Usando a estética de um banquete como forma de destruir poeticamente os papéis do feminino na sociedade, a cantora e compositora Natália Xavier lança o clipe de “Penélope”. A faixa é um dos destaques do álbum de estreia, “Eu Também Sou Teus Rios”, que foi imaginado como um diálogo íntimo e autoral da artista com sua ancestralidade nordestina.
Natália faz música brasileira que abarca referências teatrais e poéticas, em um diálogo com suas origens, mas também com suas múltiplas formas de expressão, incorporando sua experiência como artista visual e poeta, além de cantora e compositora. Suas canções se guiam pela palavra poética e pelo potencial de imaginar novos mundos por meio da arte.
Tendo como referência o trabalho musical de Alceu Valença, Chico César, Lenine, Zeca Baleiro e a pesquisa sonora dos grupos A Barca, Raízes de Arcoverde, e da cantora Renata Rosa, a sonoridade do disco foi sendo tecida, ao longo de um ano, a várias mãos. Natália recebe diversos artistas, entre eles Maria Fernanda Batalha, que surge em “Penélope”. “Eu Também Sou Teus Rios” está disponível nas principais plataformas de música e o clipe, no canal do YouTube da artista. Confira a entrevista!
Lançado recentemente, o clipe de “Penélope” trata de forma bastante criativa a destruição dos papéis do feminino na sociedade, principalmente pela analogia de um banquete. Gostaria de começar perguntando primeiramente como foi para chegar até o uso dessa analogia e a história desse projeto?
Bom, antes de ser um clipe e uma música, Penélope era um poema meu, escrito em 2018 dentro de um busão. rsrs. E uma das grandes inspirações pra esse poema foi o texto homônimo da escritora Nélida Piñon. A imagem do banquete vem daí primeiramente e, dentro dos meus estudos de feminismo e de descolonização dos saberes, essa imagem do banquete se estabelece como uma forma potente de subverter a relação pejorativa que foi estabelecida historicamente entre o feminino e a cozinha. Gosto de pensar a cozinha como um lugar de potência e revolução também. De um saber que vem do corpo, mais do que do intelecto tão superestimado pelo patriarcado. Acho que esse foi o primeiro princípio que orientou o projeto do clipe e fez com que o banquete ganhasse centralidade. Inclusive, a narrativa que criamos pontua a cozinha e o conhecimento das ervas como um lugar de poder, já que no clipe as protagonistas matam por envenenamento um sistema que oprime 90% dos corpos.
Minha amiga multiartista, Maria Fernanda Batalha musicou o poema e gravou comigo a canção. Aí quando decidi filmar um clipe do disco, de todas as músicas, essa era a mais teatral. Tem que ser Penélope!, pensei. Então convidei a Alice Gouveia pra dirigir o clipe. Alice já tinha fotografado a capa do álbum, as fotos de divulgação e possui uma direção de fotografia completamente embasada nas artes visuais. Depois de alinharmos o roteiro, ela convidou as meninas da Agência Nebá pra desenvolver a direção de arte, figurino e beleza do vídeo.
Atualmente você está trabalhando em seu primeiro álbum que é o “Eu Também Sou Teus Rios”, que além de mostrar um pouco de sua ancestralidade nordestina, ele também dialoga de forma pessoal com os seus sentimentos e visão de mundo. Logo nesse início de caminhada de lançamentos, qual tem sido o significado desse projeto na sua vida?
Apesar de ser nova no meio musical, eu produzo artisticamente há pelo menos 10 anos. Por isso, ter lançado o meu primeiro álbum autoral tem um significado muito especial para mim. Ver meus poemas ganhando melodia, harmonia, voz e encantando corpos é muito mágico. No disco sinto que há uma maturação de vários processos que vim desenvolvendo em diferentes linguagens artísticas durante minha vida (já fiz espetáculos como atriz, sou artista visual e poeta também). E sinto que na criação do álbum eu consegui traduzir formalmente com mais facilidade o meu repertório de imagens poéticas. Havia um rigor, mas também muita visceralidade. É realmente a realização de um sonho para mim. E que só foi possível graças a parcerias incríveis. Aliás, ainda terminei 2022 estreando o show do disco na Cinemateca Brasileira, dentro do Festival Jardim Secreto.

Além de você, outro que está envolvido no projeto é a diretora Alice Gouveia Barroso. Como foi a troca entre vocês e quais foram os primeiros contatos que tiveram para começar a alinhar o videoclipe?
Poxa a troca foi incrível e muito respeitosa, já que éramos duas mulheres exaustas de ver uma estrutura patriarcal violenta operando no meio artístico. Depois que Alice aceitou o convite pra dirigir, fizemos um primeiro encontro pra levantar ideias. Eu pontuei o que achava que não podia faltar e o que não tinha a ver com meu processo criativo. Feito isso, mandei um primeiro esboço de roteiro pra Alice, que além de finalizar e preencher os buracos que eu tinha deixado, ainda trouxe todo um repertório de imagens-referências pronto pro clipe. Então convidamos a Agência Nebá pra fazer a direção de arte, figurino e beleza do clipe. (inclusive foram elas que produziram o belíssimo banquete) Enviamos pra elas o roteiro e fomos alinhando cada detalhe dessa pré-produção juntas ali no whatsapp rsrs. Acho que foram umas 2 ou 3 semanas de pré. Filmamos tudo em 4 diárias e essa equipe (eu, Alice e Agência Nebá) esteve presente nos 4 dias.
Um dos grandes problemas que enfrentamos no mundo de hoje é com certeza o preconceito, é um dos que mais vemos casos, inclusive na arte é a xenofobia, que tivemos alguns como o caso da Juliette acusando uma equipe de dublagem ao pediram para neutralizar seu sotaque durante uma produção. Com ancestralidade nordestina, quais são os seus pontos de vista em relação a esses casos que acontecem na classe artística?
Sou paulistana. Meus pais que são nordestinos. Meu pai é de Guaratinga na Bahia e minha mãe é de Caruaru, Pernambuco. Mas mesmo como paulistana tenho meu ponto de vista em relação a isso. Acho muito complicada essa situação que aconteceu coma Juliette, por exemplo, até porque eu não acredito em neutralidade. rs. Paulista também tem sotaque, por que todo mundo tem que se encaixar nesse modo de falar?! É muita presunção. Mas isso é algo decorrente do eurocentrismo que se estabeleceu com o processo violento de colonização. Pro pensamento eurocêntrico, apoiado veementemente pela ciência cartesiana, há o topo da evolução que culmina no homem branco hetero (é só pesquisar sobre a árvore da família humana, Anne McClintock discorre sobre isso no livro Couro Imperial). O Sudeste espelha esse modo de pensar: o topo da evolução do sotaque culmina no jeito de falar paulistano. É uó. Lembro bem da minha mãe me contar que parou de querer ir pra escola quando criança aqui em SP, porque todo mundo tirava sarro do sotaque dela. Minha mãe foi terminar a escola quando eu tinha uns 7 anos só.

O seu álbum está reunindo diversos estilos musicais, tais como o coco de roda, maracatu, baião e afoxé que juntos provocam mobilização com questões de corpo, identidade feminina, fomes, tempos, caos, entre outros fenômenos. Em sua opinião, qual seria o verdadeiro poder da música como veículo de propagação de identidades culturais?
Eu acredito muito no poder da arte de criar outros imaginários possíveis. Seja em qualquer linguagem. Isso pode vir junto da propagação e difusão de identidades culturais, mas nunca foi o meu foco principal. Até porque embora isso se dê de alguma forma, isso depende muito do quanto a indústria cultural – que tem um poder absurdo de distribuição – está interessada em difundir esses outros ritmos e produções culturais. No momento, vemos uma ênfase da indústria quase que exclusivamente no pop e no sertanejo, por exemplo. De qualquer forma, eu entendo a produção artística enquanto tradutora de arquétipos, reanimadora da linguagem e reguladora da psiquê. Essa é uma abordagem bem junguiana, que inclusive está presente no meu mestrado em Poéticas Visuais e, não à toa, guia todo meu percurso criativo.
Uma característica própria e suas músicas é o jeito em que você traz elas com a utilização de referências teatrais e poéticas e que dialogam com suas origens. Nesse caso, como costuma funcionar o seu processo de composição e quais os elementos que não poderiam faltar em uma música sua?
A maioria das composições partiu de um poema/texto meu que já existia. A poesia/palavra me mobiliza dum jeito muito profundo. Aí com a letra em mãos eu determinava um ritmo que guiaria a canção. Meu maior medo era ficar sem suingue, uma MPB meio morna a qual eu tenho pavor. rsrs. Por ter estudado percussão antes de assumir o canto, eu conheço boa parte das claves dos ritmos populares brasileiros. Eu gravava algo simples no pandeiro, ou com palmas e ia desenhando a melodia em cima. Meu processo com a melodia é bem intuitivo, e minha busca é criar algo belo, que eu escute e fale: nossa que linda essa melodia. Porque eu já tenho essa relação natural com as melodias que escuto. Sempre estou atenta. Aí como não domino nenhum instrumento harmônico, e sou bem rigorosa com todo o processo de criação das músicas, fiz parceria com outros músicos para que eles criassem a harmonia a partir desse processo meu. Seis das oito composições do disco foram feitas em parceria com o guitarrista Eder Sandoli (conhecido por colaborar com Tom Zé, Jarbas Mariz e tocar com Trio Virgulino e Itamar Assumpção) que também assinou a direção musical do álbum. Todas as parcerias feitas no processo envolveram afeto. Só convidei pessoas com as quais eu tinha alguma relação de afeto/amizade, que acreditavam no que eu estava criando e que eram extremamente rigorosas e viscerais no processo criativo.

Não só os lançamentos musicais, sua loja também chegará com novidades. Quais as novidades para sua loja virtual e os preparativos para os próximos meses?
Nossa eu lancei muitos produtos novos no final de 2022. Nesses próximos meses quero retomar as camisetas que esgotaram, produzir camisetas do disco, pintar bastante e fazer mais shows do disco. Meu deus eu amo estar no palco! hahahaha
Alceu Valença, Chico César, Lenine e Zeca Baleiro são algumas de suas inspirações, você diria que a cultura nordestina é sua maior inspiração?
Com certeza! Tem algo do suingue dos ritmos populares e do rigor poético destes autores que fala direto ao meu coração.
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*Entrevista em parceria com Regina Soares
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