Explorando os limites da mente humana, o escritor Vinicius Monfrinato lança A Garota da Ponte, um romance que mergulha nas profundezas dos traumas psicológicos de sua protagonista, Simone. A trama se desenrola após um grave acidente na Ponte Estaiada, em São Paulo, que desencadeia uma série de revelações sobre os abusos e ameaças que Simone enfrentou na infância. Com capítulos curtos e diálogos intensos, o livro aborda temas como desigualdade social, racismo, violência sexual infantil e as complexas emoções humanas, destacando a importância do cuidado com a saúde mental. A obra, que também oferece uma experiência interativa com playlists, convida os leitores a refletirem sobre as consequências de um ambiente familiar tóxico e a busca por identidade em meio ao sofrimento.
Você pode nos falar um pouco sobre a criação da protagonista Simone e os desafios que ela enfrenta ao longo da trama?
Essa personagem, de certa forma, sempre esteve presente no meu imaginário. Em um primeiro momento, fiquei na dúvida se ela seria jornalista ou confeiteira. Então acabei optando pela segunda opção, pois achei que teria mais a ver com ela. A partir disso, comecei a dar vida a essa protagonista tão complexa. A confeitaria, na realidade, foi a sua salvação, onde Simone encontrou forças e sentido na própria vida para conseguir lidar com os vestígios dos traumas que sofreu no passado.
De uma maneira, me identifiquei desde o início com essa personagem, quando me vi aos 40 anos completamente perdido, desanimado e sem perspectiva de vida. Foi quando me escutei de verdade, permitindo pela primeira vez realizar um grande sonho: escrever um livro. Não deixei que o medo me dominasse e falasse mais alto nesse momento. Precisamos entender que este sentimento não é saudável, pois não nos permite viver, nem ter coragem para correr atrás de realizar os nossos sonhos.
Parando para pensar agora, quando comecei a escrever essa história, achando que estava salvando aquela personagem de seus demônios, na realidade, foi ela quem me salvou de mim mesmo. De forma metafórica, a protagonista me ajudou a enxergar o meu próprio potencial, a minha determinação, a minha garra e, o principal, a pessoa que eu estava me tornando a partir daquele instante, em que criei forças indo contra tudo e todos, na realização do meu sonho. Serei eternamente grato por Simone ter surgido em minha vida.
Como você desenvolveu a conexão entre os comportamentos autodestrutivos de Simone e os traumas que ela carrega do passado?
Eu desenvolvi essa conexão a partir das pesquisas que fiz para escrever a história. Precisava entender o horror que as vítimas sofrem com a violência sexual, que é abominável. Esse comportamento autodestrutivo da Simone está completamente ligado ao seu trauma. Precisamos compreender, que algumas vítimas se sentem culpadas, envergonhadas e, por muitas vezes, demoram a reconhecer e aceitar que, de fato, sofreram algum tipo de abuso.
O acidente na ponte Estaiada é um ponto crucial da história. Como você chegou a essa ideia e qual foi o impacto desejado desse evento no enredo?
Para mim, a ponte Estaiada é um símbolo importante da cidade de São Paulo. A minha ideia de colocar esse ponto crucial na história foi fazer uma ligação das personagens e a luta terrível que elas travam com um símbolo paulistano. Gostaria muito que esse assunto de extrema necessidade a ser debatido na nossa sociedade ficasse marcado na memória das pessoas, para que elas possam fazer essa ligação ao ouvir falar, ou até mesmo quando passarem pela região, de forma que lembrem das duas personagens do livro. Afinal, Simone e Flávia estão dando voz a tantas outras vítimas espalhadas por aí, que sofrem esse tipo de abuso todos os dias.
O livro aborda questões profundas como violência sexual infantil e ambiente familiar tóxico. Como você abordou esses temas sensíveis e garantiu que fossem tratados com a devida seriedade?
Eu tentei abordar da forma mais séria, honesta e sensível possível. Precisamos estar atentos a cada sinal que a pessoa possa dar, ainda mais quando essa violência acontece dentro da casa, onde, muitas vezes, esse assunto costuma ser velado. Por causa disso, fica muito mais difícil para a vítima externalizar o que está vivendo, com medo de ser julgada.
A relação entre Simone e Flávia é complexa, especialmente com a presença de Marcos. Como a amizade e o relacionamento amoroso influenciam a narrativa e o desenvolvimento de Simone?
Esses três personagens influenciam demais na narrativa. A amizade entre Simone e Flávia é antiga, vem desde a época da escola. Apesar de serem amigas e se gostarem, essa relação não deixa de ser complexa. Afinal, as duas são vítimas de violência sexual, e cada uma tenta lidar à sua maneira, com os traumas e cicatrizes que adquiriram ao longo da vida.
De um lado temos Simone, tentando achar a própria identidade enquanto lida com comportamento autodestrutivo e a dificuldade de expressar os sentimentos. Do outro lado, temos a Flávia, que apesar de todos os abusos e violência que sofreu, nunca deixou de acreditar no amor; para ela, o seu oxigênio e a sua força vêm desse sentimento.
Já Marcos foi o grande amor de Simone. O rapaz se encantou por ela, no momento em que a viu no primeiro dia de aula, quando a protagonista ferozmente o defendeu dos garotos que estavam implicando por ele ser o único aluno negro da escola. No entanto, a vida tomou outros rumos e, mesmo nutrindo sentimentos por Marcos, Simone tentou se convencer de que o grande amor de sua vida estaria melhor ao lado de Flávia. Só não sabemos até que ponto a jovem confeiteira aguentará esta situação.

Você usou QR Codes para incluir playlists relacionadas ao livro. Como essa ideia surgiu e de que forma ela contribui para a experiência de leitura?
Sou apaixonado por músicas. Todos os dias que escrevo, sempre estou com os meus fones de ouvido escutando a minha playlist. Durante a história, algumas canções são mencionadas. Eu quis trazer essa proposta dinâmica e interativa para que o leitor pudesse ouvir a música mencionada em uma determinada passagem da trama e, assim, ter um maior aprofundamento do momento em que o personagem se encontra. Acredito que isso potencializa a emoção e a experiência da leitura.
Quais foram os maiores desafios ao explorar a desigualdade social e o racismo através dos personagens e da trama?
Um dos maiores desafios de explorar o tema da desigualdade social foi ver que ela está se alastrando cada vez mais na nossa sociedade, causando problemas sérios na população. Isso acaba diminuindo a motivação das pessoas em lutar por mudanças.
Na história, os pais de Marcos vieram de origens humildes. Tentei trazer essa força para que eles conseguissem ter essa motivação em mudar o cenário que se encontravam. Nós sabemos que o racismo tem impactos profundos na saúde mental das vítimas, podendo gerar ansiedade, estresse, isolamento social, depressão e prejudicar a autoestima. Na história, a Simone tem um papel fundamental ao mostrar para o Marcos que ele é muito maior do que as pessoas podem achar ou pensar dele.
Qual mensagem você espera que os leitores retirem de A Garota da Ponte, especialmente em relação à importância da saúde mental e do apoio emocional?
Nós sabemos que vivemos em um mundo caótico, cada vez mais imediatista, onde tudo precisa ser feito para ontem. Estamos cada vez mais focados em nós mesmos. Você sempre escuta que a pessoa não tem tempo. Mas já se perguntou quantas horas por dia você fica no celular? Eu garanto que você pode tirar 8 minutos do seu dia para conversar com uma outra pessoa e perguntar se ela está bem.
A mensagem que eu gostaria que os leitores desse livro tirassem é: se dê a oportunidade de olhar para as pessoas que estão ao seu redor e perguntar se ela está bem. Muitas vezes ficamos constrangidos ou envergonhados em dizer que não estamos bem. Afinal temos a rede social nos mostrando o tempo todo que as pessoas são felizes com as suas vidas perfeitas.
Parece que ninguém tem problema e nem boleto para pagar. Mas, essa não é a realidade. Eu acho que precisamos nos importar mais com o próximo. A qualquer sinal, que a pessoa lhe der, não custa nada você dar o seu apoio emocional para ajudar o outro. Precisamos entender que, muitas vezes, o amor pode salvar uma vida.
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