Samuel Valladares, multifacetado ator, roteirista, documentarista e palhaço, traz seu talento para o público infantil em “Quebra-cabeça: em busca da peça que falta“. Este espetáculo de improviso, que promete encantar as crianças com sua interatividade e criatividade, estreia em 9 de março no Teatro O Tablado. Com um histórico rico em atuações marcantes no cinema, teatro e em sua recente aventura no mundo dos documentários com “Storm Video” na Globoplay, Samuel se aventura pela primeira vez em uma peça de improviso voltada para o público infantil, trazendo toda a sua experiência para criar uma conexão única com as crianças e mergulhar junto delas nas histórias criadas em cena.
Dos palcos as telas de cinema, como foi que esses dois universos se encaixaram em sua carreira?
Na verdade, eu sempre estive no teatro e no improviso. Comecei a trabalhar com cinema em paralelo. Mas de fato, é a primeira vez que faço uma peça improvisada para crianças.
Qual foi a maior diferença que você encontrou entre trabalhar com crianças em uma peça de teatro e com adultos em filmes?
Como eu trabalhei mais com teatro do que com cinema (enquanto ator), posso falar melhor da diferença entre se apresentar para um público adulto e para um infantil, em peças de improviso. Enquanto os adultos rapidamente entendem que se trata de uma criação instantânea, e isso vira um ponto de interesse – a graça dos erros, as boas ideias para história criadas na hora, etc. – as crianças levam a história em si muito a sério. Elas embarcam totalmente na narrativa, nas questões dos personagens, e se sentem agentes ativas do rumo das coisas. Elas levam a “brincadeira” do improviso a sério, o que enriquece muito nós, atores, que sentimos isso e passamos a brincar de verdade.
Você pode nos contar um pouco sobre a experiência de dirigir seu próprio documentário, “Storm Video”, e como isso influenciou sua carreira?
Foi uma experiência que me formou muito. Ganhei uma autoconfiança maior para acreditar no meu trabalho, uma autonomia e proatividade para trabalhar com qualquer obra que participe, seja cinema, teatro, o que for, e uma percepção de que, muitas vezes, o material mais rico que temos para a criação artística está presente na vida cotidiana mais ordinária.
Como surgiu a oportunidade de participar do espetáculo “Quebra-cabeça: em busca da peça que falta” e qual foi sua reação ao receber o convite?
Num primeiro momento fui chamado para ser stand-in (ator “reserva”) para substituir meu amigo Rafael Saraiva quando precisasse. Mas os ensaios foram avançando, a estrutura da peça foi se construindo dia a dia, e as nossas diretoras entenderam que seria melhor para a peça ter um ator a mais, então me integraram para o elenco fixo. Já estava muito feliz sendo stand-in, daí fiquei mais feliz ainda!
O que mais te atraiu no enredo e na proposta deste espetáculo de improviso para crianças?
Só o fato de ser um improviso infantil já me atraiu muito. Para além disso, pensando no nosso espetáculo, o que me anima muito é a abertura que temos para a criação dos personagens que surgem na história. A partir da estrutura que foi montada, temos muita liberdade para a criação de personagens, de como explorá-los e como explorar os universos de cada um.

Você poderia compartilhar conosco alguma experiência marcante que teve durante os ensaios ou preparativos para esta peça?
Lembro de um ensaio que fizemos num salão de um prédio para várias crianças. No meio da história, enquanto eu dava alguma fala, percebi o quanto as crianças estavam imersas na trama, nos problemas que meu personagem enfrentava, e o quanto isso afetava elas. Isso me tocou e me fez perceber a quão séria é a “brincadeira” que fazemos em cima do palco. A brincadeira só funciona se levaramos ela a sério, assim como as crianças quando brincam, por exemplo, de polícia e ladrão.
Como é a dinâmica de atuação em uma peça de improviso para crianças? Existe algum desafio específico que você enfrenta nesse tipo de trabalho?
Acho que o maior desafio é entender que as crianças levam a peça muito a sério, no melhor dos sentidos. Muitas vezes, fazendo peças de improviso, faz parte cometer “erros”, como confundir o nome dos personagens, ou tomar um rumo ruim para a história, e tudo isso costuma gerar graça nos adultos, que entendem que o improviso se trata de um grande desafio e riem quando os atores compartilham essa dificuldade. Já as crianças, não. Elas levam a história muito a sério, querem que a brincadeira da contação faça sentido. Isso nos leva pra um lugar muito potente de acreditar nos personagens, interpretar de forma mais entregue, mais honesta, mais viva.
Sendo também roteirista, como você vê o papel da improvisação no processo criativo de uma peça teatral?
Acho que a improvisação é o lugar onde você usa os conhecimentos e técnicas que já possui para construir algo novo, espontâneo, a partir disso. Ser roteirista me ajuda a ter uma clareza maior na improvisação nos momentos de amarrar
a história, de pensar a ordem das cenas, as durações, os conflitos que podem surgir, enfim, a organização da história.
Como é conciliar seus estudos de Direção Teatral na UFRJ com sua carreira de ator e roteirista?
Tranquilo. Fico mais ou menos presente dependendo dos trabalhos que faço fora dela, mas não tenho pressa em me formar. Acho que quem estuda/trabalha com arte, seja teatro, cinema, o que for, não tem como colocar a formação acadêmica acima das oportunidades de trabalho, pela dificuldade que temos em se sustentar dela.
Você poderia nos falar um pouco sobre o grupo de pesquisa em palhaçaria que você dirige na UFRJ e como isso tem contribuído para o seu desenvolvimento como artista?
Esse grupo é bastante recente, ainda está se formando, tivemos poucos encontros, mas já tem mexido muito comigo. Investigar a linguagem da palhaçaria, principalmente com um grupo de pessoas que admiro tanto, sempre me faz me auto investigar, redescobrir novos traços, novas possibilidades cômicas, novas sensibilidades, e por aí vai.