A história dessa montagem já daria um espetáculo: um conto nunca encenado de uma das maiores escritoras do século XX é entregue por um dos maiores diretores do nosso tempo a uma atriz. Ele lhe diz que daquele conto daria uma boa ‘cena de prêt-a-porter’ ou até uma peça. O tempo passa e, durante a pandemia, quando a atriz se reencontra com o texto, tudo faz sentido. A atriz é Luluh Pavarin, o diretor é Antunes Filho, o conto é “Pictures” (“Cenas”), da escritora neozelandesa Katherine Mansfield, e a pessoa escolhida, com sensibilidade para adaptar e dirigir, é a amiga, atriz e diretora Ester Laccava.

“Testando a Srta. Moss” é uma montagem realizada em linguagem híbrida que funde teatro e audiovisual – fruto da pesquisa da diretora durante o período da pandemia. Integram a equipe a light artist Mirella Brandi, a cenógrafa e diretora de arte Camila Schmidt, a figurinista Ana Luiza Fay, o diretor de fotografia João Wainer, o editor Cesar Gananian, na transmissão ao vivo Ícaro Bueno e na direção de produção Emerson Mostacco.

O projeto foi contemplado pela 14ª Edição do Prêmio Zé Renato de Teatro para a cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura. A temporada será gratuita e terá sessões com audiodescrição e tradução em Libras.

SINOPSE

A peça conta a saga de Ada Moss (Luluh Pavarin), uma cantora contralto que não consegue mais prover a sobrevivência com a própria profissão. A cobrança da dívida do aluguel do seu quarto numa pensão, e a fome, levam a mulher a se submeter a testes e situações humilhantes para um artista. De maneira poética e patética, a personagem revela, com doçura e força, a crueldade daqueles que não reconhecem a importância da arte.  

COM A PALAVRA, A DIRETORA

“Viver esse momento tão duro, iniciado em março de 2020 com o impedimento presencial nos teatros, o desafio de aprender novas linguagens e imaginar que eu realizaria nove trabalhos online em um ano… me parece ainda irreal. Sofrer muito, por um lado, com esse desgoverno, essas mortes sem rituais, e do outro lado, ficar maravilhada com os recursos disponíveis na internet, na maneira de pensar, estudar como seduzir o público com um conteúdo nesse formato, é no mínimo espantoso, inclassificável meu sentimento. Fui pega de surpresa e estou muito interessada em, depois de 40 anos de palco, virar uma atriz, criadora e diretora no audiovisual. Nessa montagem, me dediquei profundamente à adaptação de algo que me comove como artista. Katherine, de maneira sútil, revela o artista durante uma queda: a incapacidade de prover a sobrevivência com a nossa profissão. Me senti autorizada para ‘responder’, de maneira poética, o quão dolorosa, patética, pode ser a inocência de um artista. Imediatamente ao ler o conto pela primeira vez, lembrei de “Anjo Azul”, (filme) do diretor Josef von Sternberg (1930), lembrei também de Agnès Varda, cineasta belga radicada na França, de Emir Kusturica, cineasta e músico sérvio, de Federico Fellini… Todos musos, referências e supostos ‘amigos de sutilezas e de muitas camadas’ de uma Katherine Mansfield. Por fim, pude contar com uma equipe maravilhosa que me acompanha na última década e, com absoluta certeza, entende minha língua”.  

Ester Laccava.

A PEÇA

“Testando a Srta. Moss” tem formato híbrido: o almoxarifado do teatro João Caetano foi transformado no quarto de pensão da protagonista. É lá que acontecem as cenas transmitidas ao vivo com a atriz. Todas as cenas que envolvem os outros personagens estão pré-gravadas, e assim o jogo se faz, tanto nas atuações, como nos cortes de transmissão. O elenco filmado conta com Flavia Pucci, Maria Manoella, Mário Bortolotto, Ondina Clais, Germano Melo e a cantora Adyel, entre outros. As locações externas aproveitaram espaços conhecidos da vida artística de São Paulo, como a fachada do Theatro Municipal de São Paulo, o Teatro Municipal João Caetano (almoxarifado, palco, plateia , bilheteria), o Drosophyla Bar e a Confeitaria Lollobrigida. A ideia é naturalizar a situação da personagem dentro um panorama mais amplo: o ambiente artístico da cidade e a dureza de uma atriz madura na rede da indústria cultural.

A montagem, assim, aproveitará a estrutura do texto para criar uma dramaturgia capaz de se aprofundar nos estados psíquicos da protagonista, Srta. Moss, utilizando-se de elementos do audiovisual.

O CONTO DE KATHERINE MANSFIELD

Em “Cenas”, Katherine Mansfield desenvolve sua narrativa em torno de temas como a letargia, o desespero, a dedicação, a determinação, a rejeição e escapismo. Publicado originalmente em “Felicidade e outras estórias”, o conto é narrado por uma terceira pessoa desconhecida, que lança o tema da inércia logo de partida. Vendo a personagem Ada Moss deitada em sua cama, temos o primeiro vislumbre de sua vida estanque, de uma pessoa entregue e enraizada. Esse processo de letargia vai se tornando cada vez mais claro ao longo da narrativa.

Para contrapor esse ambiente de latência, a autora constrói uma personagem dedicada a encontrar um trabalho na área do entretenimento a qualquer custo, a fim de ter condições de pagar seu aluguel. Como metáfora de um mundo irreal que anseia, o contraponto entre a inércia e a determinação cria uma zona de fricção que ditará o espírito do texto: o desespero iminente. Ada Moss observa o mundo como uma ficção à qual ela não pertence, já que em sua narrativa pessoal ela é a protagonista. 

O SURGIMENTO DO TERMO “PRÊT-A-PORTER”, DE ANTUNES FILHO, E O PRESENTE DO DIRETOR À ATRIZ

Quem conta é Luluh Pavarin:

“Há 25 anos, ganhei de presente do diretor Antunes Filho o livro ‘Felicidade e outros contos’, de Katherine Mansfield. Antunes estava feliz com nossas cenas de ‘falso naturalismo’ e nos estimulava a procurar cenas fora do nosso universo. Dizia que saíssemos às ruas e observássemos a vida de outras pessoas, procurássemos em livros, lendo bons contos, por exemplo. Um dia saí para andar no Centro da Cidade de São Paulo, em busca de uma ideia inédita para apresentar uma nova cena ao Antunes. Ao ver uma vendedora de café conversando com um homem vestindo uma placa de anúncio de venda de ouro, me inspirei a fazer uma cena: uma mulher que vendia café na Barão de Itapetininga e tinha um relacionamento com um homem que fazia propaganda de ouro usado, usando uma placa que tomava todo seu corpo, o homem-placa. O único sonho daquela mulher era entrar no Theatro Municipal e assistir à ópera La Traviata com seu amado, e só um deles consegue assistir, pois uma fatalidade acontece com um deles. Antunes gostou tanto da cena que chamou o (cenógrafo) J.C. Serroni e disse que, daquele dia em diante, as cenas de ‘falso naturalismo’ passariam a ser chamadas de PRÊT-À-PORTER e seriam apresentadas em espaços alternativos do SESC. Teve essa ideia com a nossa cena. Ficamos honrados com isso até hoje.

Nessa ocasião, Antunes me presenteou com o livro da Katherine Mansfield e apontou um conto, em especial. Ele me disse: ‘aqui daria uma cena pra senhora’. O conto se chama ‘Pictures’. Ao ler, entendi exatamente o que ele quis dizer. Era um conto muito forte, comovente e poético. Os anos se passaram e esse sonho sempre me acompanhava. Acho que, dentro de mim, pensava que um dia voltaria ao CPT e realizaria a cena com ele. Eu tinha um pensamento constante de que não podia morrer antes de montar aquele conto. Com a partida de Antunes, me dediquei a realizar esse objetivo. Veio a pandemia e, em casa, passei a ler todos os contos da Katherine, entrando em estado de pesquisa. O conto não especifica a idade da personagem, e senti que, para mim, ficou muito mais forte e significativo representar a Ada Moss na minha idade atual. E lá vamos nós, realizar esse meu sonho, presente do meu eterno mestre Antunes Filho.

Por coincidência, admiração e amizade construída ao longo da vida, boa parte do elenco de ‘Testando a Srta Moss’ passou pelo CPT – Centro de Pesquisa Teatral, desde Flavia Pucci, passando por Ondina Clais, Germano Melo, Geraldo Mário (Geraldinho) a Fernanda Gonçalves, que fez a última peça que Antunes dirigiu.

FICHA TÉCNICA

Idealização: Luluh Pavarin

Roteiro Adaptado: Ester Laccava (do conto “Pictures” de Katherine Mansfield)

Direção Geral e Concepção: Ester Laccava

Direção de Fotografia: João Wainer

Direção de Produção: Emerson Mostacco

Direção de Set: Elzemann Neves

Direção de Arte e Cenografia: Camila Schmidt

Desenho de Luz: Mirella Brandi

Figurinos: Ana Luiza Fay

Caracterização: Bia Liberado

Elenco Transmissão ao Vivo: Luluh Pavarin

Elenco Filmagens: Adyel, Ariane Roveri, Ester Laccava, Fernanda Gonçalves, Flavia Pucci, Geraldo Mário da Silva (Geraldinho), Germano Melo, Ivan Capúa, Izabela Pimentel, Luluh Pavarin, Maria Manoella, Mário Bortolotto, Ondina Clais, Roseane Muniz

Trilha Sonora e Mixagem de Som: Cesar Gananian

Edição e Finalização: Cesar Gananian

Continuidade: Elzemann Neves

Animação: Pedro Lacava (lax.artt)

Transmissão ao Vivo e Direção de Corte: Ícarus

Direção de Fotografia em Transmissão ao Vivo: Ícaro Bueno

Cinegrafistas em Transmissão ao Vivo: Rafael Torres, Vitor Domingues.

Operador de Corte: Felipe Lemes

Assistente de Direção de Transmissão ao Vivo: Lucas Mota

Assistentes de Câmera Filmagens: Renato Nascimento, Helena Wainer, Uerlem Queiroz

Assistente de Direção: Ariane Roveri 

Assistentes de Produção: Camila Coltri e Fernando Felix

Assistente de Fotografia: Elzemann Neves

Assistente de Direção de Arte: Camila Siqueira 

Assistente de Figurinos: Jerry Gilli

Assistente e Operador de Luz: Alexandre Zullu

Técnico de Som: Uerlem Queiroz

Autor do Poema em off “O Retrato”: Guilherme Pavarin  

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany 

Gerenciamento de Mídia Sociais: Mostacco Produções

Projeto Gráfico: Laerte Késsimos

Fotos de Cena e Still nas Filmagens: João Caldas

Assistente de Foto de Divulgação e Still: Andréia Machado

Audiodescrição da Acessibilidade Criativa – Roteiro e narração: Paula Souza Lopez

Consultoria Audiodescrição: Cleber Tolini

Tradução em Libras: IBT Libras

Equipe de Montagem de Luz: Batystaka Terceirização De Serviços Especializados e Alexandre Zullu.

Adereços e Cenotécnico: Zé Valdir Albuquerque

Costureira: Lande Figurinos

Modelista Tailleur: Aline Pagliares

Assessoria Administrativa: Emerson Mostacco

Segurança nas Filmagens: Ronaldo Britto

Motorista da Van nas Filmagens: Orlando Aparecido da Silva Filho

Figuração: Alexandre Lavoura, Amanda Capelatto, Beatriz Pacheco, Carol Tello, Célia Brito, Felipe Carvalho, Fernanda Mazetti, Fernando Diniz, Gabi Alezopulos, Gabriel Cabal, Jiraia (Lucas Serrano), Guilherme Gomes de Oliveira, Heloysa Ramos, Janaina Mendes, Jordan Costa, Kelma Bitencourt, Larissa Fernandes Ferreira, Mufasa (Antonio Carneiro), Natália Pires, Paulo Veras, Talita Prado, Thainá Mendes.

Produtora Associada: Mostacco Produções

Correalização: Rede de Teatros e Produtores Independentes e Luluh Pavarin Produções Artísticas

Realização: Prêmio Zé Renato de Teatro, Secretaria Municipal de Cultura e a Prefeitura de São Paulo — Cultura

LULUH PAVARIN – atriz e idealizadora

Luluh Pavarin, reconhecida por uma marcante trajetória no teatro, trabalhou com diretores como Antunes Filho, Gabriel Vilella, Eduardo Tolentino, Rubens Rusche, Mário Bortolotto, Hugo Possolo, Eric Lenate, Alexandre Reinecke e, ainda teve a oportunidade de ser dirigida por Plínio Marcos num texto do mesmo.

Dentre as suas atuações mais importantes no teatro estão “Paraíso Zona Norte” e “Drácula e Outros Vampiros”, direção Antunes Filho; “Guerra Santa”, direção Gabriel Vilella; “Vestido de Noiva” e “Rastro Atrás”, direção Eduardo Tolentino; “Ludwig e as Irmãs”, direção Mauricio Paroni; “Como Ser Uma Pessoa Pior”, direção Mário Bortolotto; “Toc Toc”, direção Alexandre Heinecke; “Amor de Mãe”, direção Eric Lenate; “Quando Eu Era Bonita”, texto e direção de Elzemann Neves e “Não Somos Amigas”, direção Maria Maya.

Na TV, atuou na minissérie “Amor em 4 Atos”, direção de Bruno Barreto, e em novelas como “Passione”, “Laços de Família”, “Meu Bem Querer”, “Zazá”, “Deus Nos Acuda” (TV Globo); “Pupilas do Senhor Reitor”, “Sangue do Meu Sangue” (SBT); “Galera” e, nos anos de 2009 e 2010, protagonizou a série “Profissão Professor”, “Senta Que Lá Vem Comédia”, edição de Natal (TV Cultura); “Destino São Paulo”, Episódio “Par Perdido”, direção Alex Gabassi (HBO); “Natureza Morta”, direção Flavio Frederico e Maurico Pasta (CineBrasilTV); série “Unidade Básica”, direç& ;ati lde;o Carlos Cortez e Carolina Okoshi Fioratti, “A Grande Viagem”, direção Carolina Okoshi Fioratti (TV Cultura e Universal Chanel); “Samantha”, (Netflix); e a série “Colônia”, de Andre Ristum (Canal Brasil e Globoplay).

No cinema, atuou em filmes como “Copacabana”, de Carla Camuratti; “Por Detrás do Pano”, de Luis Villaça; “Um Homem Qualquer”, de Caio Vecchi; “Não Por Acaso”, de Philippe Barcinski; “Magnata”, de Johny Araújo; “Irina”, de Priscila Gontijo e Sabrina Greve; “Segundo Movimento para Piano e Costura”, de Philippe Barcinski e Marco Del Fiol; “Super Pai”, de Pedro Amorim; “Apneia”, de Maurício Iça.

Foi protagonista nos curtas metragens “E Agora Dora”, de Xico de Deus (produzido pela O2); “Rubi”, de Fábio Novello e “Depois do Almoço”, de Rodrigo Diaz Diaz, filme vencedor nas categorias de melhor roteiro e melhor filme no Festival de Paulínia de 2010 e melhor atriz no Festival de Cinema de Campos do Jordão, e ainda com esse filme recebeu mais um prêmio de melhor atriz, no Mube. E, “O menino e a Panela”, de Cao Hamburger.

ESTER LACCAVA – adaptadora, roteirista e diretora

Formada em ballet clássico, moderno, contemporâneo e jazz. Integrante da Companhia “Visão” de dança, com direção de Adib Nagin, fazendo uma longa carreira em festivais e shows. Deu aulas de jazz em Yelm, Washington (USA). Participou de cursos de flamenco e clássico no conceituado centro de dança de “Marais” (Paris). Aperfeiçoou sua técnica durante dois anos com o ilustre professor Ismael Guiser. No teatro desde 1983, trabalhou com diversos diretores da cena nacional e internacional. Em 2004, com “Garotas da Quadra”, de Rebecca Prichard (8º Festival Cultura Inglesa), recebeu duas indicações ao prêmio Shell 2004 de Melhor Atriz e Melhor Tradução. Em 2007, produziu, atuou e traduziu “A festa de Abigaiú” de Mike Leigh, ganhando o prêmio de Melhor Espetáculo no Festival da Cultura Inglesa e sendo indicada pela revista VEJA SP como melhor peça de teatro em 2007 e ao prêmio Shell 2007 na categoria de Melhor Atriz. Em 2010, produziu “Piscina sem água” de Mark Ravenhill, eleito melhor espetáculo do Festival da Cultura Inglesa. Em 2011, produziu e atuou em “A árvore seca” de Alexandre Sansão, recebendo sua 4ª indicação ao Shell de Melhor Atriz. Em 2016 produziu e atuou em “Quando eu era bonita”, com texto e direção de Elzemann Neves. Em 2018, participou da peça “Kansas”, de Gabriela Mellão, e em 2019 estreou sua nova criação, “Ossada”. Em 2020, dirigiu uma série de trabalhos para streaming, dentre eles “A Árvore”, com Alessandra Negrini. Bailarina e atriz, reuniu seu background para prestar consultoria a diretores, cantores, atores e palestrantes na arte de representar.