Misturando confissão, ironia e crítica, o projeto Capim Cósmico — idealizado pelo músico e compositor Mateus Cursino — apresenta no dia 12 de dezembro o single “Cirrose Hepática”, uma faixa que desnuda a vulnerabilidade humana e expõe a linha tênue entre hábito, vício e autossabotagem. Com influência marcante do post-grunge e refrões banhados em psicodelia, a canção transforma excessos cotidianos em narrativa sensorial e desconfortavelmente familiar. Partindo de um refrão nascido de uma bula de remédio, Cursino constrói um desabafo aberto sobre práticas que romantizamos até que deixem de ser escolha. Para além do álcool, “Cirrose Hepática” provoca um olhar mais profundo sobre limites, prazeres e o momento exato em que algo deixa de libertar — e passa a punir.
“Cirrose Hepática” fala sobre vícios romantizados e hábitos que viram dependência. Em que momento você percebeu que queria transformar esse tema tão delicado em arte — e não apenas em crítica ou desabafo?
A decisão veio quando percebi que esse assunto existe no cotidiano com uma naturalidade assustadora. Ainda mais que moro numa cidade pequena, com pouco mais de 20 mil habitantes, sem muitos atrativos culturais e onde uma das maiores fábricas locais é de uma cachaçaria. Então, eu queria falar disso de maneira indireta, tanto que a letra é bem experimental, influenciada pela música “O Pulso” dos Titãs.
A faixa mistura confissão, ironia e crítica. Como você equilibra vulnerabilidade com sarcasmo na sua escrita, sem amenizar a dor nem cair no tom panfletário?
Esse equilíbrio nasce de olhar para o caos com um certo distanciamento. Eu sempre bebi e nunca me viciei ao ponto de o álcool prejudicar a minha vida. Apesar disso, sempre vivi bem próximo desse caos com amigos totalmente embarcados no vício. O sarcasmo e a licença poética me ajudam a lidar com coisas que muitas vezes me incomodam no convívio social.

O nome Capim Cósmico carrega imagens de espiritualidade e cotidiano. Como essa dualidade — “animal e lisérgico”, como você descreve — se conecta especificamente com o universo de Cirrose Hepática?
“Cirrose Hepática” tem uma temática extremamente humana, visceral — mas a escrita da letra tem algo meio lisérgico, que faz parte da identidade do Capim Cósmico. Essa música existe nesse cruzamento: é uma história comum a muitas pessoas, mas contada com cores e sensações que abrem espaço para um olhar menos direto, quase psicodélico.
Você comentou que pensou em amigos que dependem do álcool diariamente. Como é para você transformar observações tão íntimas e pessoais em narrativa musical? Existe algum limite ético ou emocional que você respeita ao escrever?
A música nasce de vivências reais, mas nunca de forma direta ou identificável. Eu sempre transformo situações que observo no cotidiano em canções autorais. A ideia não é contar a história de alguém, mas traduzir um sentimento coletivo que eu captei de alguma forma. A arte ajuda a elaborar esse tipo de sensação.

A composição nasceu de um refrão tirado de uma bula de remédio. O que te fascina nesse encontro entre o banal, o técnico e o poético? Foi intencional ou surgiu como um acidente criativo?
Surgiu como acidente, mas fiquei extasiado na hora pq a letra começou a surgir naturalmente. É claro que eu tinha referencias que me fizeram achar o caminho da escrita. Porém, foi exatamente o que a musica que já estava sendo feita pedia. E foi feita da forma mais natural possível, sem pensar em técnicas ou algo mais poético. Então, nesse sentido, acho q foi algo quase que banal mais do que qualquer outra coisa pensada ou programada, aconteceu de maneira espontânea.
A faixa traz um peso sonoro marcado pelo post-grunge e um refrão psicodélico. Que sensações você queria que o público experimentasse ao ouvir essa alternância entre tensão e expansão?
O peso do riff de guitarra te puxa pra dentro de um incômodo, acredito eu, e o refrão abre espaço para uma conclusão, utilizando o mesmo riff inicial só que com efeitos psicodélicos. A ideia é que o ouvinte sinta essa oscilação: a tensão de quem está preso num hábito destrutivo e a constatação de um problema que pode ser algo libertador de alguma forma.

A música fala sobre “identificar o ponto onde algo deixa de ser prazer e vira punição”. Para você, qual o maior desafio em reconhecer esses limites na vida real?
A gente normalmente percebe o limite tarde demais. Na hora que percebe, já virou vício. E existe também o fator do costume — quando um hábito vira rotina e a gente para de questionar. Tanto que, entre outros fatores, o álcool é uma droga aceitável socialmente e que vc pode encontrar em qualquer boteco de esquina.
Você disse sentir que muita gente vai se identificar com o tema. Que tipo de conversa você espera que “Cirrose Hepática” provoque — tanto artisticamente quanto social e emocionalmente?
Pensando mais artisticamente, espero que provoque essa mistura de estranhamento e identificação que eu gosto de criar, assim como foi no single “Que Pó Não Vicia”. Se virar gatilho para alguém repensar hábitos ou reconhecer que não está sozinho, já valeu a pena. Isso tem acontecido, ainda bem. É muito legal que todos os lançamentos tenham uma repercussão e identificação com as pessoas, por mais que o projeto Capim Cósmico seja novo e que na música independente tudo é sempre muito nebuloso, os resultados estão me surpreendendo.
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