VARO lança “Território Latinoamericano” e celebra a diversidade musical dos povos latino-americanos

Luca Moreira
13 Min Read
Duo Varo (AJ Santa Rosa)
Duo Varo (AJ Santa Rosa)

O duo VARO, formado pelos músicos Felipe Romano e Heitor Vallim, lança no dia 28 de novembro o álbum “Território Latinoamericano”, disponível em todos os aplicativos de música pela Marã Música. Com 13 faixas instrumentais, o projeto promove uma viagem sonora que reverencia a pluralidade dos povos latino-americanos, mesclando influências afro, euro e ameríndias em uma tessitura musical que reflete a diversidade identitária presente nas raízes culturais do Brasil.

Com melodias marcantes que unem heranças rítmicas e trajetórias pessoais, o álbum nasce das vivências dos artistas e do território em que estão inseridos, criando uma musicalidade descrita pelo duo como “latina afro euro ameríndia”. Inspirado pelo cotidiano urbano, “Território Latinoamericano” soa como uma trilha sonora para os fazeres diários, evocando ruas, paisagens e pessoas, além de dialogar com gêneros que atravessam fronteiras culturais: piseiro, cumbia, baião, maracatu, coco pernambucano, ritmos cubanos e samba, entre outros.

Sem letras, as composições falam diretamente ao corpo e à emoção, sustentadas por ritmos que conectam o público às suas afrolatinidades em uma experiência sensorial e dançante. Com uma trajetória marcada por apresentações nacionais e internacionais, incluindo o Santos Jazz Festival, o festival PaCuba (Cuba) e o Gliding Barnacles (Portugal), a VARO se firma como uma das forças mais pulsantes da música instrumental latino-americana contemporânea e busca, com este lançamento, expandir o diálogo com novos públicos e aprofundar o entendimento sobre o que significa ser latinoamericano hoje.

Vocês descrevem este álbum como uma trilha sonora para o cotidiano latinoamericano. Em que momento do dia, paisagem ou cena vocês imaginam alguém ouvindo “Território Latinoamericano” e pensando: “isso aqui é exatamente o som do meu lugar”?

Ah, eu acho que sim!  Porque é uma música feita no movimento, caminhar e na reflexão do dia a dia da vida das cidades. As melodias nasceram da locomoção do território… , ex: Eu ando de moto, né? Algumas melodias foram feitas no momento do trânsito, olhando para o semáforo, pra pessoas e lugares. Eu acho que você consegue ouvir nossa música, no som ambiente das cidades. Uma música que sai da cabeça do andar na rua, né?  Mas cabe em um lugar para dançar ou ouvir na praia, no corre, no trampo, lavando louça, fazendo comida, limpando a casa, em tudo!

Até porque músicas foram compostas nessa relação com território brasileiro latino, e também traz as experiências das viagens, né? A gente fez duas importantes viagens, uma foi Cuba e a tour de Portugal, inclusive tem uma música que é  – Piseiro da foz, que é uma brisa do Piseiro, Santista/ “Nordestino brasileiro”, em contraste com a cidadezinha litorânea de Figueira da Foz – PT. Eu, penso que nossa música dialoga com do povo brasileiro, latino-americano, que está no Brasil ou fora dele, e vai caber em alguma medida, em algum lugar na praia, na cidade, à noite ou de dia, onde for, e a VARO vai acompanhar com sua música a vida das pessoas.

O projeto nasce de um encontro entre ancestralidades afro, europeias e ameríndias. Em que momento dessa criação vocês sentiram que não estavam apenas compondo música, mas acessando algo que vinha antes de vocês, algo herdado?

Então, eu acho que a questão da ancestralidade já tá no nosso DNA! Eu (Felipe) , com minhas experiências iniciais na música, são totalmente ancestrais. Meu avô, me influenciou a batucar, meu pai me levou pra escola de samba, aí aumentou meu gosto pela batucada.  A ancestralidade das nossas famílias são indígenas e negras, a arte faz parte da nossa criação, tanto do Heitor quanto minha. Eu ( Felipe) tenho uma experiência com o maracatu há 22 anos, eu sou mestre do maracatu Quiloa, enfim, o meu padrinho me influenciou a tocar baixo foi uma músico da música brasileira, da divisa com Mato-Grosso me apresentou a Helena Meireles. Já o Heitor, tinha tanto o pai, quanto avô, como músicos de “violão de casa” e acabou aprendendo com isso, desde os clássicos da música brasileira e internacional com o gosto do seu pai, quanto a moda de viola caipira que seu avô Séptimo ouvia. Então, foi meio natural as composições saírem, assim meio organicamente, porque essa herança está no próprio DNA da dupla.

Duo Varo (AJ Santa Rosa)
Duo Varo (AJ Santa Rosa)

As melodias falam como se fossem letras”, vocês afirmam. Se cada faixa tivesse uma frase que traduzisse seu sentimento central, quais seriam algumas delas?

Quando a gente fala que as melodias têm a função de letra, é porque são melodias populares acessíveis. Nas nossas apresentações, a gente sempre pega as pessoas cantarolando.  E também os samples, dão um norte, contextualizam o nome da música, colaboram com a história da faixa e os áudios dos samples, trazem o povo, trabalhadores, mestres populares, enfim.  Faz uma ligação com a melodia e fixa esse diálogo com o território. Exemplo de Cumbia Kingston, que traz o grito do estádio de futebol, ou o próprio Malandro Praieiro, que traz um fenômeno do cabeça de gelo, as falas de Dona Selma do coco, Dona Zabé e Helena Meireles, Celia Cruz entre outras(o).

O álbum atravessa ritmos como cumbia, piseiro, maracatu, baião, samba e sonoridades cubanas. Houve algum gênero ou elemento rítmico que surpreendeu vocês durante o processo, como se a música tivesse decidido para onde queria ir sozinha?

Sim. Não vamos dizer todas, mas boa parte,  danza del mar, ela primeiro nasce de uma música com letra, muda de gênero e a letra sai, a  trilha do mar , que é um coco pernambucano, que é ritmicamente bem pra frente, dançante aí vem uma melodia, desdobrada, e acaba transformando em uma espécie de coco dançante contemplativo, e acaba fazendo essa fusão, o ritmo joga pra frente, dançante a melodia que joga pra refletir. Então, acho que tem um pouco disso. Onde a música tem vida própria.

Duo Varo (AJ Santa Rosa)
Duo Varo (AJ Santa Rosa)

Felipe traz uma longa vivência como mestre popular do Maracatu Quiloa. Que ensinamentos do maracatu — técnicos, filosóficos ou espirituais — vocês sentem que estão presentes neste disco?

Bom, basicamente, o formato das composições, são organizados no princípio de toadas, Loas,  cantos populares, zuelas de terreiro, então a questão da repetição esta presente, por isso que a gente entende que a melodia tem força , como letra a cultura do Canto Indígena tem isso muito forte, as melodias fixam as partes da música, o gênero, o ritmo e o sample, fazem uma  junção da composição, com o contexto cultural social, e territorial. Quando você ouvi a  femenagem, na  música Selma Heleno Zabé, ou na  Rainha Caribenha, ou como Maracatu Batuque Nosso, que traz as referências dos mestres por meio do samples, da Rainha Elda Viana, Mestre Afonso , Dona Olga, ou na música Malandro Praieiro, que tem uma referência do Cabeça de Gelo, acaba trazendo o território, o ensinamento e a ancestralidade, que é o pilar do Maracatu , além de fazer reverência, ao antepassado e ao  contemporâneos que caminha junto no  território, respondendo a pergunta acho que o Quiloa, está muito presente para além da manifestação do Maracatu, bem com a Dje’Ia e a  aldeia Tabaçu Reko Ypy que fazem participação na canção Maracatu Batuque Nosso também.

O álbum convida a uma compreensão mais profunda sobre o que é ser latinoamericano hoje. Para vocês, qual foi a maior descoberta pessoal sobre identidade durante a criação de “Território Latinoamericano”?

Então acho que a maior descoberta tem sido, que o  tal ‘ser latino-americano’ não é uma coisa só, que a América Latina não é uniforme. Notamos que individualidade e autenticidade, acaba gerando uma diversidade bonita, e uma das características que a gente percebe nas andanças, é que tem um acolhimento um afeto, uma paixão, um calor humano que está presente na américa latina.

E que o latino da Argentina ele não é o mesmo de Santos ou de Pernambuco, o Uruguaio não é o mesmo de Cuba, ou do povo do Pará, não é o latino-americano do Rio Grande do Sul

Cada história é construída bem diferente, e em algum lugar desses, de diferença,  inexplicavelmente tem uma semelhança, e mesmo que o colonizador tenta e tentou acabar com o povo e a ancestralidade indígena e de matriz africana, impondo a cultura europeia com a língua e etc , parece que tem um  fio que nos une. Queremos viajar mais para pensar nisso!

Duo Varo (AJ Santa Rosa)
Duo Varo (AJ Santa Rosa)

O corpo é parte essencial desta obra, uma música instrumental que provoca movimento. Qual foi a reação corporal mais marcante que vocês já viram ou imaginaram alguém tendo ao ouvir uma das faixas?

Também acho que o corpo é total a essência do álbum e também da VARO. Isso é a herança dos povos indígenas de matriz africana e que tem na linguagem do tambor. Tipo uma injeção energética para que a música flua e aí naturalmente ela vai diretamente no corpo, por exemplo, quando ouve uma música sentado, você dança, mexendo o quadril ou o ombro,  eu sinto que as músicas que a gente compõe, têm essa coisa do corpo o tempo inteiro, eu mesmo agora eu estou na música mexendo a cabeça como se ela já estivesse tocando, porque vibração  já está em nós! Então tem muito do corpo e do corpo dançante!

Pensando no futuro visual do álbum e no clipe que vocês planejam lançar: se a câmera pudesse captar não apenas imagens, mas sensações, que cores, texturas e gestos seriam essenciais para traduzir essa obra para o audiovisual?

Então a gente está nesse momento buscando as possibilidades para fortalecer as músicas, soluções criativas para um audiovisual bonito divertido, estamos com um roteiro rascunhado e e como uma câmera na mão e muitas ideias na cabeça, para o videoclipe de  “Malandro Praieiro” que também vai dialogar muito com essa coisa do corpo, com as danças populares  latino-americanas utilizando  imagens antigas e imagens novas provavelmente na praia.

A gente está seguindo mais uma vez nesse princípio de construir os contextos territoriais com um álbum que tem uma característica de trilha sonora latino-americana. Então é isso, acho que a gente já está se movimentando para o ‘Malandro Praieiro’ ter um videoclipe e assista nossos vídeos já lançados, se conecte com o nosso álbum Território Latinoamericano. Estamos muito felizes em poder lançar pra vocês, arriba, Vale, simbora! axé!

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