Em O Dr. Andarilho: uma história para ser contada, Jorge Curi constrói uma narrativa sensível sobre identidade, espiritualidade e reconstrução interior ao acompanhar a jornada de um médico que perde a memória após um acidente e passa a vagar sem destino. Ao longo do caminho, o protagonista redescobre sua essência por meio de gestos de cuidado, encontros transformadores e uma fé que resiste ao esquecimento. Entre dor, compaixão e propósito, a obra convida o leitor a refletir sobre a força silenciosa do amor e o poder da espiritualidade como guia nos momentos de maior escuridão.
A história parte de uma perda radical de memória e identidade. De onde nasceu essa ideia inicial — houve alguma experiência pessoal ou reflexão específica que acendeu essa faísca criativa?
Estamos vivendo em um plano, onde a nossa evolução é uma obrigação. Os ensinamentos espiritualistas nos revelam que somente o que aprendemos e os nossos conhecimentos são o que levamos conosco, mesmo sem lembranças do que fizemos e fomos.
Kauã perde o passado, mas mantém uma espécie de “memória do coração”, expressa em gestos de cuidado e cura. Você acredita que nossa essência é mais forte do que nossas lembranças?
Como disse na resposta da primeira pergunta, o conhecimento permanece e é manifestado feito intuições.
O livro mistura dor, espiritualidade e propósito de uma forma muito orgânica. Como foi equilibrar esses temas sem cair em respostas fáceis ou moralistas?
Quando se trabalha com a espiritualidade, a sensibilidade em organizar os procedimentos sempre nos conduz ao equilíbrio, sem ferir e sem conceitos.
A trajetória do personagem passa por encontros simples, quase cotidianos, que transformam sua jornada. Você já viveu situações em que um desconhecido mudou algo importante na sua vida?
Acredito que todos nós, num certo período da vida, perdemos a identidade e buscamos um direcionamento em busca do Ter e deixando de lado o Ser. Alguns conseguem voltar ao eixo, no entanto, muitos se perdem.

Kauã era um médico bem-sucedido que se afastou da própria essência antes do acidente. Você vê isso como uma metáfora para a forma como a sociedade nos desconecta de quem realmente somos?
Sempre a busca pelo Ter, ignorando o Ser, desvia princípios e as condutas direcionadas a caminhos muitas vezes sem retorno.
Enquanto escrevia, houve algum momento ou cena que te emocionou mais profundamente ou que te fez parar para respirar antes de continuar?
Muitas vezes isso aconteceu. Quando dormindo acordava com uma ansiedade e novas ideias. O revelar que a jornalista era sua filha e com a síndrome de Daw. O momento em que a divindade o revela as suas passagens. Sim, tive muitos momentos em que a intuição me jogou dentro da história.
A fé aparece no livro como força silenciosa, não como imposição. Como é a sua relação pessoal com espiritualidade e como ela influencia a sua escrita?
A espiritualidade se manifesta o tempo todo nessa lição de vida. O que mostra que a existência ensina, quando se precisa aprender, para seguir com a própria evolução.
Se o leitor pudesse terminar o livro levando apenas uma sensação ou aprendizado no coração, qual você gostaria que fosse?
Aprendizado de que Ser e Ter é saudável, mas, Ter sem se preocupar com o Ser, é destruir a essência.
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