Depois de se firmar em personagens densos no drama e no suspense, Lucas Tors decidiu virar a chave — e voltar para onde tudo começou. Natural de Santana do Livramento, na fronteira entre Brasil e Uruguai, o ator conhecido por Garota do Momento (Globo) e pelo filme Metástase retorna ao Sul do país para dois novos projetos: sua primeira comédia na série infantojuvenil “2C”, gravada em Porto Alegre, e o curta de suspense psicológico “The House on Second Street”, rodado em sua cidade natal e com roteiro 100% em inglês. Entre o humor e a tensão, o momento marca não apenas uma expansão artística, mas um retorno simbólico.
Depois de “Garota do Momento” e do peso emocional de “Metástase”, o que dentro de você pediu uma comédia agora? Foi cansaço do drama, curiosidade artística, ou vontade de se ver mais leve?
Metastase foi muito pesado, principalmente na preparação de personagem. Então sim, com certeza eu senti falta de um trabalho mais leve, algo que mostrasse que eu também sei rir, sei brincar…
Você fala que voltar ao Sul com reconhecimento tem um valor simbólico. Quem você era quando diziam que “ator não é profissão” — e quem você sente que virou hoje, voltando para gravar aí?
Antes, quando eu ainda morava aqui, eu lembro de ser aquele aluno ativista, chato, que todos achavam um saco porque eu não estava interessado em festas, bebida, nem em namoro. Eu queria falar do desmatamento, da desigualdade social, queria sair nas ruas junto da escola pra ajudar as pessoas situação de rua, e adivinha? quase nenhum aluno tava se importando com isso, a maioria só queria farra e a outra parte só queria saber do ENEM. E ta tudo bem, eu não podia obrigar ninguém a pensar igual a mim, mas eu sabia que no mundo da arte, do cinema, do teatro, eu encontraria pessoas iguais a mim, que se preocupam exatamente com o que eu me preocupo. Hoje eu volto pro Sul com uma congratulação da prefeitura da minha cidade. Eu fui homenageado fazedor de cultura e representante de Santana do Livramento no audiovisual brasileiro. Isso é mais que uma homenagem. É uma ponte direta com a política, pra que eu possa usufruir do poder politico para fazer o bem, pra conseguir finalmente tentar mudar algo na escassez de arte na minha cidade, na falta de incentivo… Hoje eu sou um artista com mais respeito, já sou visto como alguém que tem um propósito.
Em 2C, você vive o Maikão: um adulto “aleatório” no ambiente escolar. O que te interessou nesse deslocamento? Você já se sentiu “fora do lugar” na vida real — e isso entrou no personagem?
O Maikão é hilario do inicio ao fim. É um daqueles personagens que deveria ter uma continuação e aparecer de vez em quando pra quebrer o gelo hahah ele com certeza não tem nada a ver comigo, porque sou muito extrovertido e adoro o público, ao contrario do Maikão que é zero sociável e bastante apático. O que deixa ele engraçado.
Você admite que a comédia te dava insegurança. Qual é o medo específico da comédia pra você? É o timing, o risco do “passar do ponto”, ou o fato de que o humor expõe o ator de um jeito diferente?
Eu tinha esse medo de passar do ponto, de não causar graça e de me expor de um jeito que talvez eu não quisesse que as pessoas me vissem. Mas com a maturidade profissional, eu fui almejando a comedia. Tem um momento que o drama fica um pouco pesado demais e a gente fica com sede de algo mais cômico.

Seu teste foi quase uma “mini-obra” — com edição, zooms e risadas de fundo. De onde veio essa coragem de arriscar? E o que essa escolha diz sobre o tipo de artista que você quer ser (mesmo quando pode dar errado)?
Eu arrisquei total. A coragem veio da referencia que a diretora de elenco me deu. Quando ela me disse que uma das referências era iCarly, eu só consegui lembrar das risadas de fundo que tinha na serie, da Sam apertando o botão e causando riso da plateia. Pensei: se eu não editar, o video nao vai ficar tão engraçado quanto deveria. E lembro de ouvir a Lorena Comparato falando, numa palestra, sobre como ela arrisca nos testes que faz e como sempre deu muito certo pra ela, pois aquilo mostrava versatilidade e autenticidade como atriz.
Você idealizou e estrelou “Metástase”, lidando com abuso, trauma e colapso psicológico. Como você se protege emocionalmente quando passa muito tempo dentro de histórias densas? O que te ajuda a “voltar pra você” depois?
A espiritualidade é o que sempre me ajudou nos piores momentos. Eu não tenho religião, mas tenho uma fé e uma mediunidade impossíveis de se ignorar, então todo os dias eu vou no meu altarzinho que tenho em casa, fecho os olhos e elevo meus pensamentos até sentir que meu campo se curou daquela negatividade, daquela densidade emocional trazida pela história e pelo personagem, ou até mesmo até eu relembrar do Lucas. De eu voltar a entender que o Lucas Tors não pensa daquele jeito, que aquela não é a sua vida nem a sua realidade. Isso me ajuda a voltar pra mim mesmo.
“The House on Second Street” levou três anos e foi refeito quase do zero. Em que momento você quase desistiu — e o que te fez continuar? Teve alguma frase, pessoa ou pequena cena que segurou sua fé no projeto?
O talento do diretor Thiago Dornelles me fez ficar e persistir. A diferença de resultado na fotografia me fez insistir. Eu me formei em Produção Audiovisual em 2025 e posso dizer com clareza: na faculdade eu não vi nenhum aluno, incluindo a mim, que tivesse o talento que o Thiago tem e a facilidade que ele possui pra fazer uma obra com tanta qualidade e com tão poucos recursos. Essa parte do cinema independente é a que me atrai, é a busca incessante por melhora, a gana de vencer, de fazer 10 vezes e todas serem melhores. Afinal, produções com muito dinheiro se errarem vão lá e fazem de novo, pagam de novo, contratam alguém mais experiente… No independente não tem dessa. Errou? Re-faz quantas vezes forem necessárias até ficar do jeito que era pra ficar. E o Thiago ia me mostrando os resultados da pós enquanto gravávamos e isso me dava muito gás pra continuar. Sou um ator que passeia por trás das câmeras e a produção esta junto comigo, ver o processo me fascina.
No curta em inglês, seu personagem Dean é um homem instável diante de decisões irreversíveis. Qual foi uma decisão irreversível na sua trajetória (mesmo pequena) que te trouxe até aqui? E hoje, você sente mais medo ou mais paz com as escolhas que fez?
Ir pro Rio de Janeiro sozinho com 18 anos sem conhecer ninguém e trancar a faculdade de psicologia pra focar na atuação foram, sem dúvidas, escolhas decisivas na minha trajetória. O Rio é uma selva de concreto e quando não tem família lá, nem amigos, você tá completamente sozinho. O cuidado é redobrado, as relações que se constrói devem ter muita cautela na hora de se abrir pra alguém, contar segredos e desejos. Eu acredito que todas escolhas te levam a caminhos, sejam eles bons ou não, todos os caminhos te darão alguma coisa. Eu poderia me arrepender de varias coisas, mas as relações que criei a partir dessas experiencias, me fazem tirar proveito até das piores experiencias. Como diria meu pai: ha males que vem para o bem. E com certeza ter maturidade pra reconhecer o bem que vem de um mal é elevar a espiritualidade.
Acompanhe Lucas Tors no Instagram