O artista Keruv Araiot apresentou ao público, em 14 de novembro, o EP “Tudo que não pode ser”, trabalho lançado pela Marã Música e já disponível em todas as plataformas digitais. Produzido por Caio Renno, o projeto mergulha em uma estética sonora que combina indie, MPB, psicodelia e uma brasilidade contemporânea que se revela em camadas: entre batidas eletrônicas, nuances grunge e a delicadeza de uma espécie de “bossinha” moderna.
Com um processo criativo guiado pela liberdade e pela espontaneidade, Keruv revela que as faixas nasceram em momentos diferentes, sem o compromisso de seguir um conceito prévio ou uma narrativa rígida. Natural de Itajubá (MG), o cantor iniciou sua trajetória em 2020, com o single “To Fly”, e desde então constrói uma discografia marcada pela experimentação, como mostram o projeto “Abstrato”, fruto de parceria com a Fábrica de Cultura do Capão Redondo (SP), e o EP “Habite-se”, contemplado pela Lei Paulo Gustavo.
Em “Tudo que não pode ser”, Keruv aprofunda seu diálogo entre o íntimo e o sensorial, transformando o que é proibido, silenciado ou reprimido em música, existência e manifestação artística. O EP consolida sua presença na cena independente como um criador que desafia rótulos e traduz, em som, o desejo de sentir o mundo em plenitude — ainda que isso signifique atravessar limites e reinventar o que se entende por liberdade.
Você conta que as músicas do EP nasceram em momentos diferentes, quase como se estivessem “te esperando”. Em que momento da vida você percebeu que elas não eram apenas canções avulsas, mas partes de um mesmo corpo emocional e poético?
Eu acredito que nada é por acaso, tudo está conectado. Essas músicas completam umas às outras, assim como os sonhos precisam do amor para se nutrirem.
A faixa “Bem ti vi” traz um diálogo afetivo com Tom Jobim e a estética da bossa. Em um Brasil que se transforma tão rápido, o que a bossa — e essa delicadeza do olhar sobre o amor — ainda te ensina como artista LGBTQIAP+ não binário?
Nós, pessoas LGBT+ não binárias, precisamos ocupar todos os espaços, explorar cada vez mais gêneros musicais e enfrentar de frente todo o preconceito. Até porque o Brasil é isso: uma mistura de ritmos, uma cultura rica. Por eu ser um artista brasileiro, achei interessante explorar o gingado da bossa e trazê-lo para um lado mais indie/alternativo. Isso mostra que todos nós temos a capacidade de tornar qualquer coisa singular, mesmo que esteja associada a um lugar específico — como a bossa, tão vinculada ao Brasil — e dar a ela uma pitada diferente do indie. Estamos sempre aprendendo e fazendo magia com as sonoridades.

Você descreve o EP como um convite à liberdade de amar e sonhar. Existe algo que você, pessoalmente, só sentiu que era possível viver depois de escrever essas canções?
Permitir-me sonhar mais e amar mais.
Esse trabalho nasceu a partir de um edital, e você diz que foi quase um milagre ter sido contemplado. Qual foi o momento mais simbólico dessa jornada, aquele em que você pensou: “era pra ser”?
O momento mais marcante foi quando eu recebi a verba na semana da Páscoa. Eu estava muito preocupade, porque já fazia quase um mês que eu tinha assinado o contrato e nada da verba para começar. Então, pedi ao universo uma resposta e, como em um passe de mágica, o dinheiro estava na conta.

Ao falar que a arte não binária LGBT resiste e persiste, que parte da sua história você sente que está sendo reparada ou devolvida a você por meio da música?
Quando eu componho, não escrevo apenas sobre o que eu estou sentindo. Sempre paro e canalizo emoções do dia a dia, situações que refletem a sociedade. Quero transformar isso em canção, algo que faça a pessoa pensar: “poxa, eu já passei ou estou passando por isso.” Ver que outras pessoas se identificam com a minha arte já me traz a sensação de “trabalho concluído”.
Há texturas de indie, MPB, psicodelia, grunge e até uma “bossinha moderna”. Quando você fecha os olhos e escuta o EP inteiro, qual imagem ou sensação aparece primeiro?
Literalmente a capa do EP: algo mais sossegado, tranquilo e vibes, uma sensação de leveza.
Você planeja visualizers com legendas em português e inglês. O que você imagina que alguém do outro lado do mundo possa sentir ao ouvir Tudo que não pode ser sem ter vivido o Brasil, mas podendo te ler?
Quero que pessoas do mundo inteiro sintam que o Brasil também tem uma forte resistência LGBT+, e que essa comunidade possa se sentir acolhida e empoderada em liberdade e amor — mesmo quem não seja LGBT.
Se você pudesse entregar esse EP como um recado para o seu eu de 2020, no começo de tudo, qual seria a frase que esse trabalho diria a ele?
Vou citar um trecho da minha música “YOLO” — abreviação de you only live once — que por si só já tem uma força muito grande, mas que na introdução traz algo especial: “Diga-me seus sonhos, quais são seus desejos? Eu posso realizar, isso é uma promessa do coração.”
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