Após o lançamento oficial de “As Vantagens de Ser Você” durante a Bienal do Livro de SP, a escritora Ray Tavares, seu livro e Ana Menezes, a protagonista da obra, pegaram a estrada e realizaram uma turnê de lançamento pelas principais capitais do Brasil.

Em “As Vantagens de Ser Você”, seu quarto livro lançado pela Galera Record, conhecemos a vida de Ana Menezes, uma jovem adulta de 24 anos que se encontra em meio a uma crise existencial, solteira e sem perspectivas de futuro na carreira e na vida pessoal.

Ray Tavares é uma jovem, porém já famosa autora de livros voltados ao público young adult, sempre enredados de comédia, temas que fazem parte do cotidiano dos jovens e pitadas de romance. “As Vantagens de Ser Você” encontra-se à venda nas principais livrarias e marketplaces online de livros do Brasil. Confira a entrevista!

Lançada na Bienal do Livro de São Paulo no início deste mês de julho, a obra “As Vantagens de Ser Você”, engloba os leitores no cotidiano de Ana Menezes, que em um cenário de crise existencial, acaba se encontrando no mundo. Quais foram os caminhos que a levaram a produzir essa obra?

Esse livro nasceu da minha própria crise existencial e o que eu queria ter lido enquanto passava por uma fase difícil da minha vida, onde me sentia estagnada e desmotivada. Quando eu percebi que essa questão era universal e muito geracional, da gente que chegou agora aos 20/30 e se sente completamente perdido, entendi que precisava falar sobre isso.

Recentemente foi anunciada uma turnê de lançamento pelas capitais brasileiras. Como está sendo a sua experiência até o momento e o que tem achado da identificação dos leitores com sua história?

A turnê foi incrível – passei por sete cidades, em estados diferentes do Brasil, e nas sete encontrei sessões lotadas e leitores de culturas, contextos e idades diferentes, que encontraram acolhimento em As Vantagens de Ser Você. É muito incrível saber que o tema do livro conversa com tantas pessoas, dos quatro cantos do país!

Promovendo uma grande diversidade entre os seus personagens, a sua obra é considerada um young adult LGBTQIA+, onde além de promover o antipreconceito, também foi lançado em um mês importante para a comunidade que é justo no mês do Orgulho LGBTQIA+, marcado inclusive pela tradicional parada na Avenida Paulista. O que esse lançamento significou pra você e a escolha desse período foi proposital?

Esse lançamento significou muito para mim em muitos sentidos, é o meu primeiro romance sáfico e eu tenho muito orgulho do relacionamento que construí e da representatividade de todos os personagens. Lançar ele no mês do orgulho não foi proposital, mas fez absolutamente todo sentido – e poder ainda comprar e distribuir ebooks para leitores que não podiam comprar, seja por uma questão financeira ou uma questão de preconceito dentro de casa, tornou mais especial ainda. Sei que esse livro está chegando nas mãos de quem precisa chegar.

Ray Tavares (Foto: Divulgação)

Uma das questões que infelizmente vem se tornado cada vez mais tabu entre o público é a questão da aceitação sexual, onde a cada dia temos que lutar para garantir o direito do amor em todas as suas formas. Essas ocasiões acabam sendo difíceis também para os jovens que se sentem atraídos por um romance homossexual e encontram dificuldades em serem aceitos por seus familiares. Como autora desse gênero, qual é a sua opinião a respeito dessa situação e como busca auxiliar esses jovens através de sua escrita?

É muito triste que isso ainda aconteça, mas infelizmente é uma realidade. Muitos leitores não podem levar o livro pra casa por serem duas meninas na capa, por exemplo, ou se levam, precisam esconder dos pais. Eu acho que o que a gente, como escritor, pode fazer é continuar escrevendo com diversidade e criando mais e mais personagens de sexualidades, raças e corpos diferentes, em gêneros literários diferentes, até que esse tipo de literatura deixe de ser um “gênero” e se torne a norma. No mundo ideal, teríamos personagens diversos em todos os gêneros da literatura, romance, terror, thriller, comédia, drama, fantasia, etc., mas hoje o que vemos é ainda uma segmentação da literatura LGBTQIA+, estantes separadas nas livrarias, e, muitas vezes, leitores que não podem consumir esses livros. Claro, você ter uma estante de literatura LGBTQIA+ em uma livraria é um avanço imensurável, mas todos os livros da livraria terem personagens diversos sem que fosse necessário dar um disclaimer antes seria o mundo ideal.

Apesar de já ter vários livros publicados, a sua trajetória na escrita já se estende por muitos anos, desde que começou a escrever fanfics aos 13 anos, abordando principalmente o contexto musical, como foi o caso de uma história do McFlay. Você guarda lembranças de como foi essa época e a partir de qual ponto você acabou começando a ver seu talento como uma possível profissão?

Com certeza! Nos agradecimentos do meu primeiro livro publicado pela Galera Record eu agradeço ao McFLY por ter me dado uma carreira, rs. Eu na verdade demorei para ver a escrita como uma profissão a seguir, sempre ouvi que não dava para viver de arte no Brasil, então a escrita ficou como um hobby por muito tempo. Mas conforme eu ia envelhecendo, percebia que escrever era a única coisa que eu sabia fazer direito, e viver uma vida em que escrever não era a maior parte dela me parecia muito triste e vazia. Foi aos 17/18 anos que eu percebi que precisava arriscar e tentar, se não seria frustrada para sempre. Ainda demorei mais 7 anos e três livros publicados depois dessa compreensão para largar meu emprego CLT e seguir meu sonho, mas hoje sou muito feliz e realizada por ter feito essa escolha.

De acordo com uma pesquisa publicada pela Folha de São Paulo no ano de 2019, apontou que as crianças e os adolescentes estavam concentrando que até os 13 anos, 84% dos leitores brasileiros estavam nessa faixa etária e que logo depois dos 14 aos 17, esse número caia para 75%. Em uma realidade onde os jovens são cada vez mais cobrados para a leitura na fase escolar, qual é sua opinião sobre esse déficit em relação aos adultos? Acredita que falte literatura na correria do dia a dia dos adultos?

Eu acho que ler é um hábito, e que esse hábito vai ficando um pouco de lado conforme vamos crescendo e recebendo mais responsabilidades. Eu passava horas e horas lendo quando era adolescente, porque eu tinha essas horas, mas agora tenho bem menos tempo para ler durante o meu dia – mesmo assim, me esforço para manter o hábito e leio todas as noites, religiosamente, nem que seja uma página. Acho que esse é o problema; a gente não cultiva o hábito, e a leitura vai saindo das nossas vidas aos poucos, e quanto vemos, estamos com uma dificuldade imensa de terminar um livro que, na adolescência, leríamos em poucas horas. Não é que o adulto não lê, é que o adulto não cultiva o hábito – e, claro, a gente sabe que depois de um dia inteiro de trabalho a gente não quer mais pensar em nada, eu também sou assim, mas quando a literatura passa a ser de fato esse momento de descomprenssão e não mais uma tarefa, a gente volta a tomar gosto pela leitura.

Ray Tavares (Foto: Divulgação)

A respeito de “As Vantagens de Ser Você”, um dos principais questionamentos que a obra faz é a que ocorre na crise dos 20 anos, onde a personagem se pergunta o que teria acontecido se as coisas tivessem sido diferentes em sua história. Esse pensamento foi baseado em uma realidade de sua vida?

Com certeza. É muito difícil viver de escrita, viver de arte, e por muito tempo eu me questionei se havia feito a escolha certa – mas acho que todo mundo se questione, são os famosos “e se” da vida. O livro brinca justamente com isso, duas jovens, uma que seguiu o sonho e está frustrada e a outra que seguiu o roteiro “correto” da vida e também está frustrada. É da condição humana imaginar o que teria acontecido se tivéssemos feito outras escolhas, e eu quis brincar um pouco com isso.

Quais são suas principais inspirações e dificuldades em escrever para o público jovem?

Acho que saber que eu pude inspirar alguém que está com a mente ainda em formação é uma das partes mais gostosas de escrever para esse público – já ouvi muito que determinada passagem de algum livro meu fez o leitor pensar, refletir e pesquisar sobre o tema, e isso me deixa muito feliz, porque quando eu era jovem, livros que me faziam pensar eram os meus favoritos. Acho que a maior dificuldade é que eu não sou mais tão jovem assim, hahahaha, ano que vem faço 30! E preciso estar sempre me atualizando para saber o que a nova geração consome, quais seus medos, frustrações e felicidades. É trabalhoso, mas o retorno faz tudo valer a pena!

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