Gabriel Ract transforma misticismo e ciência em uma jornada pela alma humana através de novo livro

Luca Moreira
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Gabriel Ract (Raphaela Valéria)
Gabriel Ract (Raphaela Valéria)

Entre segredos, símbolos e labaredas de fé, o escritor e médico Gabriel Ract resgata o fascínio da alquimia em “O Alquimista de Bastos”, um romance ambientado na França do século XVIII, onde ciência e espiritualidade se entrelaçam em uma narrativa intensa sobre poder, culpa e redenção. A obra acompanha Damian Willard, um jornalista britânico infiltrado em uma universidade parisiense que investiga o desaparecimento de estudantes de esoterismo — e acaba mergulhando em um labirinto de manipulação, fé e autoconhecimento guiado pelo enigmático Simon Durant, um alquimista imortal em busca da transmutação da alma.

Com prosa refinada e atmosfera simbólica, Ract transforma o ocultismo em espelho da condição humana, revelando que o verdadeiro ouro, assim como a pureza interior, só é alcançado pelo fogo das escolhas.

“O alquimista de bastos” mistura razão e mistério, fé e destruição. Quando você começou a perceber que a alquimia poderia ser também uma metáfora para a transformação interior?

Resposta: Quando pensei em utilizar a alquimia como pano de fundo para esse novo universo, eu tinha em mente que gostaria de fazer algo que fugisse das abordagens convencionais. Durante meus estudos sobre o assunto, não foi difícil perceber a riqueza das práticas esotéricas que ditavam o funcionamento da alquimia europeia. Foi desse ponto pouco explorado que surgiu não apenas as particularidades que regiriam uma França alquímica, mas também o fio guia que ligaria a obra a minhas publicações anteriores.

A história se passa em um momento histórico em que o misticismo e a ciência se cruzavam. Você acredita que, de certa forma, vivemos um novo “século XVIII”, em que a busca pelo sentido se confunde novamente com a tecnologia e o poder?

Resposta: Certamente. Vivemos um período de rápida progressão tecnológica concomitante a falência política e econômica em nível global, fatores que justificam uma busca por sentido que, não raro, ultrapassa os limites que a religiosidade deveria ter. Isso tem especial relação com o cenário político polarizado que atualmente vemos em tantos países, inclusive no Brasil.

Simon Durant é um personagem que carrega o peso da imortalidade e da culpa. Como foi criar alguém tão enigmático — e ao mesmo tempo tão humano?

O livro foi criado com base no personagem de Simon. Desde o início, foi ele quem deu o tom a narrativa e quem guiou a história para seu agridoce final. Por conta disso, eu tive muita liberdade em criar esse personagem tão complexo. Certamente uma experiência incrível.

O protagonista, Damian, começa como um jornalista cético, mas termina em uma jornada de fé e autoconhecimento. Existe algo do Gabriel Ract nesse conflito entre o racional e o espiritual?

Eu vou ser bem sincero: ainda não consigo escrever protagonistas que não carreguem algo de mim. Damian não fugiu disso, pelo contrário. Para mim, esse conflito entre fé e racionalidade é central e antigo, e já motivou muitas ações inconsequentes e inúmeras discussões com pessoas que amo. Diferente do protagonista, porém, não evolui espiritualmente por meio de uma experiência de autoconhecimento traumática – ainda bem!

A alquimia, no romance, não se limita ao ouro, mas também à alma. O que, para você, representa essa “transmutação” interior que o livro propõe ao leitor?

Durante a narrativa, a alma é apresentada como uma energia capaz de ser manipulada por alquimistas que conheçam suas propriedades. Tal energia é utilizada inconscientemente para a realização de tarefas essenciais à manutenção do corpo humano, além de servir como importante ponto de conexão com o mundo espiritual. Na obra, a “transmutação interior” citada na questão está muito mais relacionada com a capacidade de outrem de manipular a alma alheia, gerando resultados variáveis.

Sua escrita tem uma densidade simbólica rara — tarot, mitos, arquétipos, religião. Como você equilibra o fascínio pelo esotérico com o compromisso de contar uma história acessível e envolvente?

Resposta: Por maior que seja o apelo dos símbolos esotéricos presentes no livro, a narrativa nunca deixou de receber os holofotes da obra, tendo sido a sua progressão a minha maior prioridade como autor.

A dualidade entre Marie e Simon é central na trama — luz e sombra, lucidez e fascínio. Você acredita que a alma humana precisa desses dois polos para se compreender plenamente?

Na obra, Marie e Simon se apresentam como duas figuras de tutela que, apesar de representarem polos opostos entre razão e espiritualidade, possuem características comuns no que tange a forma como lidam com suas profissões. Eu acredito que a compreensão de si mesmo exige um equilíbrio entre o pensamentos dos dois personagens. Equilíbrio esse que, na obra, só é alcançado pelo personagem de Akin.

 “O alquimista de bastos” fala sobre poder, culpa e redenção. Se você pudesse resumir a essência do livro em uma única pergunta que o leitor deve se fazer ao fim da leitura, qual seria essa pergunta?

Até onde você iria para saciar desejos que a você soam intrusivos?

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