstrução. O que esse retorno ao campo representa simbolicamente na jornada de Natália e também em sua própria trajetória?

O Vale dos Pitangueiras é um território simbólico de reencontro. Para Natália, voltar à fazenda da avó significa escapar da urgência da vida urbana e mergulhar num espaço com um ritmo diferente. Para mim, este lugar também tem uma dimensão muito pessoal. Cresci no interior do Paraná. Na adolescência, meus pais venderam a fazenda e nos mudamos para a cidade, mas ainda guardo dentro de mim esse desejo de voltar àquele lugar que, no fundo, representa uma época em que a vida não era tão avassaladora.

A relação com a babcia (termo usado para se referir às ancestrais das ancestrais) é marcada por cuidado, memória e espiritualidade. Qual foi o papel das figuras femininas mais velhas na construção dessa história, e como você vê o cuidado como uma herança transmitida de geração em geração?

Meus antepassados tiveram uma profunda influência na minha vida e, consequentemente, na minha escrita. Babcia inspirou-se, em particular, na minha tia Sofia, que, quando jovem, ficou sozinha com quatro filhos pequenos, vivendo no campo, e teve de enfrentar as dificuldades da vida. Sempre admirei como ela e outras mulheres da família transformaram a sua dor numa força silenciosa que as sustentou na luta. Para mim, o cuidado é o legado dessa luta, um legado que se renova a cada geração.

Elenice Koziel
Elenice Koziel

Ao longo da narrativa, o trabalho manual e o ritmo da natureza ajudam Natália a se reconectar consigo mesma. Você acha que, no mundo contemporâneo, estamos perdendo a capacidade de escutar nossos corpos e o ritmo natural?

A vida contemporânea nos impulsiona constantemente para a aceleração. Estamos sempre conectados, sempre produzindo, sempre respondendo a alguma demanda. Nesse ritmo, muitas vezes perdemos a capacidade de perceber nossos próprios corpos e os ciclos naturais do tempo. No romance, atividades simples como cozinhar, cuidar do jardim, costurar e beber chimarrão (uma infusão tradicional sul-americana) se tornam momentos de reconexão.

Sua formação acadêmica está profundamente enraizada nos estudos literários. Como foi o processo de transcender o rigor da linguagem acadêmica e permitir-se escrever com maior liberdade emocional e sensível?

Quando terminei meu doutorado (em 2020, em plena pandemia), me senti um pouco órfã. Queria continuar escrevendo, mas me “libertar” dos textos acadêmicos e explorar outros territórios da linguagem, de uma forma mais sensível e intuitiva. Sem dúvida, minha formação me ajudou. Afinal, foram anos e anos de leitura de textos literários, um tema de pesquisa desde minha graduação em Letras, e, de certa forma, agora eu queria estar do outro lado: passar de pesquisadora literária a produtora literária.

O livro aborda as cicatrizes não como sinais de fraqueza, mas como estruturas que sustentam aqueles que sobreviveram. Houve algum momento pessoal em que você também precisou ressignificar suas próprias cicatrizes para poder seguir em frente?

Acho que todos nós, em algum momento da vida, precisamos aprender a olhar para as nossas próprias cicatrizes. No meu caso, a principal cicatriz que precisava de um novo significado era a cicatriz do luto. Perdi meu irmão enquanto escrevia o romance, e a narrativa acabou tomando um rumo diferente por causa da dor dessa perda. Escrever me ajudou a tentar entender (se é que é possível entender a morte) e transformar a dor em memória.

Ao terminar esta obra, o que você sente que também mudou em você? E que tipo de redescoberta você espera que os leitores tenham de si mesmos ao vivenciar essa jornada com Natália?

Escrever Vale das Pitangueiras foi também um processo de escuta e reorganização interior. A narrativa fala de pausa e nasceu de uma necessidade pessoal de parar e refletir sobre temas como exaustão, luto, cuidado com o próximo, envelhecimento e novos começos. A literatura tem essa capacidade de criar espaços de reconhecimento. Espero que, ao percorrer esse caminho com as personagens, os leitores também encontrem momentos de identificação.

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