Fernando Grecco eleva a experiência musical com o videoclipe envolvente da faixa instrumental ‘Antes da Palavra’

Luca Moreira
17 Min Read
Fernando Grecco (Carolina Vianna)

O músico e compositor Fernando Grecco presenteia seus ouvintes com uma experiência musical diversificada através do álbum “Vir a Ser”. Recentemente, ele lançou o videoclipe da faixa instrumental “Antes da Palavra”, uma peça musical que não apenas cativa com sua melodia suave, mas também oferece um toque vibrante de ritmo.

A colaboração musical nessa faixa é notável, com a participação especial do talentoso violinista Ricardo Herz, um parceiro de longa data de Grecco no selo fonográfico “Borandá”. A faixa também se destaca pelo trabalho de Marcelo Lemos na guitarra, Igor Pimenta no baixo e Pedro Henning na bateria, todos contribuindo para a riqueza da composição.

Grecco compartilha insights sobre o processo criativo por trás dessa música, revelando como a faixa evoluiu de uma progressão de acordes no violão para uma melodia única. A ausência de letras nessa peça instrumental oferece espaço para a imaginação, permitindo que os ouvintes criem suas próprias narrativas enquanto se envolvem com a música.

O videoclipe, dirigido por Chrys Galante, complementa a atmosfera da canção. Começando de maneira introspectiva e contemplativa, o vídeo gradualmente se transforma, sincronizando-se perfeitamente com os ritmos e mudanças de intensidade da música. Grecco observa que essa faixa, em particular, foi influenciada pelo grupo Shakti, liderado pelo guitarrista John McLaughlin.

Fernando Grecco explora um território musical único ao equilibrar elementos instrumentais cativantes com uma abordagem mais introspectiva. “Antes da Palavra” não é apenas uma demonstração de habilidade musical, mas também um convite para uma viagem sensorial, onde a música se comunica diretamente com as emoções dos ouvintes, transcendendo barreiras linguísticas.

Como você descreveria o processo de composição por trás da faixa instrumental “Antes da Palavra”? Como ela se diferencia das outras músicas em seu álbum “Vir a Ser”?

Sempre escutei e toquei música instrumental (inclusive um de meus trabalhos foi o quarteto Zanzibar, que apresentava versões instrumentais das canções de Edu Lobo, então incluir um tema instrumental em um disco de canções foi uma coisa muito natural. Compus esta canção em 2018 quando montei meu primeiro show autoral de canções “Repente da Palavra” e  “Antes da Palavra” era a música de abertura do show. Sou muito ligado a harmonia e acordes, que para mim é a “paisagem” da música, que dá o contexto do som, e adoro soluções inusitadas e originais de harmonização. Me inspirei em uma cadência harmônica que ouvi em uma canção chamada “Codajás” (Danilo Caymmi e Ronaldo Bastos) que ouvi em um disco da Nana Caymmi que estava ouvindo bastante na época da composição. A partir desta cadência, que começa em um acorde dominante de Mi, comecei em Ré (com a 6a corda do violão reafinada nesta nota, 1 tom abaixo da original) e a cadência a que me refiro modulava do mi dominante para o Do maior, que transposto para o Ré dominante, vai para o Si bemol maior. Provavelmente quem escutar a Codajás não perceberá nenhuma semelhança porque as composições são bem diferentes, mas teve essa inspiração. Os arpejos iniciais de “Antes da Palavra” foram feitos através de acordes no violão que dobrei com a voz, sem seguida cadenciando para o Si Bemol maior, e a partir daí fui compondo o restante da canção, que começa lenta no início (em 67bpms) e acelera (para 100 bpms) na exposição do tema principal, que tem ritmos inspirados no oriente (nas batidas de tabla por exemplo) e no baião.

A música instrumental muitas vezes permite que os ouvintes interpretem e sintam a música de maneiras únicas. Qual é a sua visão sobre essa liberdade interpretativa em relação à faixa “Antes da Palavra”?

Apesar de algumas coisas na minha música e letras serem mais diretos e literais em relação a mensagem junto com as composições, recentemente tenho cada vez mais me aproximado para estilos de composição que deixam parte da interpretação dos supostos significados da obra por conta do ouvinte. Acho que isto pode acontecer tanto em canções (com letras mais poéticas, líricas e com metáforas menos evidentes) como na música instrumental. Tenho achado muito mais rico, seja como compositor ou ouvinte, me aproximar desta abordagem, deixando o “espaço para o outro” expressão esta usada as vezes na psicanálise para descrever relações mais subjetivas e humanas, contrastando com formas de comunicação mais diretas e objetivas, onde o sentido esteja todo dado, n!ao deixando espaço para que o outro tenha sua própria interpretação

O videoclipe de “Antes da Palavra” tem uma atmosfera reflexiva e suave. Como você e o diretor Chrys Galante trabalharam juntos para capturar a essência da música por meio das imagens?

De uma maneira geral, no início pensei nos clipes como registros do momento da gravação em estúdio, e decidi gravar todas as sessões de gravação da última “leva” de 10 canções que gravei entre Maio e Junho de 2022 para concluir o Vir a Ser. Então o ponto de partida foram sempre as sessões de gravação dos discos em meu estúdio, o que aconteceu também com Antes da Palavra. A partir daí, como nas outras canções, buscávamos com o Chrys, dentro dos limites do orçamento, pois tudo foi feito de forma independente, uma sessão adicional de registro de video que pudesse enriquecer e dar mais sentido e beleza a quem está assistindo o clipe e escutando a música. Isto fica mais claro através do playlist dos clipes já lançados, alguns com dançarinas (Maracatu da Verdade), desenho animado (Amor Impossível), andando de bicicleta (Agora) ou nas ruas da Lapa em Sampa (Essa Vai).

Neste caso, em “Antes da Palavra” como as imagens de estúdio teriam uma relevância ainda maior, por causa da participação do Ricardo Herz, optamos por takes meus tocando o violão de 12 cordas e cantando em um ambiente externo no jardim do estúdio, bem arborizado, e durante o dia, que acreditamos ter trazido um resultado legal por causa do clima mais expansivo da composição.

Você mencionou que a música foi influenciada pelo grupo Shakti do guitarrista John McLaughlin. Como essas influências se manifestam na faixa e como você as incorporou em seu próprio estilo?

Quando compus a canção em 2018 não pensei muito nesta influência, mas quando mandei a primeira versão de Pré-produção para o Alê Siqueira, que co-produziu o disco comigo, no final de 2019, ele disse que para ele soava um tema meio indiano, pelo acorde usado (dominante com o intervalo de quarta ou décima primeira) ser uma das “ragas” ou escalas usadas em música indiana. Ele citou uma canção dos Beatles na época (se não me engano a canção Within You Without You do álbum Sargent Peppers, composta por George Harrison), que possui violinos dobrando a melodia.  Gosto desta canção específica, mas não me considero fã dos Beatles, então quando ele falou sobre India e violinos, lembrei imediatamente do Shakti de John McLaughlin (que este ano está em uma grande turnê comemorativa de 50 anos da criação do grupo), que também tinha o violino do L. Shankar na primeira formação, esta sim, uma super influência para mim. Porém, ao contrário do Shakti, que mistura o jazz com a música indiana, e tem muita improvisação e virtuosismo, velocidade, escalas, “Antes da Palavra” está mais para uma canção instrumental, onde os instrumentistas estão privilegiando o tema principal da composição, sem muitas “firulas” e solos.

Acredito que minhas principais influências já estão sedimentadas em meu estilo de tocar e compor, sejam elas de músicos que admiro como John McLaughlin, John Coltrane, Bill Evans, Pat Metheny, Bill Frisell, Chick Corea, Carlos Santana entre muitos outros) ou de compositores cancionistas como Milton Nascimento, Edu Lobo, Tom Jobim, João Bosco, LôBorges, só para citar alguns.

Apesar de “Vir a Ser” ser meu primeiro disco autoral de canções (além de meu EP Repente da Palavra”) já são quase 40 anos de relação com a música, desde que comecei a tocar guitarra com 15 anos em 1984, então boa parte das influências já está enraizada no meu estilo e nas escolhas estéticas que faço tanto na composição, interpretação e produção musical, e outras menos evidentes e mais recentes continuam a ser incorporadas.

A presença do violinista Ricardo Herz e dos outros músicos contribui para a rica textura da faixa. Pode compartilhar um pouco sobre a dinâmica de colaborar com esses talentosos artistas?

Fiz questão no disco de chamar grandes musicistas que admiro, e para minha sorte São Paulo está cheio deles! Conheci o Ricardo Herz através de meu trabalho como fundador, curador e produtor da Borandá, na época através de um trabalho dele no violino em duo com o Antônio Loureiro tocando vibrafone que lançamos em 2014. Fiz um primeiro trabalho de pré-produção, enviando uma versão já bem adiantada da faixa (mas ainda com loops de bateria, sem os demais músicos) comigo tocando baixo, além do violão de 12, sintetizadores e voz. A partir desta versão o Herz gravou em sua casa várias ideias de violinos de rabecas, acho que umas 8 faixas, que ele me mandou antes da gravação da base. Escolhi partes desta interpretação dele, incorporamos ao arranjo original, e mandei de volta para ele e para os músicos, e marcamos a sessão de gravação “valendo” que foi em junho de 2022. Na versão final usamos tanto as gravações deste dia, como alguns trechos que já haviam sido gravados antes pelo Herz.

A “banda base ostentação” como brinco as vezes com eles, tem o Igor Pimenta no baixo, o Marcelo Lemos na guitarra e o Pedro Henning na bateria e já eram meus  conhecidos por terem formado a banda que me acompanhou no show autoral de 2018 “Repente da Palavra” então nada mais natural que convidá-los para esta gravação, além de terem gravado a base de outra faixa, o rap “Inevitável Fim” que fecha o disco. Todos eles têm relação com a música instrumental.

O Igor Pimenta tem um lindo disco instrumental autoral, além de outro lançado pela Borandá com interpretações instrumentais dos Beatles para viola caipira, tocada pelo Neymar Dias, e baixo acústico. O Marcelo Lemos é um amigo que foi o primeiro que chamei para a banda em 2018, e faz parte do grupo “Projeto Coisa Fina” de música instrumental, com quem já excursionou pela Europa. E o Pedro Henning, que está com um estúdio novo produzindo muita coisa bonita, além de ser casado com a grande flautista Mayara Moraes, com quem também toca o seu trabalho instrumental. Um grande privilégio e alegria poder ter estes músicos maravilhosos emprestando seu talento para meu disco!

Como músico, escritor (por enquanto apenas de letras de canções e alguns poemas) e engenheiro (não sou advogado), você explora diversas áreas criativas. Como você vê essas diferentes facetas se influenciando em seu trabalho musical?

Apesar de muitas vezes me interessar muito por algum campo do conhecimento ou manifestação artística e mergulhar fundo na busca de conhecimento, movido pela curiosidade intelectual ou estética, acabo por, após algum tempo, e de forma natural, buscando outras áreas e objetos de investigação. Entre os assuntos onde já me envolvi posso citar as bicicletas, a filosofia e a psicanálise, os equipamentos eletrônicos, sejam computadores ou equipamentos de estúdio, e claro os vários campos ligados a música, seja a composição, a performance, improvisação, produção musical, executiva e divulgação.

Acredito que a música, principalmente a música popular, seja canção ou instrumental. Oferece a possibilidade de reunir, catalisar e sintetizar todo este conhecimento e experiências de vida, desta forma poder buscar e atribuir um sentido a nossa experiência de vida terrena.

A ausência de letras em “Antes da Palavra” permite que a música transmita emoções de maneira única. Você acha que a música instrumental tem o poder de se conectar emocionalmente com o público da mesma forma que as músicas com letras?

Durante muito tempo fui super ligado a música instrumental, e achei que ao iniciar minha carreira fosse seguir está vertente, que como falei acima teve um balão de ensaio com o Quarteto Zanzibar. Porém, desde muito jovem sempre gostei de canções, cresci escutando rádio (quando havia mais diversidade na programação) e televisão (quando as novelas tinham trilhas sonoras de grandes nomes da MPB) mas não me considerava apto a escrever letras. Perdi o medo quando comecei a fazer (e estudar) psicanálise, e entender o papel da linguagem na formação do sujeito e de nossa individualidade.

Acredito que a canção e a música instrumental são complementares. É muito relativo pensar que a canção pode atingir um público maior por ter a letra como referência. O mais importante acredito ser a necessidade do artista, que vem de dentro, e é muito mutável e efêmera. Prefiro pensar que posso lançar mão da canção com letra ou da música instrumental quando o momento de vida o a situação pede.

Além de “Antes da Palavra”, quais são suas músicas favoritas do álbum “Vir a Ser” e por quê?

O Frank Zappa (também uma de minhas grandes referências) costumava responder a esta pergunta que ele não gostava de nenhuma música do novo disco, porque ele tocou e escutou aquelas músicas.

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